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Depoimento

Um lugar de luz à mulher negra

O que nos ensina este relato sobre a representatividade da mulher negra nos palcos, a partir do trabalho de atrizes que encenaram recentemente peças potentes no Recife

TEXTO Geisa Agricio

20 de Novembro de 2017

A sul-africana Ntando Cele trouxe ao Brasil seu espetáculo 'Black off'

A sul-africana Ntando Cele trouxe ao Brasil seu espetáculo 'Black off'

Foto Divulgação

Tive muita dificuldade ao escrever este texto, senti-me intimidada a tratar da representação da mulher negra no palco. Não é um artigo tenso do ponto de vista da análise crítica, assistir a espetáculos ou resenhá-los; é uma crise de representação. É como se coubesse a uma mulher negra falar sobre e em nome das representações de toda mulher negra. Sim, é próprio do lugar de fala, mas também é um paradoxo da voz individual como significante do grupo simbolizado. Será que estaria eu escrevendo este texto se não fosse uma mulher negra? Será que estariam as mulheres que vi em cena sendo protagonistas, não fosse não apenas a pele que habitam, mas o enredo que debate a perspectiva do que é ser uma mulher negra?

No contexto do que dispõe o filósofo e psiquiatra da Martinica Franz Fanon (1925-1961), nos mecanismos do colonialismo, a universalização é um privilégio branco (e eurocêntrico). O homem que usamos como expressão para designar “o ser humano” é universal, dotado de uma racionalidade ocidental. Assim, o Branco é tido como universal enquanto “o Negro não é um Homem... é um homem negro”. Por extensão, uma mulher branca é mulher em sua inteireza feminina, se negra, é uma mulher negra, uma espécie específica.

É, portanto, complexo observar uma mulher negra, num lugar de rara exposição como os elitizantes palcos teatrais, e não enxergá-la pelo viés da especificidade. Transformar o olhar e os condicionamentos inconscientes que nos fazem ter expectativas comuns e estigmatizadas a respeito de como corpo, carne, fala, pele, voz e discurso vêm sendo utilizados nessas representações. E como escapam artistas de pele escura que querem compor novos caminhos que trafeguem pelo âmbito do embate racial, que é imprescindível, sem recorrer às armadilhas de arquétipos como mulher forte, sofrida e arredia? Como é possível falar de racismo, provocar reflexão e libertar a mulher desse papel didático de sempre ter de gritar contra o que está posto?  

Tentei puxar pela memória a primeira vez em que eu assisti a uma mulher negra num papel de destaque no teatro. A lembrança mais remota é o papel de Taís Araújo em O Método Gronholm (2007). Era sua primeira grande produção teatral, já que a atriz tinha praticamente sido criada na televisão pelo emblemático personagem Xica da Silva (1996), da extinta Rede Manchete. Taís contracenava pela primeira vez, no palco, com seu experiente parceiro, Lázaro Ramos, nascido do teatro soteropolitano e descoberto pelo Brasil graças ao espetáculo A máquina, de João Falcão, em 2000.


Lázaro e Taís em O Método Gronholm.
Foto: Divulgação

Era interessante ver aquela atriz negra em ascensão – que estava naquele momento, ao lado do próprio Lázaro, vivendo o primeiro casal negro protagonista na novela Cobras & lagartos – no papel de uma super executiva, numa adaptação de um texto espanhol, que em nada estabelecia conexões raciais. Era uma mulher, simplesmente. Uma versão bem-sucedida e cosmopolita em contraponto aos estereótipos que se associam à mulher negra.

DIFERENÇAS CONVERGENTES
Caiu recentemente em solo Recife a oportunidade singular de refletir profundamente sobre a representatividade da mulher negra na dramaturgia. Entre diversos festivais sensíveis ao debate sobre negritude, o público esteve diante de dois monólogos inéditos, numa janela possível para alcançar uma mulher negra em sua individualidade.

Mesmo de país diferente e em perspectiva social completamente distinta, o espetáculo Black off, da Companhia de Teatro Manaka Empowerment, estrelado pela atriz sul-africana Ntando Cele, provoca um diálogo subjetivo e imaginário com a composição de Isto não é uma mulata, da artista baiana Mônica Santana. É quase impossível assistir a uma peça sem lembrar da outra.

Em cena, ambas se valem de elementos cênicos parecidos para abordar racismo, colonização cultural, identidade, autoafirmação e resistência. Sob os holofotes, surgem, nas duas, uma penteadeira, um espelho de camarim, uma peruca loira retirada como desvelo de uma natureza negra. Também dialogam com a plateia em esquetes provocativas e citam autores em seus textos: enquanto Ntando Cele evoca e homenageia Fanon, Mônica Santana critica Gilberto Freyre. Colocam-se à prova diante do próprio reflexo, tanto da imagem de seus corpos quanto da simbologia que representam em seus contextos regionais. Por isso mesmo, nada mais distinto que o caminho que traçam.

Ntando Cele, como sul-africana, trata de uma perspectiva histórica de apartheid e um processo de resistência que teve como maior marco simbólico a presidência de Nelson Mandela. O racismo é declarado e o racismo é acirrado. Há uma segurança personalística para ousar satirizar brancos.

Na figura da personagem Branca White, o impacto do uso da maquiagem pesada que simula uma pele branca é uma revanche ao blackface tão normatizado na arte ocidental: “O amor, a arte complicada, o futuro são preocupações para os brancos. Negros não se preocupam com essas coisas, os conheço, tenho até alguns deles… como adotados de meu projeto social”. Toda a acidez possível é destilada para tratar como comédia o comportamento de racistas se sentem superiores e conhecedores dos problemas dos negros e de como solucioná-los.


Ntando Cele e seu 'whiteface' em Black off. Foto: Divulgação

A atriz e cantora brilhante, radicada na Suíça, utiliza do humor para provocar o público, atualizando do cenário onde está para afiar o discurso. Quando diz “Olá Recife, aqui na Argentina está tudo ótimo”, brinca com o nosso desconhecimento sobre o continente africano e como jogamos tudo num grande pacote chamado “África”. E também provoca sobre as nuances do racismo brasileiro: “Tem negros aqui? Como se chamam os negros aqui? Ouvi dizer que aqui neste país negros podem dizer que são brancos, ou como chamam mesmo? Morenos”.

A cada frase, um nó na garganta como gole de um sorriso amarelo, desconcertado. Não há situação de conforto. Brancos, provavelmente, riem nervosos e surpresos de como o racismo pode ser mordaz em uma voz doce e culta, como as evidências de seus privilégios lhe parecem um grande enigma. Negros também se constrangem pelo reconhecimento das situações recorrentes que sofrem com essas sutilezas diárias de desigualdade.

Não segurei o choro dolorido quando ao convidar ao palco um homem negro da plateia, ela “finge” não entender seu nome ao tratá-lo como irrelevante e pede ao seu assistente que lhe ofereça uma taça de espumante “porque pessoas como ele provavelmente nunca viram uma”. Aquilo que soa como piada nos revela como passamos por vivências opressoras e não conseguimos reagir, muitas vezes ficamos inertes em estado de choque pela forma como somos tratados.

A música é o elemento que costura os momentos que conseguimos respirar. O jogo de preto x branco está sempre presente. Ntando Cele é acompanhada por uma banda de três músicos suíços (brancos), enquanto Branca White se utiliza da ironia da “música negra” do jazz como trilha sonora. Quando se desvela, arranca a maquiagem (e a pele branca) a partir de uma profunda imersão na realidade da pele escura. Estamos diante da história do seu corpo único, seus olhos escuros, seus poros, seus traços largos, graças às impactantes imagens em superzoom de uma câmera de alta definição.

A plateia, em sua maioria branca pelo privilégio cultural estabelecido no Brasil, se vê obrigada a encarar (arrisco que pela primeira vez) um contato com o corpo negro, com a pele escura, de um jeito que não dá pra se esquivar no subterfúgio cínico de “eu não vejo cor, somo todos iguais”.  A transformação abre espaço para o segundo momento do espetáculo, estrelado pela personagem antagonista, e negra, Jéssica Black. Desta vez, uma negra empoderada e ativa, usa do rock and roll (a música branca) para gritar em alto e bom som “Fuck yourself, não precisamos de vocês”. Não há lugar para a condescendência.

Em Isto não é uma mulata, Mônica Santana também usa o humor como arma de constrangimento e catalisador de reflexão a respeito do racismo, em suas peculiaridades nacionais. Parte do escárnio da premissa freyriana: “branca para casar, mulata para fornicar e negra para trabalhar” – sobre os lugares de aceitação no colorismo brasileiro – para transmutar-se, diante do público, em uma invisível trabalhadora de limpeza, uma uma diva pop e uma mulata destaque de escola de samba. Tenta ressignificar a hipersexualização da mestiça como pano de fundo para dissertar sobre problemas históricos e estruturais que levaram as mulheres negras a serem vistas como são hoje. 

Ao fim, a personagem também vai se despindo da versão colonizada e demonstra sua identidade negra com propriedade e orgulho. Mas a força do discurso se perde num tom didático, que tentar gerar empatia em um público que, no fundo, não se reconhece. Talvez por sermos o país em que 92% das pessoas reconhecem que existe racismo, mas menos de 2% dos brasileiros se identificam como racista. Os brancos, no geral, nunca se vêem como opressores. Somos ainda muito polidos em apontar o dedo para racistas. Somos ainda muito preocupados em explicar o que é racismo e como ele nos afeta. Ainda muito tímidos a nos olharmos no espelho e nos vermos negros, iguais como carne mais barata do mercado.


Mônica Santana em Isto não é uma mulata. Foto: Leonardo Pastor/Fiac/Divulgação

Ouso pensar que talvez a peça ganhasse mais força se, na hora em que a “mulata” cita “agradeço a todos que contribuíram para eu chegar até aqui”, mirasse pessoas brancas e lhe dissessem coisas como “você, que ganha 66% a mais que eu”. Ou que na hora do seu grito libertador, convidasse negros para entrar na catarse. O público que sai de casa para ver a uma mulher negra no palco acaba fazendo seu mea culpa de sentir-se bom ao respeitar o lugar de fala e lhe dar voz, sentindo-se muito cool de acompanhar a diversidade na arte. É difícil imaginar quantas pessoas saem do teatro dispostas a se sentirem corresponsáveis pelo racismo estrutural que vivemos.

NEGRA CENA
De fato, estamos vivendo um momento histórico, em que as negras e os negros estão podendo ver, ouvir e falar por si mesmos, num processo de construção do seus espaços de poder que também se refletem no campo da arte. Cineastas brancos que enveredam a tratar de questões raciais já não escapam de críticas de fetichização e olhar estrangeiro, a exemplo das polêmicas recentes que envolveram os filmes Vazante, de Daniela Thomas, e Açúcar, de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira.

Há uns dez anos esse nível debate não aconteceria, estaríamos ainda festejando a democracia racial e agradecendo a condescendência desses realizadores generosos que abriram espaço para a gente se ver na tela grande. Hoje, faz-se urgente a produção tomada por pessoas negras no debate sobre negritude, figuras como Yasmin Thayná (Kbela) são fundamentais nesse processo. Mas as coisas estão mudando, também nos palcos. Até alguns anos, não daria pra cogitar o escândalo em relação ao uso do blackface pelo grupo Os Fofos Encenam, cuja repercussão fez ser cancelada a peça A mulher do trem, em 2015.

Chegando em 2017, vivemos um movimento profícuo para discutir a problemática racial no teatro. Somente em Pernambuco, três festivais contíguos entre outubro e novembro (Mês da Consciência Negra) dedicaram-se a oferecer espetáculos cujo foco fosse a Negritude. O Festival de Teatro do Agreste (Feteag), que trouxe Ntando Cele, a mostra inédita Luz Negra, que trouxe Mônica Santana, e o festival Cena Cumplicidades montaram programações no Recife com relevantes trabalhos sobre raça.

Além de Black off , o Feteag, que teve Africanidades como tema da sua 27ª edição, apresentou Amêsa (Heloísa Jorge – Angola/Brasil), Contes et legendes du Burkina Faso (Contos e lendas de Burkina Faso) (François Moïse Bamba – Burkina Faso) e o brasileiro Branco – o cheiro do lírio e do formol (Alexandre Dal Farra e Janaína Leite – São Paulo/SP).

A primeira e bem-sucedida edição do festival Luz Negra – O Negro em Estado de Representação, apresentou, no Recife, 15 espetáculos cujo protagonismo é de artistas negros. Entre eles, destaque para os monólogos femininos como os convidados Isto não é uma mulata (BA) e Senhora dos restos (SE), além da oportuna reedição de importantes produções do próprio grupo O Poste Soluções Luminosas (realizador da mostra), como A receita e Histórias bordadas em mim.


Histórias bordadas em mim, com Agrinez Melo. Foto: Divulgação

Apesar de não abraçar uma temática específica, o Cena Cumplicidades também abriu espaço para produções com artistas negros, como Reecontro Angola - Brasil: um encontro do presente com o passado, do Balé Tradicional Kilandukilu (Brasil- Angola); História contêiner, com o resultado da residência artística de Diogo Ricardo, Manuel Castomo e René Loui (Brasil/Moçambique); Gritaram-me/Vogue, de Edson Vogue; (1/7) do Tempo, do Coletivo Corpo Mundo; e a volta do consagrado espetáculo O samba do crioulo doido, de Luiz de Abreu.

GEISA AGRICIO, jornalista, mulher, negra, nordestina, mãe-solo e gorda. Acredita em representatividade para a igualdade e em lugar de fala para escrever uma outra história.

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