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Ensaio visual

A poética pictórica de Manoel Veiga

Publicação apresenta obra do artista plástico recifense, como os ensaios 'Matéria escura' e 'Hubble'

TEXTO Eduardo Montenegro

12 de Setembro de 2017

Imagem de tela da série Hubble, realizada a partir de registros do telescópio espacial

Imagem de tela da série Hubble, realizada a partir de registros do telescópio espacial

FOTO Reprodução

Contemplar Veiga é quase um exercício poético. Se Octávio Paz falou que “ler um poema é ouvi-lo com os olhos; ouvi-lo, é vê-lo com os ouvidos. O poema deve provocar o leitor: obrigá-lo a ouvir, a ouvir-se”, os trabalhos de Manoel Veiga despertam a mesma coisa, nos fazendo mergulhar também numa “poética pictórica”. A arte de Manoel Veiga não fala por si só, mas conduz quem a visita para todo o panteão da imaginação etérea que nossa mente pode criar. Uma nebulosa, um cosmo, um pequeno universo criado sobre tela é sempre um convite para uma leitura interior, de seus próprios repertórios e memórias. Talvez seja essa uma das funções da arte abstrata: permitir um devaneio contemplativo de nosso cerne em diálogo com que está na tela.

Por receber influência das obras de Caravaggio, principalmente no que diz respeito à questão do uso do espaço e do “vazio” nas obras do italiano, a série Matéria escura é uma de suas mais interessantes. Levando as imagens para o computador, Manoel elimina as cores, para que o preto e o branco realcem as texturas do tecido, de forma que tudo que não for pano, é suprimido. O resultado é, portanto, um ensaio sobre tempo, espaço e o vazio na tela, compreendendo as tensões da Flagelação de Cristo, obra do renascentista de 1607, sob uma nova perspectiva, adicionando também a própria impressão de quem a vê reconfigurada pela mente de Manoel Veiga.

Esse mesmo diálogo com o espaço vazio pode ser observado em Hubble, outra série dele, quando se apropriou das imagens de galáxias clicadas pelo telescópio de mesmo nome. As imagens, então, levadas para edição, perdem suas cores, aplicando-se efeito negativo nelas: o que era branco tornou-se preto, vice-versa. Junta-se pedaço de uma foto aqui, outro ali, e forma-se um novo ambiente de ficção, de poesia imagética.

Um dos pontos fortes das obras de Manoel Veiga é, por fim, essa simetria de obra em obra, o despertar para a contemplação interior em união com o universo fictício e poético do abstracionismo, obras de movimento. Como o próprio artista escreve, “nosso cérebro, por inferência, deduz todo esse caminho e, dessa forma, pode-se vislumbrar o movimento inteiro de uma só vez, seu momento final ou qualquer outro estágio intermediário”.

Imagem extraída da série 'Hubble'

Pintura da série 'Universo'

  Imagem de tela inspirada na obra de Caravaggio

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