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Artigo

A empatia é branca?

Sobre a centralidade política do lugar de fala: um artigo sobre empatia, privilégios, o debate por igualdade e o desejo de reconhecimento

TEXTO Érico Andrade

17 de Setembro de 2018

A empatia tem que ser bilateral, mútua e ser, por assim dizer, simpatia?

A empatia tem que ser bilateral, mútua e ser, por assim dizer, simpatia?

Ilustração Hana Luzia

Meu amigo e colega Filipe Campello traça, em artigo recente, uma distinção importante no que diz respeito ao debate vital sobre o lugar de fala. Campello tem razão em colocar inicialmente que em termos políticos não estamos mais dispostos (as), ou pelo menos não deveríamos, a passarmos incólumes diante da omissão histórica do lugar de fala de grupos significativos da população brasileira. Não apenas grupos estatisticamente chamados minoritários, mas grupos que compõem a maior parte da população brasileira, como as pessoas não brancas, por exemplo, tiveram seu lugar de fala sequestrado em nome de uma suposta harmonia social (chamada por alguns de democracia racial). O discurso da harmonia e da cordialidade fez sombra sobre a explícita hegemonia branca, católica, masculina e heteronormativa em todos os lugares de poder. Reparar essa dívida histórica, sim, trata-se de uma dívida, parece algo tanto urgente quanto justo. O lugar de fala importa.

Por outro lado, Campello chama de dimensão epistêmica a questão sobre a possibilidade de compartilhamos um sofrimento, tanto no sentido de expressar como comunicar, certos sofrimentos para os quais guardamos uma condição, as expressões agora são minhas, fenomenologicamente e subjetivamente distintas. Afinal, por exemplo, não posso viver na radicalidade a experiência de ser mulher porque ontologicamente sou um homem. Um filósofo, num famoso artigo, dizia que não podemos ser como um morcego. Nossa condição ontológica, as nossas práticas sócio-históricas e a nossa constituição biológica, para ser mais claro, não permite acessar fenomenologicamente e subjetivamente a experiência de viver como um morcego. No meu caso, embora se trate da mesma espécie humana, não sei o que significa na radicalidade viver como uma mulher. Essa dimensão do problema do lugar de fala, meu colega tem razão, é a mais intricada e parece requerer uma discussão estética sobre os limites da sensibilidade: podemos sentir a mesma coisa, ter os mesmos sentimentos, apesar de nossas diferenças? Embora tencione mostrar que essas considerações estéticas tenham certa importância, vou concluir que a centralidade do lugar de fala é incontornável e ela é essencialmente política. Debatemos.

A sensibilidade ganha a estatura de uma indagação filosófica quando Baumgartem (século XVIII) questiona como através dos sentidos, historicamente entendidos como particulares, isto é, relativos a cada pessoa, e, por isso, contingentes, podemos alçar ao reconhecimento de imagens tomadas como a expressão do belo. Do belo universal. Perde-se em lógica e ganha-se em estética, a palavra foi, aliás, cunhada por ele, quando se faz uma reflexão aguda sobre a sensibilidade humana. Essa reflexão, contudo, é eivada por outro aspecto, que também não aceitamos tão facilmente hoje, a saber, a ideia de que existe uma universalidade do gosto, da apreciação estética de uma obra de arte; essa última entendida igualmente como universal.

A nossa resistência à compreensão de que uma obra de arte é universal está conjugada a nossa justa desconfiança – pós-colonial – quanto ao lugar de quem determina a universalidade da obra de arte. Novamente, voltamos à questão do lugar de fala. A questão que era meramente estética passa a ser iminentemente política. A razão é simples. Percorrendo os exemplos dados pelos filósofos da tradição é difícil, para não dizer praticamente impossível, encontrar obras que estivessem além das fronteiras do velho continente. Resta então saber se as demais culturas não produziam arte no mesmo nível da europeia ou se a Europa, tal como Narciso, achava feio o que não era espelho. A resposta obviamente incide sobre o claro autocentramento europeu. Eurocentrismo, para dar o nome correto.

A questão, contudo, permanece. É possível compreender a sensibilidade como uma faculdade humana que nos faz sentir as mesmas coisas? Quando dimensionada para o campo da arte a resposta mais imediata parece dizer que não. A apreciação de uma obra de arte, a despeito do que acreditava Hume (para quem a empatia era uma categoria ética central), Kant, Hegel e tantos outros filósofos racistas ou nazistas como Heidegger, incapazes em geral de admirar algo que não estivesse na Europa, depende muito fortemente da audiência, da educação do olhar no interior de uma cultura. Asserir que alguma obra de arte se apresenta por si só como a expressão mais pura do humano é se comprometer com a tese de que um critério filosófico pode normatizar todas as apreciações do gosto. Esse critério pode até fazer sucesso nas revistas especializadas de filosofia, mas estará longe de ser um ponto pacífico para todas as pessoas concernidas por esse debate.

Com efeito, a despeito das dificuldades que trago, podemos perguntar se não seria possível treinar a sensibilidade para atingirmos uma espécie de padrão universal. E, enfim, termos uma base sensível comum para, por exemplo, o exercício da empatia mais generalizado e capaz, porquanto, de superar as diferenças recalcitrantes que experenciamos hoje entre diferentes grupos políticos.

No entanto, parece-me que cabe uma questão anterior. Aliás, algumas. Precisamos de um treinamento estético para o exercício da empatia? Ganha-se mais politicamente sendo mais empático? É a empatia uma categoria política incontornável? A empatia tem que ser bilateral, mútua e ser, por assim dizer, simpatia? São várias indagações, mas vou me permitir voltar à questão do lugar de fala que serve como uma lupa para recuperar nos discursos os lugares de poder. Quem pede empatia? Qual o lugar de fala da empatia? Ele é, em geral, privilegiado. Para retomar o exemplo do texto de Campello é a artista branca Dana Schutz que se mostra empática em face do sofrimento do jovem negro Emmett Til; pintado por ela. No entanto, o que alguns movimentos sociais pedem não é propriamente empatia, mas reconhecimento; o que nos reporta para uma discussão mais política do que apenas estética. Voltemos para a política.

O desejo de reconhecimento é, em alguma medida, o desejo pela igualdade, mas por uma forma específica de igualdade. A igualdade que reivindica as mesmas condições de existência para debelar vulnerabilidades construídas socialmente (como, por exemplo, ser mais vítima da violência sexual, ser mais objeto de batidas policiais, ganhar menos do que pessoas brancas do gênero masculino, etc.). Essa é a razão pela qual os movimentos sociais estão muito mais preocupados, talvez mesmo absortos, em fortalecer os seus laços identitários, que os permite se reconhecer como socialmente irreconhecidos nos lugares de poder, do que em exigir empatia dos setores que historicamente os oprimiram ou mesmo ser mais solidário com esse tipo de empatia.

Proponho agora uma virada no caminho da discussão do lugar de fala em relação à questão epistemológica de Campello e mesmo à estética na qual toquei no meu texto. Inicialmente, é importante ressaltar que a empatia não pode ser protagonista política porque estaríamos novamente dando protagonismo a quem sempre esteve no lugar de fala privilegiado, considerando que não tem muito sentido exigir (moralmente ou politicamente) que os movimentos sociais tenham empatia por quem historicamente os oprimiu. No entanto, para as pessoas privilegiadas a empatia pode desempenhar um papel importante para elas assumirem o seu próprio lugar de privilégio em determinados lugares de fala e serem capazes de lidar melhor com a sua própria dívida histórica.

Assim, os movimentos sociais não têm obrigação moral de assumir a empatia como categoria política, mas podem acolher a expressão da empatia, de quem historicamente esteve no lugar privilegiado, como arma política de combate a um inimigo comum, qual seja, os que naturalizam seu lugar de privilégio como expressão de sua própria identidade.


ÉRICO ANDRADE é professor de Filosofia da UFPE. 

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