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“Fiz um filme sobre Paul Watson porque ele não cede”

Diretora americana Lesley Chilcott retrata Paul Watson, um dos fundadores do Greenpeace e ferrenho ativista contra a pesca ilegal nos oceanos, em documentário exibido no Festival de Zurique

TEXTO MARIANE MORISAWA, DE ZURIQUE

08 de Outubro de 2019

A diretora em uma das sessões no Festival de Zurique

A diretora em uma das sessões no Festival de Zurique

FOTO ZFF/Divulgação

Em seus filmes anteriores, a americana Lesley Chilcott focou em universos femininos. A small section of the world (2014) fala de um grupo de mulheres produtoras de café na Costa Rica, enquanto Code girl (2015) mostra meninas adolescentes do mundo inteiro desenvolvendo aplicativos. Em seu terceiro longa, Watson, exibido no Festival de Zurique, ela conta a história de um homem: Paul Watson, um dos fundadores do Greenpeace (que contesta a informação) e conhecido pelas táticas agressivas para impedir a pesca ilegal nos oceanos com suas organização, a Sea Shepherd. “O que me fez querer fazer um filme sobre Paul Watson é que ele não cede”, disse a diretora em entrevista ao site da Continente. Não que ela seja estrangeira no ramo do ambientalismo, já que foi produtora de Uma verdade inconveniente (2006) e Uma verdade mais inconveniente (2017), sobre os esforços do ex-vice-presidente americano Al Gore pela defesa do meio ambiente.

Watson mistura entrevistas com seu personagem principal, que na época das filmagens estava impedido de sair dos Estados Unidos por ter dois alertas vermelhos da Interpol, um da Costa Rica e outro do Japão, com imagens de arquivo desde o começo de sua carreira de ativista. Uma de suas primeiras ações espetaculares foi se amarrar a peles de focas bebês sendo içadas por um navio, em que quase se afogou e morreu de hipotermia, ainda na época do Greenpeace. Por conta disso, foi afastado da organização, que considerou a missão violenta. Foi então que ele montou a Sea Shepherd, que aborda navios-pesqueiros e baleeiros em atividades ilegais mundo afora, muitas vezes atingindo os barcos para inutilizá-los, o que lhe valeu a pecha de eco-terrorista. A seguir, os principais trechos da entrevista com Chilcott.

CONTINENTE O que chamou sua atenção neste homem?
LESLEY CHILCOTT O fato de ele não ceder. E vivendo nos Estados Unidos agora, vemos nossos políticos cederem em tudo. O movimento ambientalista parece que dá um passo adiante e dois para trás. Então é uma surpresa haver esse homem que é rebelde desde os 18 anos de idade, que não hesitaria em puxar o tapete de ninguém para salvar uma baleia. É uma maneira dura de dizer isso, mas a pura verdade. Achei muito interessante. E ele estava preso em terra, por causa dos alertas vermelhos. Fiquei curiosa de saber se ele ia enlouquecer ou fazer mais. E ele fez mais.

CONTINENTE Foi difícil conseguir entrar na sua intimidade?
LESLEY CHILCOTT Não foi fácil, porque ele tem hábito de falar com a mídia. Eu perguntava: O que te preocupa? E ele: Eu não me preocupo. O que te faz perder o sono? E ele: Eu sempre durmo bem. E eu acho que é a verdade. Porque, todos os dias de sua vida, ele está fazendo alguma coisa. Então claro que ele dorme bem à noite. Mas eu fiz uma série de entrevistas de áudio, sem a câmera. E ele fala de maneira diferente. Levou um tempo para falar de sua filha, por exemplo.

CONTINENTE Um documentário sempre vai mudando com o tempo. Como foi esse processo?
LESLEY CHILCOTT Primeiro, tinha o temor de que ele fosse deportado, então resolvi fazer uma grande entrevista num depósito, por vários dias. E tudo ia mudando conforme as histórias que ele ia contando. No começo, eu queria secretamente fazer um filme sobre o meio ambiente sem dizer que era sobre isso. Mas depois que ele falou que a Espaçonave Terra deveria se chamar Espaçonave Oceano e de como as baleias mudaram sua vida, decidi que precisava filmar as baleias. Fora que depois percebi os sacrifícios que ele fez na vida, com seus filhos, suas mulheres, com tudo. Ele estava sempre no mar, na luta. E isso requer sacrifícios pessoais, então o filme acabou sendo sobre isso também.


Paul Watson em sua casa. FOTO: Participant/Divulgação

CONTINENTE O ambientalismo sempre foi do seu interesse?
LESLEY CHILCOTT Eu me tornei vegetariana na faculdade, porque aprendi que era a melhor coisa a fazer para o meio ambiente. Mas às vezes eu não era vegetariana, principalmente quando viajava. Comia um peixinho. Só que 70% do planeta é oceano. Tivemos mais pessoas na Estação Especial Internacional do que no fundo do mar, e existem alienígenas na forma de baleias e tubarões, bem aqui na Terra. Então depois de vê-los de perto, eu não consigo mais comer peixe. Porque, se você come carne de vaca, isso não afeta a cadeia alimentar acima e abaixo. Se você come atum, os peixes abaixo e acima na cadeia alimentar sofrem. Fazer o filme me mudou. Mas sempre fui ambientalista e sempre tento tratar do tema que, para mim, é tudo.

CONTINENTE Acha que Paul Watson ainda é ressentido com sua saída do Greenpeace?
LESLEY CHILCOTT Acho que ele se tornou uma entidade própria. Mas muitas vezes eles gostam de afirmar que Watson não foi um dos membros-fundadores, o que o deixa chateado. Dito isso, apesar de as duas organizações serem muito diferentes, elas colaboram entre si.

CONTINENTE Ele ainda acha que sua tática agressiva é a maneira correta de atingir seu objetivo?
LESLEY CHILCOTT Watson descreve sua tática como não violência agressiva. Quando ele atinge um navio pesqueiro, ele sabe onde bater para não machucar ninguém, espera o convés estar vazio e tal. Mas hoje a Sea Shepherd tem seis ou sete capitães, 14 barcos e usam as mais diferentes estratégias. Agora, se vir que alguém vai matar uma baleia, ele intervirá.

CONTINENTE É muito fácil atacar suas ações agressivas. Mas mesmo no caso da Greta Thunberg, que é uma adolescente fazendo discursos, ela é atacada.
LESLEY CHILCOTT Eu acho que a diferença é que todos nós devemos ouvir os discursos e participar de protestos. Mas não conseguimos saber o que está acontecendo de atividade ilegal no oceano. Então a Sea Shepherd precisa criar um ato que possa ser filmado e reportado. E assim prestamos atenção. Acredito que são diferentes táticas, mas ambos usam a mídia de maneira muito eficiente.

CONTINENTE Então acha que existem maneiras distintas de lutar pelo meio ambiente?
LESLEY CHILCOTT Sim. Podemos ver as coisas mais facilmente na terra. Podemos ver a destruição da Floresta Amazônica, das árvores cortadas. Mas não dá para enxergar a pescaria excessiva se alguém como Paul Watson não filmar isso. Tudo faz parte da mesma luta, só que precisamos de formas diferentes de combate.

CONTINENTE Uma verdade mais inconveniente saiu dois anos atrás apenas, sob a luz otimista do histórico Acordo de Paris. Mas as coisas mudaram muito desde então.
LESLEY CHILCOTT Sim, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, há esta facção de extrema direita enlouquecida. Mas o benefício dessa emergência da direita antiquada é que as pessoas começaram a prestar atenção. Causou mobilização, com a Greta e outros. Há uma enorme quantidade de pessoas que acabaram de fazer 18 anos e que estão muito ligadas na causa. Eu estou novamente empolgada pela primeira vez em muito tempo. Não importa o que dizem ou como protestam, eles estão fazendo escolhas de consumo. E cada dólar é um voto. Essa para mim é a grande diferença.

MARIANE MORISAWA é jornalista apaixonada por cinema. Vive a duas quadras do Chinese Theater, em Hollywood, e cobre festivais.

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