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Curtas

Saber de parteira

Série de seis episódios, em exibição na TV Pernambuco e nas redes sociais do Museu da Parteira, ratifica a importância do ofício ancestral das mulheres que dão concretude ao ato de nascer

TEXTO LUCIANA VERAS

26 de Maio de 2020

O conhecimento popular é trabalhado nos seis programetes

O conhecimento popular é trabalhado nos seis programetes

Foto Still da série 'Saber de parteira'/Bebinho Salgado 45/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

As mãos é o que Deus deixou pra gente. A mão é sagrada

Dôra, parteira Pankararu

Maio é mês das mães, isso é público e notório, tanto porque no segundo domingo se festeja o dia das mulheres que deram à luz e se encarregam de perpetuar a humanidade como pela apropriação comercial dessa data festiva que, como de resto no neoliberalismo em que estamos entranhados, torna-se lucrativa. Não por acaso, a maternidade estampou a capa e se espraiou por dois textos da Continente #233, e ainda por um episódio do Trópicos, o podcast da revista, com a proposta de discutir experiências plurais e bem distintas. O que talvez não seja tão difundido assim é que maio é, também, o mês das parteiras, cujo ofício é, desde os primórdios, essencial para dar concretude ao ato de nascer. Foi por isso que a TV Pernambuco disponibilizou os seis vídeos da série Saber de parteira, em exibição na grade da emissora pública até o final de junho.

Saber de parteira é uma ação do Museu da Parteira viabilizada pela produtora audiovisual Bebinho Salgado 45 com recursos oriundos do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura/Funcultura. A direção é da antropóloga Júlia Morim, que faz questão de explicar à Continente que nada em maio é por acaso: o dia 5 deste mês foi escolhido pela Organização Mundial de Saúde – OMS como o Dia Internacional da Parteira. “Pensamos, então, numa campanha de valorização do ofício, com vídeos pequenos para entrar na programação da televisão, e aí é muito importante ter a TV PE como parceira, pois o sinal chega bem no interior”, comenta a realizadora.

São seis episódios, de dois minutos cada, protagonizados por essas mulheres de fibra e força – algumas delas, inclusive, foram personagens de uma reportagem especial escrita por Julya Vasconcelos para a Continente #197, edição de maio de 2017. Os títulos resumem tudo: Ser parteira, Beleza do ofício, Dom e aprendizado, Parteiras e plantas, Transmissão e continuidade e Relação com a comunidade. E essas pílulas de aprendizagem e ternura estão, além da veiculação na TV PE, em exibição nos perfis do Museu da Parteira nas redes sociais. O formato, breve, conciso, ideal para uma fácil assimilação, foi pensado justamente para obter um alcance maior. “Melhor do que distribuir folders por aí é pensar em vídeos, uma linguagem que circula mais e que chega mais além, com o intuito de referendar esse ofício em um momento de supervalorização do conhecimento biomédico”, pontua Júlia.

Nas imagens que compõem cada programete, captadas pelo diretor de fotografia Marcelo Lacerda em 2019 e posteriormente editadas por Amandine Goisbault, Saber de parteira apresenta Prazeres, de Jaboatão dos Guararapes, Zefinha, Elisabete e Severina, de Caruaru, e Dôra, Tia Ana, Juliana, Neide, Darinha, Jacira, Luzânia, Marlene, aprendizes e parteiras da etnia indígena Pankararu, que descortinam suas atividades em depoimentos sobre a transmissão de saberes, o aconchego propiciado pelo reconhecimento da comunidade e o sentimento de satisfação em ajudar uma mulher a dar à luz.


Juliana, da etnia Pankararu. Foto: Stil da série/Bebinho Salgado 45/Divulgação

“Estamos vivendo um momento em que as práticas e saberes tradicionais estão sendo desvalorizados e o que nós queremos mostrar é que tais práticas e saberes existem e são usados por milhares de pessoas. As parteiras não são escolhidas apenas porque a mulher acha que não vai conseguir ir para o hospital, muito pelo contrário: as parteiras existem e resistem há séculos por causa do jeito com que cuidam das gestantes, pelos laços que têm nas comunidades, pelo modo como acolhem as mulheres em trabalho de parto”, acrescenta Júlia Morim, mestre em Antropologia e realizadora de dois curtas-metragens ancorados no universo das parteiras e do nascimento - Simbiose, de 2017, premiado em diversos festivais, e Evitável, de 2019, fruto do edital VídeoSaúde da Fiocruz.

Aos 80 anos, agraciada com o prêmio de Patrimônio Vivo de Pernambuco e protagonista de Simbiose, dona Prazeres dá uma definição perfeita do papel da parteira na comunidade: “É uma liderança. É uma conselheira. Ela é advogada, ela é assistente social, ela tá em todas. É por isso que eu achei por bem dizer o que ela faz só numa palavra: ela faz simbiose”. Já para Neide, aprendiz deste ofício milenar, "a melhor coisa do mundo é eu ver uma criança nascendo. Nascer e você ter certeza que deu tudo certo. Não tem como você explicar! É inexplicável”. E Dora, parteira Pankararu, resume bem o olhar zeloso que elas destinam para seu principal instrumento de trabalho: “As mãos é o que Deus deixou pra gente. A mão é sagrada”.

"O que tentamos trazer para Saber de parteira foram as falas de mulheres que representam muitas outras do Brasil, que na maioria das vezes até tiram seu sustento de outras ocupações, e assim consideram o ofício de parteira como mais uma de suas atribuições, mas que têm muita consciência da importância que exercem, da força da sua dedicação e dos papéis que exercem em suas comunidades. Uma parteira é, também, uma agente de saúde, uma educadora, uma amiga e uma mediadoras de conflitos", observa Júlia. 

Com o intuito de servir, também, como janela de difusão desse conhecimento ancestral, Saber de parteira se filia à Política Nacional do Patrimônio Imaterial e integra as iniciativas qu visam ao reconhecimento dos saberes e das práticas das parteiras tradicionais como Patrimônio Cultural do Brasil - processo esse que se encontra em curso no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A instrução de registro, que envolve pesquisa e elaboração de dossiês escrito e fotográfico e vídeo de apresentação, está sendo executada pela Departamento de Antropologia e Museologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), sob coordenação dos professores Elaine Müller e Hugo Menezes.

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Saber de parteira (Brasil, 2019). De Júlia Morim. Com Prazeres (Jaboatão
dos Guararapes), Zefinha, Elisabete e Severina (Caruaru) e Dôra, Tia Ana, Juliana, Neide, Darinha, Jacira, Luzânia, Marlene (etnia Pankararu)
Onde ver: TV Pernambuco (Recife e Região Metropolitana - canal 46.1; Caruaru - canal 12.1; Petrolina - 13.1); Facebook: /MuseudaParteira; Instagram: @museudaparteira; Youtube: canal Museu da Parteira

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LUCIANA VERAS é repórter especial da Continente e crítica de cinema.

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