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Matéria Corrida

A poltrona de couro preto

TEXTO José Cláudio

05 de Novembro de 2020

Gravura da artista Maria Tomaselli

Gravura da artista Maria Tomaselli

Imagem Reprodução

Quem escreveu um senhor livro, de grande dignidade, e que aliás já vinha escrevendo há muito tempo, sendo este último, A poltrona de couro preto, como se fosse o clímax do enredo, mas que se estende por mais de 300 páginas, pelo livro todo, foi a pintora Maria Tomaselli Cirne Lima. Ela mora em Porto Alegre, viúva do professor de filosofia Carlos Cirne Lima, protagonista em todos os momentos da vida da autora. Carlos era gaúcho, mas tinha orgulho de sua origem “indígena”, dizia ele, daqui de Pernambuco, descendente de Adolfo Cirne, que deu nome à praça da Faculdade de Direito do Recife, de que foi diretor.

O livro trata do último período da vida de Carlos, ficando Maria em idade avançada, perto dos oitenta, sendo ele poucos anos mais velho. Conheceram-se em Innsbruck, no Tirol, de onde é Maria, residindo então Carlos em Viena onde professor.

De tão afetada pela doença do marido, por pouco não morreu também ela, até antes dele, assistindo-o o tempo todo, ele justamente nessa poltrona de couro preto de onde só saía para a cama.

Este último livro, roman à clef, que não me lembro se os outros o são, lido por mim com tal alvoroço, trata do único assunto da autora: a doença de Carlos.

Um dos professores de Carlos, na Alemanha ou na Áustria, na Europa enfim, aconselhou-o a estudar administração de empresas, condição sine qua non para ser seu aluno. Porque filosofia não dava para viver. E de fato a certa altura Carlos foi contratado para acompanhar o fechamento da fábrica Tacaruna, ocasião em que adquiriu a casa da Rua do Amparo, quando conheci Maria Tomaselli. Ela trabalhou na Guaianases e tive oportunidade de escrever um prefácio para um seu álbum de litografias. Nesse A poltrona ela chama o marido de Téo em homenagem ao irmão de Van Gogh, por ter o então futuro marido prometido ao pai da noiva que ela poderia dedicar-se à pintura sem aperreios de dinheiro, que ele a sustentaria, como de fato se deu. Carlos foi preparado para ser jesuíta. Estudara latim, grego e alemão desde criança. Foi colega de estudos de Aloisius Ratzinger, depois Papa Bento XVI, tendo tido alguns “pegas” com ele, saindo-lhe com o dedo no nariz, pelas concepções ultraconservadoras de Ratzinger.

Além de Maria Tomaselli se referir cansativamente ao Brasil atual, até da perspectiva privilegiada de austríaca em que foi criada, Brasil que nos choca até a nós brasileiros, ela, e também o marido, não abandonam um ideal, uma utopia, de que poderemos nos aproximar no dia em que não houver fome nem faltar saúde, emprego, nem moradia para todos os brasileiros. Trazem para a vida diária problemas de profundidade difícil de avaliar. É por isso que no princípio falei de “dignidade”, pensando no alto nível em que se situam seus raciocínios e interesses, e na intensidade do amor do casal entre si e ao Brasil.

Deve ser difícil para o intelectual estrangeiro escolher o que vai ser quanto à nacionalidade. Me valho dos estudos de Pierre Verger sobre os escravos. Houve vários comportamentos e é o que me ocorre ao falar desse outro extremo, de gente vindo espontaneamente e de outro nível econômico e social, mas que surpreendentemente se parecem. Entre os escravos havia os que procuravam manter aqui o status da África, até de rainha, por exemplo, sua religião e estrutura de poder que subsiste até hoje no Brasil e outros países; havia os que assimilavam a nova cultura, chegando a gerenciar as propriedades de que eram escravos, a conveniência de sinhazinhas e senhorzinhos irem estudar na Europa, montarem uma feitoria na África para aquisição de novos escravos, que eram trocados por mercadorias, construírem armazéns para estocarem tais mercadorias e manter um verdadeiro exército tanto para protegê-las quanto para segurar e alimentar os escravos recém-adquiridos: eram esses que ocupavam cargos de hierarquia no próprio engenho, capitães-do-mato e outros, pois os engenhos constituíam uma empresa enorme; e havia os que voltavam para a África, como se pode constatar no Benim. Na arquitetura, mesquitas que parecem cópias de igrejas barrocas, nos prédios com terraços de casa-grande, na lista telefônica em que predominam nomes brasileiros, como Silva, que pronunciam silvá, Souza, que pronunciam suzá, uma infinidade de Nascimento, inclusive Nascimento do Nascimento, uma total mitificação do Brasil (a primeira vez que fui botar uma carta no correio, a moça, quando viu meu nome, saiu do guichê, fez a volta no balcão e veio me abraçar dizendo “Moi aussi je suis ‘da Silvá’!”, eu também sou da silva.

Acho que Maria Tomaselli sempre esteve dividida entre todas essas atitudes e mais outras. O fato de ser do Tirol já será um caso complicado. O Tirol já abrangeu parte da Alemanha, a Baviera; parte já pertenceu à Itália, de onde vem seu nome Tomaselli; já pertenceu à França; e no caso dela o Brasil, onde tem vivido a maior parte da vida. Talvez tivesse ajudado se houvesse filhos. Mas só engravidou uma vez e perdeu, já nos dias de nascer. Se existissem os recursos que temos hoje, incubadora, por exemplo, teria sobrevivido.

Eu até sugeri que chamasse alguém de sua família, que ela tem irmãos, irmãs, para ficar uns tempos com ela, agora pela morte do marido. Infelizmente a Áustria ou o Brasil estão fechados, sem deixar sair ninguém por causa do agravamento da segunda onda da pandemia.

Maria pegou no Brasil o auge do nacionalismo na arte no século passado. Mesmo um artista maduro, como Segall, foi obrigado a abandonar sua pintura “cor de pomada”, como dizia Di Cavalcanti, e pintar negros e bananeiras com cores primárias, que dirá Maria, uma jovem artista em formação e suas várias nacionalidades! Mário de Andrade não perdoou nem Machado de Assis, acusado de renegar suas raízes. Maria durante algum tempo andou fazendo instalações, umas ocas (ocas de índio) com roupas velhas ou pedaços de tábuas. Mas depois que saiu daqui de Olinda confesso que não pude acompanhar de perto sua obra. Parece que nela predominou uma coisa bem modernista, a pesquisa, o eterno aprendizado, e a interiorização.

Vamos ver se quando o Brasil voltar ao normal ela se lembrará de Olinda, quem sabe um lançamento do A poltrona de couro preto e uma pequena retrospectiva para nos mostrar o que andou fazendo esse tempo todo além de cuidar do marido.


*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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