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Entremez

Ouvi o galo cantar, mas não sei onde

TEXTO Ronaldo Correia de Brito

04 de Fevereiro de 2020

Ilustração Eduardo Azerêdo

Escutamos um galo nos arredores do prédio onde moro, em Casa Amarela. Estranhei um galo cocoricando no barulhento Recife, e não apenas no correr da madrugada, também durante o dia. Ocupamos um décimo primeiro andar, é comum sermos acordados pelos passarinhos, gorjeando na copa das árvores. Até sabiá do peito branco eu já vi pousado num jambeiro. Mas galo... A cozinheira jura que o canto é mecânico, como o toque falso dos sinos das igrejas.

Há muito calaram sinos,
Pois não há quem os tanger.
Nem meninas nem meninos
Tangem sinos em seu ser:

Calaram os sinos do mundo
E eu sinto a alma doer. 

Percorri a vizinhança, investigando de quem era o galo. Aconselharam-me a não fazer isso, podiam imaginar-me um fiscal do Ibama. Sentei-me quieto. Até os 16 anos, vivi nas fazendas dos meus pais, da avó materna, de tios e amigos da família, todas com currais de gado e poleiros de aves em volta das casas. Era um conforto acordar nas madrugadas, escutando cantos, balidos e chocalhos. Afirmam que nada de ruim acontece, todos os perigos vão embora quando um galo canta ou um boi muge. Confiante nessa crença, eu dormia tranquilo.

Minha filha confessou a mesma sensação de aconchego. Durante 30 anos, moramos em casa com quintal, jardins e árvores, parecendo sítio. Um amigo que transformara sua chácara numa Arca de Noé presenteou a família com um galo e seis galinhas de raça polonesa. Presente de grego. Às pressas, construímos galinheiro e instalamos as aves esquisitas, meio cegas porque as penas da cabeça caíam sobre os olhos. Alegria para as crianças. De madrugada, o galo cinza e poligâmico, que conhecia a aritmética de subir no poleiro e ficar com três companheiras de cada lado, começava sua cantoria. Minha filha perdeu os receios de dormir sozinha, o cocoricó era um véu mágico a protegê-la.

Abri mão de descobrir onde o galo canta, prefiro deleitar-me com sua voz. Na feira de Casa Amarela, um verdureiro me disse criar sete canários da terra, em gaiolas. Gosta do chilreado dos pássaros. Mas por que sete?, perguntei curioso. Porque é a conta do mentiroso. Um cunhado trouxe-os de Goiás, aqui eles já não existem. Meu irmão mais velho contribuiu para o extermínio dos canários. Desde pequeno criava-os para brigar. Chegou a ser preso numa rinha. O instinto perverso não ficava por aí. Se os pássaros perdiam as brigas, ele furava os olhos ou os depenava e depois os largava soltos, sem chances de sobrevivência.

Nos primórdios da colonização cearense, às margens do Rio Jaguaribe, no sertão onde eu nasci, havia um número incalculável de periquitos, ararinhas azuis – essas que foram extintas –, maracanãs, papagaios e outras espécies da mesma família. Os poderosos criadores de rebanhos, proprietários de grandes extensões de terra – sempre eles – e os senhores da “lei” determinaram que todos os habitantes matassem um certo número de periquitos anualmente, e apresentassem as cabeças ao procurador, que delas daria recibo para abatimento de multa financeira. Segundo eles, os pássaros comiam as plantações de feijão e milho, que alimentavam as famílias brancas e o seu gado.

Matança semelhante à dos índios Jucás, Inhamuns, Jenipapos, Cariús, Cariris e várias outras tribos. Nertan Macedo registrou que “Em 1708 – no sertão do Jaguaribe – os índios estavam desesperados. Não queriam habitar as aldeias missionárias, expulsos que foram das suas terras. Rebelaram-se contra os colonos. Arrasaram fazendas. Trucidavam quem encontrassem. Nesse mesmo ano o governador de Pernambuco deu ordem ao capitão-mor do Ceará para que movesse guerra de extermínio aos índios. O que foi, efetivamente, feito.”

Igual massacre sofreram os Caetés, na chegada de Duarte Coelho à Feitoria de Pernambuco, em 1535. A expedição desembarcou às margens do Canal de Santa Cruz e avançou até a foz do Canal de Igarassu. Ali, fundou uma povoação e travou luta com os índios. Garantem que Duarte Coelho agiu da mesma maneira que Pedro Álvares Cabral, nosso descobridor. Cabral deu ordens à armada, com a qual chegara às Índias, para destruir Calecute e seus habitantes. Foi uma carnificina. Dos navios, Duarte Coelho e os seus homens bombardearam a aldeia dos Caetés, situada num monte onde ele mandou construir a Igreja dos Santos Cosme e Damião, a primeira do Brasil.

Em torno de mim matanças
Despertam o sangue enjaulado,
O gume calmo dos ossos
E a paz de um homem calado:

Serei então lei e rei
De um país desenganado. 

Acontece o extermínio de várias formas, por todos os lados, sempre. Relataram-me que nos arredores de Petrolina, num sítio às margens do São Francisco, sobrevive uma pequena reserva de caatinga. No meio dela, alguns tipos de gato do mato – jaguatirica, maracajá, pequeno, grande, palheiro, mourisco, suçuarana, pintada. Digo os nomes, mas não tenho a certeza dos tipos que ainda moram. Fica o dito. E a notícia de que os proprietários de terras matam os gatos porque eles comem as galinhas e talvez algum galo, cantor das madrugadas, afugentador de medos.

Morrem milhões de seres vivos no incêndio da Austrália. Número superior nas terras amazônicas. E também índios e gentes. À direita e à esquerda vão caindo árvores, pássaros, peixes, as espécies em que se inclui o desvairado homem. À direita e à esquerda há ordens para a destruição. Pelo fogo da Amazônia, no atual desgoverno. Pela barragem das águas no Belo Monte da Amazônia, no governo anterior. À direita e à esquerda tombam os seres vivos, igualmente tombaram os Mourões de Gerardo Mello: descalços, maltrapilhos, pobres, de farda de gala, botões de ouro e patente de capitão, hierárquicos e cronológicos.

Todos tombarão, agora ou noutro dia qualquer.

E, talvez, reste apenas o canto mecânico de um galo ou rouxinol, como na história do dinamarquês Andersen.


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