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Artigo

Por um lugar da empatia

TEXTO Filipe Campello

26 de Julho de 2018

Um escadão para Marielle Franco em Pinheiros, São Paulo

Um escadão para Marielle Franco em Pinheiros, São Paulo

Foto Rafael Carneiro/Reprodução

A morte de Marielle Franco, ainda sem justiça, mais de quatro meses após seu assassinato, tornou-se particularmente emblemática como onda catalisadora de uma indignação generalizada no país. O sentimento de injustiça incitado não somente pelas circunstâncias de sua execução, mas pelo que Marielle representava como mulher, negra e de periferia, viu-se compartilhado também por quem não estava nas mesmas condições de luta e vulnerabilidade da vereadora do Rio. O efeito Marielle representou, de algum modo, uma zona fronteiriça, e muitas vezes polêmica, entre quem fala a partir de experiências identitárias específicas e a percepção de injustiça por quem está “de fora”. Mesmo em outro lugar, muitas pessoas reconheceram a importância das pautas defendidas por Marielle, bem como a representatividade do seu lugar para denunciar injustiças.

No amplo debate sobre lugar de fala, contudo, tem sido bastante controverso o alcance da compreensão e da crítica a injustiças, em particular por quem não detém a experiência. Eu tenho proposto que, do ponto de vista filosófico, podemos distinguir duas dimensões do problema. Um primeiro aspecto, que podemos chamar de político, refere-se à crítica a relações estruturais de dominação e às lutas por ocupação de espaço e visibilidade, e por reconhecimento de quem fala. Já um segundo sentido, mais intrincado, refere-se ao primado da experiência como pré-condição da crítica. Neste caso, a pergunta sobre de onde se fala não se refere somente à ocupação de um espaço, mas a uma perspectiva particular da experiência. Ou seja, em que medida é possível (e também legítimo) se solidarizar com o outro?

No seu livro O que é lugar de fala?, Djamila Ribeiro ressalta que o conceito de lugar de fala é muitas vezes confundido com o de representatividade. Enquanto representatividade se aproximaria do sentido político de ocupação de espaços, o lugar de fala refere-se, sobretudo, à percepção de uma posição de poder ou vulnerabilidade, ou seja, de que sempre falamos a partir de um contexto situado histórico e socialmente. Nesta acepção, por exemplo, uma mulher branca não deve ser criticada, a priori, por se solidarizar ou se engajar pela luta dos direitos da mulher negra; no entanto, esta postura deve ser acompanhada pela percepção de que o reconhecimento ou visibilidade  de uma mulher branca na nossa sociedade é diferente do de uma mulher negra.

A difícil questão que permanece aqui é em que medida eu posso compartilhar um sofrimento que não o meu – tanto no sentido de comunicar ou expressar, como também de sentir junto. Chamemos este sentido de epistêmico – relativo, aqui, aos aspectos cognitivos e de conhecimento verificados em nossas experiências. Enquanto a dimensão política do lugar de fala – ou, particularmente, da questão da representatividade – parece ser mais claramente justificável, o aspecto epistêmico levanta algumas dificuldades. A primeira delas refere-se à intuição de um conjunto privilegiado de experiências, ou seja, a como os critérios de injustiça são dependentes de sentimentos vivenciados, tais quais humilhação ou desrespeito. Como defende a filósofa norte-americana , devemos conceituar o que, de fato, merece o título de injustiça, em oposição àquilo que é experienciado como injusto.

Um segundo aspecto questionável consiste em presumir que o sujeito ao qual se refere a experiência detém também a compreensão de relações estruturalmente injustas. Enquanto a primeira dificuldade problematiza a experiência enquanto condição necessária para a crítica, ela aqui é questionada também como condição suficiente da compreensão; ou seja, a pessoa que sofre uma injustiça pode não articular esse sentimento ou não perceber claramente suas causas. Tomemos o exemplo do que pode ser chamado do paradoxo do escravo feliz. Imaginemos que, do ponto de vista da sua experiência, uma pessoa escravizada não se sinta injustiçado. Esse sentimento, por si só, não deve impedir a crítica à sua condição de restrição de liberdade.

***

Em outro texto recente, mencionei dois casos nos quais a tensão entre experiência subjetiva e empatia incorpora nuances ainda mais intrincadas por se tratar de exemplos artísticos. O primeiro caso é o da polêmica em torno da cantora Fabiana Cozza, escalada para viver Dona Ivone Lara em um musical em sua homenagem. Após ter sido bombardeada por críticas ao fato de ela ser “clara demais” para o papel, Cozza optou por renunciá-lo. O segundo caso refere-se ao quadro Open casket (2016), da artista Dana Schutz, exposto na última bienal do Whitney Museum, principal exposição de arte norte-americana. O quadro foi inspirado na morte trágica de Emmett Till, adolescente negro brutalmente assassinado em 1955, por dois supremacistas brancos no Mississipi. Logo na abertura da bienal, militantes exigiam a retirada e destruição do quadro, denunciando o fato de se tratar de uma artista branca expondo a sua representação subjetiva de uma imagem icônica da luta dos afro-americanos pelos direitos civis.


Open casket (2016), de Dana Schutz. Imagem: Reprodução

Esses dois exemplos expõem questões que vão desde a relação entre arte e mercado até a tensão entre a liberdade de representação da arte e a luta política por representatividade. Mas eles também são emblemáticos para o problema de como uma pessoa pode dividir (ou se apropriar de) uma experiência que não seja primariamente identificada com ela.

Em vez de tentar descrever essas experiências, recorro aos próprios relatos das duas artistas. Em sua resposta às críticas ao se quadro, Dana Schutz declarou: “Não sei o que é ser negra na América, mas sei o que é ser mãe. Emmett era o único filho de Mamie Till. O pensamento de qualquer coisa que aconteça ao seu filho vai além da compreensão. A dor é dela. Meu engajamento com essa imagem foi através da empatia com a sua mãe”. E conclui: “A arte pode ser um espaço para a empatia, um veículo de conexão. Eu não acredito que as pessoas possam realmente saber o que é ser como outra pessoa (eu nunca vou saber o medo que pais negros podem ter), mas também não somos todos completamente incognoscíveis”.

Já em uma entrevista recente de Fabiana Cozza, ela relata: “Ouvi muito esse argumento ‘Não posso falar sobre isso porque sou branca’. Mas por que não? Eu não preciso ser palestina pra saber da dor que é ser mãe de um filho que morreu na guerra. Não, pera um pouquinho. Se for assim, os livros não poderiam ser escritos. Imagina se as escritoras tivessem que viver tudo aquilo que escrevem, que inventam, que criam, que pensam, que sonham. Não, isso não existe, eu tenho que ser empática com as pessoas, conhecer a sua história antes de tudo”.

Esses relatos demonstram um sentido de empatia, ainda que a experiência de quem está “fora do lugar” não seja a mesma. A defesa deste sentimento, enquanto possibilidade de compartilharmos o sofrimento alheio, já era o fundamento da filosofia moral de Adam Smith. Para o , a capacidade de empatia não significa compartilharmos da mesma experiência, mas que este vínculo depende de nossa imaginação (“Como não temos a experiência imediata do que outros indivíduos sentem, somente podemos formar uma ideia da maneira como são afetados se imaginarmos o que nós mesmos sentiríamos numa situação semelhante”). Seria o que move Bob Dylan a compor  em solidariedade à tragédia mencionada acima (Se você não pode protestar contra esse tipo de coisa, um crime tão injusto/ Os seus olhos estão cheios da sujeira da morte dos homens, a sua mente está cheia de poeira/ Seus braços e suas pernas devem estar presos a grilhões e correntes).

Mas os relatos também exprimem as dificuldades de se assumir uma narrativa de si mesmo. O lugar de onde se fala não é algo dado, senão resultado de um processo de autopercepção, por vezes acompanhada de sofrimento por um conflito interno de identidade. É não saber mais quem se é, em uma experiência vertiginosa sobre um lugar que muitas vezes não está claro, cuja identidade é continuamente confrontada. É o sentimento, como escreve Cozza, de “sentir no corpo e no coração uma dor jamais vivida antes: a de perder a cor e o meu lugar de existência. Ficar oca por dentro”. A autocrítica de sua identidade e do lugar que ocupa é também perceber que “a escuta é lugar de reconhecimento da existência do outro”.

A percepção de uma identidade própria mostra-se, portanto, fragmentada. Ainda que as identidades possam ser tomadas a partir do que Gayatri Spivak entende por essencialismo estratégico, a desconstrução de uma carapuça identitária rígida e intocável abre também espaço para reconhecer a vulnerabilidade de um outro diferente de mim. Significa, como diz a filósofa Judith Butler, perceber esse espaço de vulnerabilidade primeiramente nas dificuldades de criar um relato de si mesmo, de sermos constantemente interpelados a compreender o que me torna singular, de construir e reconstruir a minha própria narrativa.

A partir de uma ênfase em experiências identitárias, é possível questionar se uma mãe branca pode sentir o mesmo que uma mãe negra. A artista branca compartilharia do mesmo sentimento que uma mãe negra? Do seu medo e de sua angústia de ser vista como ameaça ou de ser hostilmente abordada por um policial? Não sem razão, a forma escolhida de apropriação desse sofrimento e sua representação (com critérios estéticos questionáveis) por uma artista branca, em condições sociais bastante distintas, provocou resistência.

Por outro lado, se radicalizamos as particularidades das experiências, cabe perguntar quem pode, de fato, compartilhar a dor daquela mãe que perde o filho brutalmente assassinado – independente de ser mãe, de ser branca ou de ser negra. Para além das identidades, este sentimento desvela uma particularidade intransponível: a experiência radical da singularidade. Com a impossibilidade de dividir sentimentos e percepções, estaríamos, no limite, condenados a viver ilhados na irredutibilidade de nossas experiências exclusivamente singulares e sempre intraduzíveis. Aquilo que, no entanto, permanece de linguagem privada em nossas experiências não nos veta a possibilidade imagética de nos colocarmos no lugar do outro e solidarizar-se com a sua dor. Ainda que eu não me encontre na mesma situação de vulnerabilidade, a vivência da empatia significa que eu posso compartilhar o sentimento de injustiça de quem a sofre, como uma mãe negra ou um imigrante – ou seja, justamente de quem tem uma identidade diferente da minha.   

Mesmo que estes aspectos muitas vezes estejam entrecruzados – como naquilo que Miranda Fricker chama de –, a distinção entre as dimensões políticas e epistêmicas pode ser uma saída para tensões recorrentes no debate: no seu aspecto político, trata-se da ênfase na identidade como estratégia de luta, sem que isso represente um acesso exclusivo à crítica a relações injustas. O lugar de quem está fora é sobretudo o lugar de escuta e de autocrítica. Mas não só: como o efeito catalisador do assassinato de Marielle demonstrou, indignar-se com a injustiça, com o tratamento desigual dos que são iguais, pode e deve ser algo compartilhado – senão como experiência, como solidariedade.

Ao mesmo tempo que reafirma a importância do protagonismo e representatividade de quem fala, o lugar da empatia permite abrir espaço para a capacidade de compartilharmos nosso sofrimento e vulnerabilidade. Se o lugar de fala, no seu aspecto político, deve ser assegurado como ocupação de espaço e luta por se fazer ver e ouvir, cabe a qualquer ser humano a possibilidade de compartilhar o que tem em comum: a sua humanidade. Promovermos formas de empatia significa, sobretudo, escutar quem historicamente não tem voz, quem não é reconhecido na sua dignidade de ser humano, quem esteve e ainda permanece invisível. Tentar romper com o sentimento potente e, ao mesmo tempo, apático de exclusão da diferença é reconhecer o que há de universal nas lutas identitárias.

FILIPE CAMPELLO, doutor em Filosofia pela Universidade de Frankfurt, é professor de Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos em Filosofia Política e Ética (NEFIPE/UFPE). Fez pós-doutorado na New School for Social Research (Nova York).

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