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Entrevista

"Nelson Motta idealizou o festival no modelo de Woodstock"

Helio Pitanga fala sobre o seu doc 'Som, sol & surf – Saquarema', musical que estreia no canal Curta e segue depois para os cinemas com imagens inéditas do primeiro grande evento de rock do Brasil

TEXTO Marcelo Abreu

11 de Fevereiro de 2019

O cineasta Helio Pitanga recebeu o material do Gilberto Loureiro, que dirigiu equipe de filmagem no festival

O cineasta Helio Pitanga recebeu o material do Gilberto Loureiro, que dirigiu equipe de filmagem no festival

Foto Divulgação

Parece contraditório que a cultura pop, evanescente por natureza, pudesse se tornar tema de escavações arqueológicas, mas isso tem ocorrido e agora se confirma com o documentário Som, sol & surf – Saquarema, que entra em exibição no canal Curta, a partir desta segunda (11/2), e depois nos cinemas. Dirigido e produzido por Helio Pitanga, o filme resgata o som e as imagens do hoje já mitológico festival de rock organizado na Praia de Saquarema, no Rio de Janeiro, em 1976, reunindo grandes nomes como Rita Lee, Raul Seixas, a então iniciante Ângela Rô Rô e outras bandas de rock da época.

O filme se reveste de curiosidade especial porque as imagens desse festival ficaram esquecidas em latas de guardar película durante quase 30 anos. E depois de resgatadas, levaram mais outros 12 anos para serem restauradas, reveladas e montadas. Dos 300 minutos de imagens brutas – e mais 200 de som gravado –, Pitanga conseguiu montar um documentário de 84 minutos que é um registro importante da história da música jovem no Brasil e do comportamento de uma geração.

Nesta entrevista à Continente, ele fala do resgate dos rolos de filme esquecidos durante 30 anos, da importância de Saquarema para entender os anos 1970 no Brasil e de sua participação como produtor no filme Nem tudo é verdade (de 1986), dirigido por Rogério Sganzerla, misto de documentário e ficção que resgata a passagem de Orson Welles pelo Brasil nos anos 1940. Carioca muito ligado à música e à praia, Pitanga fez também um documentário sobre o Arpoador. No entanto, perdeu o festival de Saquarema na época. “Eu era uma criança, tinha apenas sete anos”, justifica.


Imagem de um dos rolos guardados durante 30 anos. Foto: Reprodução

CONTINENTE Qual a importância do festival de Saquarema para a contracultura brasileira?
HELIO PITANGA É preciso ressaltar a coragem de Nelson Motta que, nos anos 1970, já tinha essa visão, esse olhar para frente. Porque se você notar, naquela época, estava longe do radar de qualquer empresa patrocinar um evento onde havia jovens. A dificuldade era muito grande. Os equipamentos eram pesados, a logística era muito difícil. Era quase como pegar uma caravela em Portugal e vir pra cá. Hoje, a facilidade aumentou muito. Mesmo em festivais pequenos há uma estrutura muito interessante de palco, de iluminação, de imagens projetadas ao fundo. Nos anos 1970, não tinha nada disso aqui. Quando estava chovendo, o palco não aguentava, tinha de pegar plástico para cobrir. O próprio Liminha, produtor fonográfico que tocou lá com Raul, diz que não tinha nenhuma estrutura. Foi uma ousadia enorme, embaixo de uma ditadura militar, fazer um festival com as estrelas da época. Saquarema não tinha um heliporto, Rita Lee pousou num pasto com uma vaca do lado e ela já era uma grande estrela. Estava longe do radar de qualquer empresa patrocinar um show de rock'n'roll. Hoje em dia, se não vai patrocinar, o gerente de marketing vai querer te receber e ouvir a proposta.

CONTINENTE Do ponto de vista da curtição, não eram eventos muito mais espontâneos?
HELIO PITANGA Muito mais. Reuniram-se ali 25 mil jovens e não houve uma briga. Não havia hospedagem para todos. Armava-se uma barraca na praia, o cara pegava só um documento, quando pegava, ia ver o show de rock e voltava no dia seguinte. Ficava um dia sem ver a barraca e, de repente, chegava lá e estava tudo no lugar. Não houve confusão, briga e violência. Era uma juventude muito mais engajada politicamente. Hoje, quando você aglomera muita gente, a preocupação é a violência. Os depoimentos confirmam isso. Era o artista ali e você aqui, não havia cordinha e ninguém invadia.



CONTINENTE Por que, após o registro das imagens em 1976, esse filme ficou guardado em latas em estado bruto?
HELIO PITANGA Nelson Motta idealizou o festival no mesmo modelo de Woodstock, que era fazer um festival, um disco e um documentário. Assim ele planejou e executou. Só que deu tudo errado. Ele teve problemas financeiros, dificuldade em fazer os shows. Choveu torrencialmente em Saquarema no primeiro dia. Era para ser três dias, viraram somente dois, sábado e domingo. O disco começou a dar problema, contrataram um produtor norte-americano que não funcionou. Mas fizeram as imagens para o documentário, registraram tudo, inclusive, na parte da manhã, o quinto Festival de Surf Brasileiro que acontecia na praia, nos mesmos dias. Com medo de não ter público, colocaram o festival junto com o surfe. O diretor de fotografia e seus assistentes filmaram por conta própria. Quando acabou, houve o problema financeiro, essas latas do filme foram negociadas e acabaram com o diretor da equipe de filmagem, Gilberto Loureiro. Nelson Motta não pagou e ele ficou com as latas. As latas acabaram esquecidas na casa dele durante mais de 30 anos. No fim, não saiu nada, só teve o show. A gente faz o documentário agora, um musical, mas contando também a história sobre o que aconteceu.

CONTINENTE Como você chegou a esse projeto de filme somente nos anos 2000?
HELIO PITANGA Gilberto Loureiro me chamou para produzir e adorei a ideia, já sabia mais ou menos o que tinha ocorrido. E começamos a trabalhar no restauro do filme. Era um projeto de produtor, pegar todo esse material bruto e restaurar sem saber no que ia dar. Achava que ia sair uma série, mas não abriam os editais e comecei a fazer um trabalho de formiguinha nos laboratórios. Fui resgatando o material até que ficou pronto para poder ser montado. Nesse meio tempo, o Gilberto Loureiro morreu. Depois, descobri um fotógrafo que tinha mais de 500 fotos do festival, nós restauramos as fotos e resolvi tomar a frente da direção. Percebi que seria bom, acima de tudo, fazer um documentário musical que abordasse os artistas do rock brasileiro da época, esse cast maravilhoso que é Rita Lee, Raul Seixas, Ângela Ro-Rô – que cantou músicas de Bob Dylan – além de grupos de rock como Made in Brazil (na estrada até hoje), Flávio Espirito Santo, o Bicho da Seda, de Porto Alegre e o bailarino Ronaldo Resedá.

CONTINENTE Como você soube dessas latas de filme?
HELIO PITANGA Eu já sabia que havia esse registro, mas eu não conhecia Gilberto Loureiro, ele era mais velho do que eu. Até que tive oportunidade de conhecê-lo e ele me convidou para fazer ser produtor. Aceitei de imediato, mas não peguei logo as latas. Um dia – em 2005 – ele perguntou se eu não queria ficar com as latas. Peguei na casa dele, coloquei no carro e não sabia para onde ir. Eu só pensava que havia tirado as latas de um lugar que não estava adaptado para elas e ia levar para casa ou para a produtora, que também não estava adaptada para guardá-las. Aí tive a ideia: levar para cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM-RJ). O diretor gostou da ideia, abriu as latas, botou na moviola. Combinamos de deixar o material lá. Depois, conheci Chico Molina, um grande técnico que se tornou o responsável pela restauração do filme. Pediu para botar o material na sala dele no Laborcine, onde trabalhava. Aí comecei a prospectar o modelo de negócio. Esse é um projeto de produtor que se começa sem saber como vai acabar ou se você vai ter êxito. A gente vai gastando, fazendo parceria, só sabe que tem um bom projeto. Vai carregando. Eu sempre achei que tinha um grande valor ali, e sabia que ia chegar a algum lugar. Passaram-se mais de dois anos. Não sabia que tipo de formato seria. O problema maior era a restauração. O som foi mais fácil, as imagens estavam mais precárias. Recuperei 300 minutos. Perdi só uns quatro minutos. Pode ser que houvesse mais coisas, em outros lugares. A restauração do som e da imagem deve ter custado uns 600 mil reais. Financiei com parcerias. Cedi algumas imagens para outros documentários e eles me cederam o laboratório. Tenho agora o material todo restaurado, todo sincronizado. E aí precisei fazer uma segunda etapa, a gravação de entrevistas com músicos, com Nelson Motta, o crítico Tárik de Souza, e com os espectadores. Achei praticamente todos pela internet. Oficializar o projeto em termos de direitos de imagem gerou também outros custos, e novas parceiras.


Raul Seixas em show do festival de Saquarema. Foto: Reprodução

CONTINENTE Essas imagens brutas nunca haviam sido montadas?
HELIO PITANGA Nunca foram montadas nem mesmo reveladas. Os realizadores não conseguiram nem entrar no laboratório e nenhum deles, até então, tinha visto essas imagens. Fui o primeiro a ver. Na época, o som foi gravado direto na mesa, não era com a captação das câmeras. São shows antológicos e imagens inéditas. É um serviço que a gente faz à cultura brasileira. Quero dar acesso desse material a todos. Depois, vamos abrir isso porque é um resgate da imagem audiovisual, da memória da música – 300 minutos brutos de imagem e 200 minutos de som – e, acima de tudo, um resgate da memória cinematográfica. E do comportamento dos jovens também. Repressão da polícia à contracultura, na época, era muito clara nas grandes cidades. Ali distante, deu para viabilizar o festival, aglomerar esses jovens.

CONTINENTE Em que condições de reprodução veio esse material após 30 anos guardado?
HELIO PITANGA O som havia sido gravado em Nagra, gravadores portáteis de alta qualidade. Tive que restaurar. Era um material fora de ordem que tem imagem sem som e som sem imagem. Deu para sincronizar. O que tem mais som é a música (nem sempre as entrevistas na praia ficaram com áudio). Eles filmaram com três câmeras de 16 mm, uma câmara na torre e duas na lateral, ninguém atravessava o palco. Filmava-se com a luz do show. A plateia só aparece mesmo nitidamente quando se joga luz do palco nela. Hoje, tem uma luz só para plateia. Era uma maneira de filmar diferente. Dá para ver bem. Nem todos (os shows) eu tive câmeras de todos os ângulos. O de Rita Lee, no geral, está esplêndido, ela entra como uma rainha.


O show memorável de Rita Lee no festival. Foto: Divulgação

CONTINENTE Seu documentário anterior Arpoador – praia e democracia já era sobre anos 1970.
HELIO PITANGA Ele retrata o comportamento da praia a partir das reflexões do antropólogo Roberto da Mata, fala como é que apareceu essa frequência da praia. A gente retrocede aos tempos da pesca da baleia com arpão, daí o nome arpoador. Pegamos um pioneiro da área, que foi Arduíno Colasanti, e fomos entrevistá-lo. Ele passou da pesca submarina para o surfe. Era a época do píer de Ipanema, e tinha muita onda entre 1971 e 1974. Quando tiraram as estacas do píer, acabaram as ondas. Uns continuaram no Arpoador, outros descobriram Saquarema. Essa praia é descoberta aí. Em termos de comportamento de juventude, Saquarema é uma continuidade do Arpoador, é muito próximo. Os jovens vão descobrindo Saquarema a partir de 1974. Em 1976, foi o grande destaque por causa do festival que Nelson Motta produziu, considerado o Woodstock brasileiro. Numa população de 10 mil pessoas, chegaram lá 24 mil jovens. Pessoas que tinham 14, 15 anos e que falavam para mãe que iam comparar pão e só voltaram na terça-feira (risos).

CONTINENTE Como foi seu trabalho de diretor de produção no filme Nem tudo é verdade, de Rogério Sganzerla?
HELIO PITANGA Muito complicado. Jom Tob Azulay foi o produtor executivo. Foi interessante a experiência de trabalhar em Fortaleza. Ele já tinha uma pesquisadora americana que tinha morado na cidade, tinha levantado todas as locações, e voltamos a pegar esses atores amadores que Orson formou em 1942. Identificar essas pessoas foi uma experiência muito rica. Me deu know-how de produção, vi como se fazia. Trazer a memória, colher os depoimentos das pessoas. Sempre em cima daquele diretor que andava de terno branco, que era o Orson Welles. Ele filmou em Fortaleza e no Rio de Janeiro. Ficou amigo de Grande Otelo. É uma história triste no final, o filme dele acabou não sendo concluído. Mas é interessante a maneira como ele já filmava, o uso do baby, por exemplo, que é o tripé no chão. Ele já usava isso de maneira muito fácil.

CONTINENTE Além de trabalhos no audiovisual, que relação você tem com a música?
HELIO PITANGA Tenho formação na área de Comunicação Social. Logo na faculdade, arrumei estágio numa gravadora, a Polygram, que depois virou Universal. E ali trabalhei na divulgação. Trabalhava com todos os gêneros de música. Atuei também na Intersong, editoral musical. Fiquei 10 anos no mercado fonográfico e depois migrei para o mercado publicitário. A relação com a música é longa e sempre tive proximidade com todos os gêneros, Jerry Adriani, Erasmo Carlos, Sidney Magal, Alcione. Sempre gostei de música, das bandas de rock da época, da MPB, do rock ao samba.

CONTINENTE Teve algum envolvimento profissional com os outros festivais de música?
HELIO PITANGA Recentemente, fiz uma série sobre festivais de música chamada Sonoridades, com Nelson Motta como curador, em parceria com a empresa Oi. Formatado para TV, era um encontro de novos e grandes talentos da MPB, como Erasmo Carlos e Seu Jorge. Foi uma experiência em produção de festival com formato para TV e para o Youtube. Uma experiência bem rica. Estou agora produzindo a biografia de Dorival Caymmi em documentário para cinema TV, uma coprodução com o Canal Brasil. Estamos finalizando a produção e entrando na pós-produção. Boa parte das entrevistas já foram feitas, os contatos com a família, mas ainda temos muito trabalho pela frente. Estreia talvez este ano, ou em 2020.

CONTINENTE O documentário sobre Saquarema pode gerar outros produtos, como, por exemplo, um livro de fotos do festival?
HELIO PITANGA Mais do que um livro, estamos pensando em fazer uma exposição, uma instalação audiovisual com esse projeto. O fotógrafo Chico Mascarenhas estava no evento com mais dois fotógrafos surfistas que sempre cobriam tudo, Fernando “Fedoca” Lima e Múcio Scorzelli. Mas nesse documentário, eu tenho mais fotos do Chico Mascarenhas que foi contratado para fazer still, fotografou tudo e eu restaurei as fotos. Quando você tem 300 minutos de imagem, 200 de áudio e mais de 500 fotografias, você tem vários caminhos a percorrer. Podia ser um filme de três horas. Quis fazer um filme para todos gostarem. Usei somente seis fotos e mais algumas no final nos créditos. E o filme ficou com 84 minutos, sempre com muita música. Mas sobrou muito material.



MARCELO ABREU é jornalista, escritor, autor de livros-reportagem como De Londres a Kathmandu e Viva o Grande Líder!

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