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Entrevista

“Sou o primeiro cineasta negro a representar a França no Oscar”

Filho de imigrantes, Ladj Ly fala sobre seu filme 'Les misérables', que dividiu o Prêmio do Júri com 'Bacurau', em Cannes, e está entre os indicados a melhor filme internacional pela Academia

TEXTO MARIANE MORISAWA, DE ZURIQUE

16 de Janeiro de 2020

Diretor foi criado no mesmo subúrbio de Montfermeil, onde também se passa o clássico de Victor Hugo

Diretor foi criado no mesmo subúrbio de Montfermeil, onde também se passa o clássico de Victor Hugo

Foto JOEL SAGET/AFP

Em meados do século XIX, o escritor francês Victor Hugo falou dos excluídos de Montfermeil, subúrbio de Paris, em seu romance Os miseráveis, que se tornou um dos clássicos da literatura ocidental. Cerca de 150 anos mais tarde, o cineasta Ladj Ly, filho de imigrantes malineses, pegou emprestado o nome do livro para seu filme (Les misérables, 2019), passado no mesmo subúrbio de Montfermeil, onde foi criado. A diferença é que, agora, os excluídos são imigrantes e seus descendentes, a maioria vinda das antigas colônias francesas na África. O filme abre com jovens saindo dos subúrbios e pegando trens para ir à Paris dos cartões-postais, a fim de comemorar a conquista da Copa do Mundo pela seleção de seu país – formada, aliás, majoritariamente por filhos de imigrantes – e depois mostra as tensões e o conflito aberto com a polícia.

Ladj Ly foi o primeiro cineasta negro francês a estar na competição do Festival de Cannes, em 2019, quando dividiu o Prêmio do Júri com Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. O filme também é o primeiro candidato da França ao Oscar de filme internacional dirigido por um negro. O diretor falou à Continente durante o Festival de Zurique do ano passado, comentando sobre miséria, racismo e o Brasil, onde esteve junto ao fotógrafo JR para um projeto no Morro da Providência, no Rio.

O filme está em cartaz em algumas cidades brasileiras, incluindo o Recife (Cinema da Fundação).


Cena do filme de Ladj Ly. Imagem: Reprodução

CONTINENTE O romance Os miseráveis é uma história de pessoas rejeitadas e esquecidas, mas brancas. E depois se transformou num daqueles musicais bombásticos. Por que quis usar o título?
LADJ LY Escolhi esse título pela simples razão de que é um romance que fala sobre miséria, sobre pobreza e também sobre o bairro onde moro, o local real onde o livro se passa. E a miséria ainda está lá. Então, quando escolho esse título, é basicamente uma referência. Se você quiser, pode encontrar elementos do romance. Podemos dizer, por exemplo, que os meninos são Gavroche. E que o policial talvez seja Javert. Mas não é uma adaptação.

CONTINENTE Qual é a sua opinião sobre o que aconteceu com o filme depois de Cannes? Porque você parece ter feito uma história muito francesa, que ainda assim é surpreendentemente universal.
LADJ LY Essa é a mágica, a força de Cannes. Você pode trazer um pequeno filme e obter reconhecimento internacional. E este foi um filme feito em francês, nos subúrbios de Paris. É muito específico, mas também é um filme sobre a infância, a miséria. E esses são tópicos universais. Por isso o filme é bem-recebido em outros lugares.

CONTINENTE Qual seu sentimento depois de ganhar um prêmio em Cannes e ser selecionado para o Oscar?
LADJ LY Estou muito orgulhoso porque, há apenas um ano, não tínhamos ideia de que seria assim. Tínhamos um orçamento pequeno, de 1 milhão de euros, e era um risco. E agora temos todo esse sucesso em festivais, temos Cannes, temos o Oscar. Mas somos um coletivo que trabalha no cinema há 20 anos. Não aconteceu da noite para o dia.

CONTINENTE O Brasil tem muitos pontos em comum com a história que você está contando. Jovens da favela foram privados de direitos e há um relacionamento tenso com a polícia. Muitos filmes brasileiros trataram disso, então queria saber se você se inspirou em algum filme brasileiro.
LADJ LY Vi Cidade de Deus (Fernando Meireles, Kátia Lund, 2002), um filme que marcou todos nós. Foi com ele que aprendi sobre a violência nas favelas. Alguns anos atrás, passei um mês no Brasil fazendo um projeto e entrei em contato com a violência, a miséria, a exclusão. Era muito parecido com o meu bairro. Soube, naquela época, que essa história teria uma ressonância universal, porque eu vi tudo o que havia no meu bairro no Brasil.

CONTINENTE Em Cannes, você disse que convidou o presidente Emmanuel Macron para assistir ao filme. Ele viu?
LADJ LY Ele recebeu o convite e respondeu nos chamando para o Palácio Eliseu (residência oficial). Recusei porque queria que ele viesse a Montfermeil e assistisse na minha escola. Ele não respondeu a esse convite (cerca de um mês após a entrevista, Macron viu o filme em DVD e, segundo relatos, ele ficou impressionado com o retrato feito dos subúrbios pobres de Paris).

CONTINENTE O que você queria que ele fizesse, o que deveria mudar?
LADJ LY Primeiro, e acima de tudo, sou um artista, o que faço é observar a situação e retratá-la. Essa situação já dura algum tempo. Não estou aqui para oferecer soluções, mas, se eu pudesse apontar direções, seria educação e cultura. Esses são os caminhos a seguir e a França é uma nação que é grande o suficiente e deve ser grande o suficiente para resolver esse tipo de problema.

CONTINENTE Em todo o mundo muitas pessoas estão sendo deixadas para trás. Por quê?
LADJ LY É uma questão complicada. E na França isso já dura centenas de anos. O país tem uma história de escravidão, de guerra, de colonização e tudo isso, é claro, impacta nas pessoas negras, nas pessoas com herança negra. No mundo anglófono, tem sido uma tendência trazer isso à tona e falar mais sobre o tema. Na França, permanece um certo grau de frustração, porque não se trata do assunto adequadamente.

CONTINENTE Por que não há tantas mulheres no filme?
LADJ LY Existem mulheres no meu filme, mas Os miseráveis é sobre violência urbana, sobre violência nas ruas e o que você vê com frequência é que as mulheres tendem a se afastar por não quererem fazer parte da parte dessa violência nas ruas, que é uma coisa masculina. E esse é o tema do meu filme. Portanto, as mulheres estão lá, mas não são centrais para essa narrativa de violência urbana.



CONTINENTE Você acha que talvez homens e meninos se envolvam mais por pressão social?
LADJ LY Não. Para mim, é uma coisa muito masculina. Se pedras forem jogadas na estrada, basicamente serão meninos e homens que farão isso. Se as mulheres quiserem vir, estão convidadas a se juntar a nós. Tentei contar uma história humana, sem preconceitos. Eu mesmo já tive minha experiência com a polícia, 40 vezes ou mais, mas, ainda assim, não julgo os policiais, não os culpo por nada. Estou tentando entender todos os envolvidos.

CONTINENTE Os negros, no Brasil, nos Estados Unidos e imagino que na França, são sempre mais visados pela polícia. Foi muito desafiador tentar ser objetivo e justo?
LADJ LY É difícil e complicado. Não vou entrar na minha história com a polícia em detalhes (Ly foi condenado três vezes, uma delas por cumplicidade num sequestro, que ele nega). Mas como cineasta fazendo um filme como esse, tenho certas responsabilidades. E, entre elas, está retratar os subúrbios como uma pessoa neutra, porque eu quero documentar, quero mostrar como é. Não estou aqui para julgar. E como você pode ver no filme, os dois lados têm pessoas inteligentes, legais, e pessoas menos gentis e menos inteligentes. Por causa de quem eu sou, esperavam que fosse um filme antipolícia, mas meu objetivo não era fazer isso.

CONTINENTE Foi difícil financiar este filme? Se fosse um cineasta francês branco, teria sido mais fácil?
LADJ LY O financiamento foi difícil, trabalhamos com metade do orçamento que inicialmente queríamos. E quanto a ser mais fácil para um branco, não sei dizer porque sou negro, mas obviamente o cinema francês é um clubinho muito fechado. São sempre as mesmas pessoas fazendo filmes semelhantes e se você tiver um projeto diferente, é difícil financiar. Sou o primeiro cineasta negro a ser escolhido na competição em Cannes, o primeiro cineasta negro a representar a França no Oscar, então obviamente há um problema.

CONTINENTE Muitas cineastas mulheres se ressentem de que o seu gênero seja mencionado o tempo todo. Você fica incomodado que sua etnia seja mencionada o tempo todo?
LADJ LY É a realidade. Se você é francês e negro, é difícil conseguir alguma coisa. E a França é um país muito conservador e dificilmente é possível, como negro, conseguir um emprego importante. Portanto, não se trata de empoderamento negro nem nada. É simplesmente uma questão de lutar pela igualdade.



MARIANE MORISAWA é jornalista apaixonada por cinema. Vive a duas quadras do Chinese Theater, em Hollywood, e cobre festivais.

 

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