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Primeira pessoa

TEXTO Karina Buhr

17 de Novembro de 2020

Ilustração Karina Buhr

Minha mão na tua cara.
Sendo macia, meu pé na frente, batendo no seu, parecendo dança, parecendo briga, a depender da distância, ângulo de visão, dos pontos de fuga ou não.
Uma certa poeira levanta, ou é reboco de parede.
Ou é fuligem de carro.
Queria que fosse areia de praia, uma praia suspensa, pingando areia na dimensão de baixo, aqui onde se encontram os mortais, era só subir um andar e entrar nela, bem quente ardendo no pé, bem caldinho de feijão salgado do mar, bem com medo de camarão na bacia, bem no raso pois tubarão. Nunca fomos tão mortais. 

O meio da rua parece apertar meu pescoço, levo um susto, garganta seca, guardei uma memória de competição, luta livre, mas era só carinho mesmo da natureza que ainda resiste, uma moleza, vontade de vento batendo.
Às vezes é assim, só simples, leve, plano único.
Vento ventando, chuva chovendo, tempo que prestíssimo no pêndulo, um pé depois o outro, até chegar em sei lá quando, talvez a gente chegue no próximo século.
Tenho mania de atravessar séculos, já passei de um pra outro, porque não mais um?
Já sei como é, acostumada, tiro de letra, tranquila, novos costumes, coisas melhores e também piores, gente do século novo se achando melhor, as do século passado se sentindo mal, no fim talvez dê empate.

Minha mão úmida que esmurra é golpe no ar, bate em ninguém e se bater escorrega. Como é o nome mesmo do aparelho que mede umidade?  
“Medidor de umidade”, me disse o buscador. Já não basta perder o H – coisa muito grave e desconfortável pra pessoas do século passado – me dê um nome mais bonito, pedi pra ele e ele atendeu: Termo-higrômetro.
Agora sim.
Um termo-seiquelá desse aí ia dizer qual o grau de escorregadiça da minha mão.
Não sei se é nervoso, pode ser febre, deuzulivre, pode ser só medo de rua e de gente. 

Água purinha gotejando dos dedos, suor frio, feito raiva que se sente quando a gente argumenta errado, erra a receita, dá uma falha no pensamento.
Falamos demais e tudo deu errado.
Mas ontem deu tudo certo. Ontem foi um dia bom.
Na verdade foi anteontem.

Sinto cada pedaço de músculo, não sinto todos os outros, atrofiados, não dançava faz tempo, não lembro se já lutei, troquei socos, porrada e bomba.
Não sei nem a diferença entre soco e murro, imagina!
Faca, facão, punhal, de nada disso me lembro, vagarosamente minha perna estica, num movimento perfeito do passo que só o corpo lembrava e a cabeça nem desconfia.
Eu abraço seu pescoço também mas é estranho como você nunca pensa que vai ser briga, espasmo violento. Nossas memórias dos movimentos são diferentes, a minha ríspida, ressentida, doída fundo, não sei por que, preciso saber.
Vou procurar nos livros, perguntar pros amigos, talvez alguém desconfie os motivos e explane, talvez eu desconfie dos motivos e argumente.

Estamos dançando na calçada da frente e a gente não tem figurino nenhum e isso também me deixa duvidosa do otimismo com a cena. O palco, essa coisa portal, é coisa do passado, sim, tudo ficou lá, não trouxe nada comigo, nem sei o que fazer com as coisas que caíram no meu colo.
É mais normal brigar do que dançar na rua, a não ser por carnaval na cidade alta.
Sua mão na minha cara, sendo fria, seu pé atrás, batendo no meu, parecendo briga, que estranho, a pessimista ainda sou eu.

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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