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Curtas

O sino e o relógio

Lançamento da editora Carambaia publica narrativas breves do romantismo brasileiro

TEXTO Victor Augusto Tenório

01 de Abril de 2020

Contos de Casimiro de Abreu, Nísia Floresta e Machado de Assis compõem a edição

Contos de Casimiro de Abreu, Nísia Floresta e Machado de Assis compõem a edição

Imagem Reprodução

[conteúdo na íntegra | ed. 232 | abril de 2020]

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Partindo do princípio de que o Brasil é uma invenção, autores românticos nos guiam na construção do ideário literário e social dos primeiros anos dessa pátria recém-nascida, foco de tantas disputas de narrativa. O sino e o relógio, lançado recentemente pela editora Carambaia, nos dá acesso à produção literária oitocentista para além do indianismo patriótico e outras marcas associadas ao período. Com organização de Vagner Camilo e Hélio de Seixas Guimarães, professores de Literatura da Universidade de São Paulo (USP), o livro reúne contos de autores célebres, não célebres e anônimos, numa antologia que, através do belo projeto gráfico de Laura Lotufo, nos leva a uma viagem – ora fantástica, ora histórica ou cotidiana – por um projeto de país e, de certa forma, de construção de passado, que se imprime nas 25 histórias curtas, escritas e publicadas entre 1836 e 1879.

“Iniciamos com o que já havia sido reunido em outras antologias e começamos a fazer um levantamento das narrativas breves publicadas nos livros e periódicos. Os materiais digitalizados em acervos como os da Biblioteca Nacional e da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin foram importantes para a composição desta antologia. Como nós trabalhamos há bastante tempo com a literatura do século XIX, trouxemos, claro, nossos repertórios de leituras e o nosso gosto para a antologia”, comenta Hélio de Seixas. “Reunimos histórias que julgamos ser representativas da diversidade da produção do período, tanto no que diz respeito ao perfil dos autores, como aos modos de publicação e às temáticas abordadas”, completa Vagner Camilo, que falou à Continente, assim como Hélio.

Dada a diversidade de temáticas, O sino e o relógio dispõe seus contos em quatro partes: fantástico, histórico, cotidiano e intriga. Essa divisão não os limita ou pressupõe uma “evolução” da narrativa do período, mas apenas os organiza de acordo com o assunto central da trama e ilustra como o século XIX foi fértil para a construção de diferentes fabulações. Apesar das poucas páginas de cada narrativa, o leitor se deixa – seja durante 15 minutos ou uma hora – à mercê das histórias presentes na antologia.

O passeio literário é iniciado pelo conto O sino de ouro, de Franklin Távora. Nele, narra-se uma caminhada pela vila de Porto Calvo, depois da expulsão dos holandeses. O fantástico em torno de um sino enterrado que, misteriosamente, continua badalando não apaga as referências históricas das lutas e seus combatentes. No sentido de pluralidade de autores, encontram-se na antologia José de Alencar, Machado de Assis e Casimiro de Abreu, ao lado de nomes como o do editor Francisco de Paula Brito e o do dramaturgo Martins Pena.


Capa e algumas páginas internas de O sino e o relógio, da editora Carambaia.
Imagens: Reprodução

Houve, na seleção de textos, a atenção aos raros registros de produções de autoras, havendo contos de Corina Coaracy, Escolástica P. de L e Nísia Floresta. Nísia está presente com o conto Fany, ou o encanto das donzelas. Nele, a educadora faz uso das “qualidades” impostas às personagens femininas românticas (leia-se submissão) para traçar crítica às guerras que, empreendidas pelos homens, espalham suas mazelas entre as mulheres, que em nada se relacionaram com a disputa e sofrem com os seus reveses. No conto, narram-se acontecimentos da Revolução Farroupilha (1835-1845) através da “virtuosa” filha de um comandante revolucionário.

Um dos destaques da antologia, no sentido da criação de um contraponto às narrativas mais recorrentes do Romantismo (como o citado indianismo patriótico), é O pão de ouro, de Bernardo Guimarães (1825-1884), célebre autor de A escrava Isaura. Através de uma história fantástica, que tem como base uma lenda sobre a investida dos bandeirantes, Guimarães tece críticas ao indianismo e, ainda, aos “paulistas”, colocando-os na posição de caça, em vez de caçadores. Segue caminho semelhante, mas a partir de uma narrativa de viés histórico, o conto Camirã, a quiniquinau, de Visconde de Taunay. Nele, o autor desloca o indígena da época da colonização para o contexto oitocentista da Guerra do Paraguai e mostra como os povos originários, que não faziam parte do conflito, fundaram uma vila solidária à população em geral durante a invasão paraguaia.

Na parte das histórias cotidianas de O sino e o relógio, há também espaço para leituras com sorriso no canto da boca. São exemplos disso Que desgraça, publicado por autor anônimo e que se assemelha bastante à crônica contemporânea; O banho russo, de João Manuel Pereira da Silva, que narra uma visita a uma casa de banho russo, em Paris, e Achar marido num ovo, de Escolástica P. de L. São histórias curtíssimas que nos colocam diante de uma situação inesperada, como o fim de um noivado causado por um macaco, ou sobre uma viagem de transporte público que promove um cômico contato entre classes sociais, e um certo flerte do autor com uma garota acompanhada do namorado.

Questionados sobre a importância do resgate desses singulares contos através de uma antologia, os organizadores Hélio de Seixas e Vagner Camilo respondem em conjunto: “Vivemos num momento em que predominam as disputas de narrativas, as posições irredutíveis, em que tudo parece reduzido ao verdadeiro ou ao falso, o fake. Isso tudo resulta em cerceamento brutal à imaginação, em subordinação da ficção aos ‘fatos reais’, em desqualificação das nuances da ironia e do humor. A leitura de ficção, e especialmente da ficção produzida num tempo já relativamente distante do nosso (mas que, de alguma maneira, ainda é o nosso), permite pensar em outros modos de simbolizar e de pensar o mundo, o país e a nossa própria condição humana”.

VICTOR AUGUSTO, estudante de Jornalismo (Unicap) e estagiário da revista Continente.

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