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Curtas

Ana Ivanova, a voz de ‘King Kong em Asunción’

Consagrada no papel da antagonista do filme ‘Las herederas’, atriz paraguaia vai fazer uma personagem narradora no novo longa-metragem do cineasta pernambucano Camilo Cavalcante

TEXTO Amanda Nascimento

13 de Setembro de 2019

A atriz paraguaia Ana Ivanova

A atriz paraguaia Ana Ivanova

Foto Josh Rodriguez/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Nem Berlim, nem Veneza, nem Gramado. Não. Não foi um festival que fez a atriz paraguaia Ana Ivanova sair de Assunção para representar o cinema de seu país. Desta vez, a antagonista de Las herederas, do seu conterrâneo Marcelo Martinessi, se deslocou até o Recife para trabalhar em King Kong em Asunción, road movie tríplice fronteira (Brasil, Paraguai e Bolívia) do cineasta pernambucano Camilo Cavalcante. Ao filme, a consagrada atriz empresta sua voz e interpretação a partir de um texto inédito de Natália Borges Polesso, premiada escritora gaúcha, traduzido por Alba Azevedo (português-espanhol) e Lilian Sosa (espanhol-guarani). Sua personagem fala em guarani, língua indígena do sul da América do Sul que se tornou oficial no Paraguai, ao lado do castelhano.

“Acredito que este filme vai ser muito bonito, muito potente e que essa personagem vai dar o que falar. Foi a primeira vez que fiz isso em um longa. Acho que agora estamos todos satisfeitos e que venha o filme para celebrar esse novo nascimento de King Kong em Asunción. Viva o cinema pernambucano!”, disse a atriz à Continente, em sua passagem, em agosto, pelo Recife. Na conversa, ela nos falou sobre a experiência de interpretar uma pessoa que não se materializa em imagem, mas em áudio: “Criar um personagem, nesse momento da tirania do cinema, foi um desafio tremendo. E os personagens são muito mais introspectivos em relação à voz humana. Não é apenas uma voz em off, escutar o som dela sem se importar com o idioma. É um ser humano que se permite comunicar com as pessoas. Parece ser extraordinário obrigar o espectador a escutar essa voz e se conectar. Não ficar na comodidade da imagem, porque o cinema é para incomodar”.

“Ana Ivanova tem o papel de uma narradora que pode ser interpretada pela própria morte, que vai contar a história da tragédia pelo qual o personagem do Velho passa. É uma narradora onisciente, que sabe o passado, o presente e o futuro dos personagens. Ela é uma atriz de extremo talento que incorporou essa personagem. Uma voz experiente que paira sobre todo o roteiro”, revelou à Continente o diretor Camilo Cavalcante, dando um spoiler de um dos seus três longas com lançamentos próximos: Beco, que acaba de ser selecionado pela 43° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e O palhaço de cara limpa, em fase de finalização. King Kong em Asunción tece uma relação íntima com a morte. O Velho é um matador (protagonista interpretado por Andrade Jr., ator cearense radicado em Brasília que faleceu em maio desse ano) que passa a pôr em conta sua própria vida e desiste de matar. Vai, então, em busca de sua filha, já uma mulher de 40 anos, que nunca conheceu.

Os testes de Ana Ivanova para o longa começaram em 2016, quando a produtora paraguaia Karen Fraenkel a convidou para fazer um casting para dois personagens da trama: a filha do protagonista e uma prostituta numa cena importante. “Fiz o teste, passou um tempo e me volta a chamar Regina Rial, da Jaheka Productora de Casting, volto a fazer um teste somente para a prostituta. Passa tempo, já em 2017, e Karen volta a me ligar dizendo que iam filmar e, o segundo assistente de direção, Caio Zatti, me enviou um e-mail chamando para uma reunião onde toda a equipe estava hospedada, no centro de Assunção. Aí, eu estava muito contente, porque tinha a possibilidade de estar com Georgina Genes (dama do cinema paraguaio). Estava muito, muito feliz porque, finalmente, ia fazer parte do elenco para um diretor pernambucano.”

Ela havia visto o making off de A história da eternidade, longa-metragem de Camilo Cavalvante vencedor de 28 prêmios nacionais e internacionais como melhor ficção brasileira – prêmio do público – na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e melhor longa de ficção na sétima edição do Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa (FESTin), em Lisboa. “Depois, vi um material desse filme que está no Youtube. Eu gosto muito desse filme, de como as mulheres são retratadas aí, as paisagens do Sertão. Aí, Caio (Zatti, segundo assistente de direção de King Kong) me pergunta se eu poderia participar e, justamente, a rodagem cairia nas datas da filmagem de Las herederas. Lembro que fiquei muito triste, chorei. Tinha no meu imaginário ter uma cena com Georgina e não ia mais ter. Ainda mais, que conheci uma parte da equipe, pude conhecer Andrade Jr. E minha vida mudou a partir deste momento com o sucesso de Las Herederas. Já em 2019, tive a linda surpresa quando recebi um e-mail de Karen desde a Colômbia, quando me disse que estava pensando em fazer uma voz em off e Camilo havia dito que queria que eu fizesse. Aceitei na hora!”

O desafio lhe pareceu imenso, de criar uma personagem a partir de sua própria voz: “Poder imaginar sua estatura física, sua cor da pele, seus olhos, os lábios falando, poder criar os momentos em que respira, pensar em que sexo tem. Imagina criar uma personagem sem a imagem, é um desafio para qualquer ator”. O desafio, precisamente, era criar algo além da imagem e além do texto: “Eu não poderia ser tragada (expressão hispanohablante que significa beber) pelo texto, mas tragar o texto. Isso é uma forma de dizer que eu tinha que superar o texto com o personagem. Tinha bastante medo, porque eu tinha que estar à altura de Andrade, mas agora já confio que o trabalho saiu precioso”.

Nesse meio, ainda existiu o sentido de uma língua como o guarani, que foi para ela “elevada a um lugar de filosofia”, sobretudo pelo trabalho entre o diretor, a autora e as tradutoras. “Um texto tão poderoso, fizemos um trabalho maravilhoso com tradução de Lilian Sosa. E o trabalho que fizemos até chegar aqui. Como eles o fizeram já é potente demais para mim. Foi uma oportunidade extremamente importante, poder vir representar e falar a língua de um povo escondido, como os indígenas, em toda a América”, contou a atriz, que se diz apaixonada pelo Sertão.

De conversa leve e riso fácil, Ana Ivanova é filha de um engenheiro civil, campeão nacional (do Paraguai) de xadrez, e de uma professora aposentada, guarani parlante. Membro da Academia Paraguaia de Cinematografia, antes de estudar teatro na Escuela Municipal de Arte de Assunção, estudou Análise de Sistemas, Auditoria e Contabilidade. “Criança, frequentei uma escola pública, onde todos falavam guarani e, na adolescência, fui estudar em um colégio privado. Foi um choque muito grande. Sempre estive dividida em duas sociedades: uma do campo, mais popular, e outra urbana, conservadora. Havia um conflito de identidade. Isso poderia ter sido uma debilidade para mim, mas acredito que foi algo que me potencializou, porque poderia me mover livremente em ambos os ambientes”, analisa e contempla a asuncena vencedora do prêmio de melhor atriz, junto a Margarita Irun y Ana Brun, no 46° Festival de Cine de Gramado (2018).

“O mais importante do Cinema Latinoamericano são as nossas redes de pessoas. Não podemos esquecê-las. Isso que nos vai permitir atravessar esse momento contrário da cultura e do cinema nos nossos países e encontrar outra maneira que não seja a europeia, tampouco a norte-americana de fazer arte, mas a nossa de conectar e contar o que temos a narrar, de escutarmos e de nos virmos mais que nada.”

AMANDA NASCIMENTO é jornalista com especialização em Diplomacia e Negócios Internacionais, diretora de produção e assistente de direção de cinema.

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