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Kurt Cobain: último herói do rock?

Há 30 anos, morria o compositor e vocalista do Nirvana, deixando um legado musical e de rebeldia para o mundo

TEXTO Yellow

05 de Abril de 2024

FOTO Divulgação

 

No Recife, apesar da notícia do suicídio de Kurt Cobain (que os legistas concluiriam que ocorreu no dia 5), o 8 de Abril de 1994 foi um dia bem feliz. Era o primeiro dia da segunda Edição do festival Abril pro Rock, que aconteceria no Circo Maluco Beleza, um espaço de eventos que ficava na Av. Rui Barbosa, onde hoje existe uma loja de automóveis. Alguns poucos mangueboys souberam da morte de Kurt Cobain através do Jornal Nacional, antes de chegarem ao evento. Mas a maioria do público ficou sabendo da notícia lá mesmo. O boato se espalhava em frente à bilheteria, e na fila de entrada. Antes do primeiro show da noite, o apresentador confirmou a informação.

No entanto, poucas foram as menções ao fato, ao longo da noite. A banda Jorge Cabeleira e o Dia em que Seremos Todos Inúteis, fazendo sua estreia no festival, dedicou a Cobain uma de suas músicas mais pesadas. Mas, de modo geral, o suicídio não surtiu efeito e não abalou as boas vibrações que permanecem na memória de quem fez parte daquele momento especial. Para a música pernambucana, o segundo Abril representava o estabelecimento e a maturidade do Movimento Mangue.

Em uma cena que deve ter sido combinada, Chico Science adentrou o recinto ladeado por duas moças, enquanto os alto-falantes do palco principal ribombavam as gravações do primeiro disco de sua banda, Da lama ao caos. A apresentação de CSNZ no festival marcava o lançamento do álbum, para o público pernambucano, e, em breve, se seguiram os lançamentos dos primeiros discos de Mundo Livre S/A, Jorge Cabeleira, Eddie, Mestre Ambrósio.

Seria até cafona de nossa parte, ficar remoendo a perda de uma pessoa tão distante de nossa cultura, quando estávamos vivendo e construindo coletivamente uma cena cultural tão rica, que energizou a cultura pernambucana e serve de inspiração até os dias de hoje. Ninguém sabia, é claro, que dali a cerca de três anos, seria a vez do Mangue, assim como o Grunge, amargar o luto da perda de sua figura principal. 

O Nirvana, assim como as outras bandas do gênero grunge, como Pearl Jam e Alice in Chains, apareceu por aqui praticamente ao mesmo tempo que a MTV, que começou a ser transmitida em Pernambuco, pela banda UHF, a partir do final de 1991. Era difícil, para o público brasileiro, entender que aquela trupe de maltrapilhos não representava o início de um estilo, de um novo rock, mas a culminância de um movimento de música alternativa norte-americana que se iniciou nos anos 1970, com bandas punk como Stooges e Ramones, que faziam contraponto ao flower power hippie e à repetitividade da música disco

Como conta o biógrafo do Nirvana, Michael Azerrad, em Our band could be your life (2001), os grunges de Seattle foram cria do movimento de música alternativa dos anos 1980, quando bandas como Black Flag, R.E.M. Hüsker Dü, Butthole Surfers e Sonic Youth, cruzando o país em perigosas viagens de furgão, desbravaram um circuito alternativo de casas de show onde artistas independentes poderiam se apresentar. A cena era difundida através de fanzines, publicações amadoras copiadas por xerox e distribuídas pelo correio.

Grunge foi o termo convencionado à geração de bandas do início dos anos 1990 que tinha influências da música punk, e se tornou popular justamente com o sucesso do segundo disco do Nirvana, Nevermind (1991). Juntamente ao hip-hop, foi o som que serviu de trilha sonora para a Geração X, descendente dos baby boomers (os que haviam desfrutado da prosperidade pós-Segunda Guerra). Mas o que explica o comportamento arredio e apático dos Gen-Xers?

Certa vez, o apresentador de TV Stephen Colbert perguntou a Stephen Malkmus, “Você tem um herói na música? Alguém que, se não tivesse existido, você não estaria fazendo rock?” O compositor e guitarrista da banda Pavement respondeu, “Reagan?”. A guinada neoliberal da política norte-americana nos anos 1980 (em harmonia com Margaret Tatcher, na Inglaterra) serviu para a revelação de uma juventude negligenciada, a Geração X, descendente dos baby boomers, para a qual o "sonho americano" não era mais tangível.

Muitos jovens dessa geração, chamados também de slackers, ou preguiçosos, preferiam (ou eram obrigados a) parar de estudar no segundo grau e arrumar empregos básicos, como entregadores ou garçons, a se endividarem para o resto da vida com uma educação superior, que serviria apenas para tentar alcançar o ideal dos anos 1950: casamento com uma casa no subúrbio, dois carros e dois filhos. Era uma época de desregulamentação de empresas e terrorismo estatal. Tanto Bob Mould (da banda Hüsker Dü) quanto Michael Stipe (do R.E.M.) já falaram do terror que sentiam, sendo gays, de que o governo os viesse a confinar em campos de concentração, para impedir a disseminação do vírus HIV. Este era o nível das sandices propagadas pela direita norte-americana, nos anos 1980.

A desregulação estatal, ou manipulação através de lobbies das grandes empresas (a maneira norte-americana de legalizar o que, em outros país, é chamado de corrupção) levou a absurdos e distorções em diversos setores. Um deles foi o farmacêutico, que vive, até os dias de hoje, as consequências desta manipulação, com a crise dos opioides. Na década de 1970, foi comercializada uma droga, a Ritalina, com a promessa de acalmar crianças “hiperativas”. Bastava que a criança fosse um pouco mais inquieta do que as outras (o que poderia significar criatividade, ou alegria) para que lhe fosse receitada uma dieta do poderoso estimulante neurológico, atirando a criança a um estado de letargia, tontura e enjoo. Tanto Henry Rollins (vocalista da banda Black Flag) quanto Kurt Cobain foram vítimas desse procedimento.

A raiva acumulada dos anos Reagan serviu para encher de energia a música underground dos anos 1980. Quando despontou no mainstream, o grunge deu um choque de vitalidade no rock. Importavam menos as letras que a sonoridade das bandas daquela cena. Mas, tão importante quanto o som, foi a difusão da ética punk do it yourself (faça você mesmo). Em um cenário musical lotado de mega produções, as novas bandas ensinavam (novamente) que o rock não precisa de mais do que três acordes.

Como canta Michael Stipe (em uma citação atribuída ao cineasta Richard Linklater), “abstenção por desgosto não é o mesmo que apatia”. A Gen X não era preguiçosa ou apática, como parecia ao olhar desatento. Na verdade, era tão idealista que preferia se retirar de um jogo de cartas marcadas, a fazer parte dele. 

Esta recusa está estampada nas letras das músicas do grunge. Nevermind (algo como “deixa pra lá”) foi o título do maior disco do Nirvana. Veio da letra de Smells like Teen Spirit, seu maior sucesso, do verso “well, whatever, nevermind” (“bem, sei lá, deixa pra lá”). Mas “I don’t care” (“Eu não me importo”) também aparece repetidas vezes no início de Breed. E também em Lithium, e na canção de amor Drain you (“Eu não me importo com o que você pensa, a não ser que seja sobre mim”). No refrão de uma das faixas mais raivosas do álbum, Territorial pissings, uma urgência dá espaço à inação que define a geração: “Tenho que achar um caminho / um caminho melhor / é melhor esperar”.

I don’t care e I don’t mind também estão espalhadas nas letras de outra banda essencial para o grunge, Alice In Chains. No álbum Dirt, as frases são repetidas à exaustão por Layne Staley, principalmente nas letras que falam abertamente de seu vício em heroína.

Em várias das músicas de outra banda do grunge, Soundgarden, a abstenção também aparece, mas não com a frase “não me importo”, e sim em sua figura mais cruel e extrema. O suicídio era um dos temas preferidos do cantor Chris Cornell, o homem mais bonito de toda a cena musical, que veio a sucumbir ao mesmo, em 2017.

A morte, por suicídio ou overdose, acabou sendo a principal marca do grunge. As baixas não se limitaram apenas a Cobain e Cornell. Andy Wood (Mother Love Bone), Layne Staley e Mike Starr (ambos da Alice in Chains), Mark Lanegan (Screaming Trees), Mia Zapata (The Gits), todos sucumbiram aos poucos. Tornando, às vezes, impossível ou deprimente demais, fazer concertos e turnês nostálgicas com bandas da cena.

Só que esse posicionamento de distanciamento, abstenção e inação, por mais consciente que tenha sido, teve consequências drásticas. Não existiu uma geração de Gen-Xers exercendo papel de destaque na política norte-americana, por exemplo. Os boomers continuaram e continuam mandando no mundo, e reproduzindo sua ideologia rasa de crescimento desvinculado da sustentabilidade. Todos os presidentes norte-americanos após Reagan são filhos do "milagre econômico" pós-Segunda Guerra. Hoje, chegamos ao cúmulo de ver Joe Biden, aos 81 anos, ocupando a presidência dos Estados Unidos, enquanto completamente dissociado da realidade.

Kurt Cobain, em particular, poderia ter feito alguma diferença nesse sentido, se tivesse conseguido superar seus fantasmas interiores e permanecido vivo. O baixista do Nirvana e amigo infância de Kurt, Chris Novoselic, é ativista político e chegou a concorrer, duas vezes, sem sucesso, a cargos públicos no estado de Washington.

Cobain, nascido e criado em Aberdeen, era mais ligado à cena alternativa de Olympia do que à de Seattle. Ele e sua banda acabaram sendo vinculados a esta última cidade, por terem feito seus primeiros lançamentos através da gravadora Sub Pop. Enquanto, em Seattle, a cena musical era mais marcada pela testosterona (na forma do hard rock de Soundgarden, no hair metal de Mother Love Bone ou no humor pueril de Mudhoney), na cidade universitária de Olympia, havia uma participação maior das mulheres na cena musical, que também se destacava pelo seu caráter experimental e amador. 

Amiga muito próxima de Kurt, Katleen Hanna esteve à frente do movimento feminista das Riot Grrrs, como vocalista da banda Bikini Kill e, posteriormente, Le Tigre. Por inspiração sua, surgiram bandas como Bratmobile, Sleater-Kinney, e o coletivo artístico-político russo Pussy Riot.

O Nirvana chegou a se posicionar politicamente em algumas ocasiões, como ressaltado no texto de Kurt para o encarte da coletânea Incesticide (1992):

“Tenho um pedido para os nossos fãs. Se qualquer um de vocês, de qualquer maneira, odeia homossexuais, pessoas de cores diferentes, ou mulheres, por favor nos façam o seguinte favor – nos deixem em paz! Não venham aos nossos shows e não comprem nossos discos.”

Nevermind veio a marcar a última vez que o rock tomou o protagonismo na cena musical mundial. Alguns meses após seu lançamento, desbancou Dangerous (1991), de Michael Jackson, do topo das paradas. Em sua marola, vieram à proeminência bandas da mesma musical, trazendo músicas que se tornaram standards do gênero, como Alive (Pearl Jam), Black hole sun (Soundgarden), Man in the box (Alice in Chains). Bandas que haviam servido de inspiração ao Nirvana, como Sonic Youth, Ramones, Dinosaur Jr, Pixies, também passaram a fazer sucesso, e a serem tratadas como veteranos, e a lotarem estádios. Menções de Kurt aos brasileiros Mutantes trouxeram seus discos de volta ao catálogo, culminando em uma reunião dos irmãos Dias para turnês internacionais. Levas subsequentes de bandas de rock pesado revelaram bandas distantes de Seattle, como Smashing Pumpkins, Stone Temple Pilots, Helmet, Green Day. E a dinâmica quiet-loud do Nirvana inspirou a criação de um novo gênero musical, o Nu Metal, que se proliferou em centenas de bandas ao redor do mundo.

Nos início do novo milênio, houve um buzz em torno de uma nova banda, que estaria chegando para “salvar o rock”. Mas os Strokes, apesar de talentosos, não conseguiram nem chegar perto do sucesso das bandas grunge da década anterior. Continuaram surgindo grupos que misturavam punk rock com pop, como Cardigans, Yeah Yeah Yeahs, Raveonettes e Arcade Fire. E ainda atraíam atenção, mas cada vez menos público. Nada comparável ao grunge. Durante os últimos 30 anos, nasceu, cresceu e depois minguou uma indústria de festivais de música, como o Rock in Rio, Lollapalooza, Primavera, que ainda existem, mas dependem cada vez menos do gênero rock. A banda Foo Fighters, liderada pelo ex-baterista do Nirvana, Dave Grohl, permanece hoje como um dos últimos grandes nomes do rock na indústria do entretenimento. Uma das poucas bandas de rock em atividade que, como U2, Paul McCartney e Roger Waters (ex Pink Floyd), ainda consegue lotar estádios de fãs, por onde passa, sem ser da geração boomer.

É raro encontrar, hoje em dia, cenas de música como a de Seattle, de Manchester, ou do Recife. Os gêneros musicais estão muito segmentados, e, após a popularização dos programas de produção musical em computadores pessoais e celulares, é cada vez mais difícil que as pessoas toquem juntas. A banda de rock é um animal em extinção.

Ao longo dos anos, algumas representações de Cobain apareceram, aos poucos, na mídia. O documentário Kurt & Courtney (1998), de Nick Broomfield, apresenta o casal como uma espécie de Sid and Nancy dos anos 90, tentando, ainda, provar uma teoria da conspiração segundo a qual Courtney Love teria encomendado o assassinato do marido. About a son (2009), baseado em áudios de entrevistas ao jornalista A. J. Schnack, consegue pintar um retrato íntimo da personalidade criativa do cantor, salientando, inclusive, sua relação com a cena musical de Olympia. 

Já o livro Heavier than heaven (2001), de Charles R. Cross, que serviu de base para a animação Montage of heck (2015), faz uma colcha de retalhos de histórias escabrosas relatadas pelo próprio Cobain, de vício, pobreza extrema e abuso sexual, mas que são contestadas por amigos, como Buzz Osborne (da banda Melvins), que garante que Kurt inventava essas coisas pra se divertir assustando repórteres, em entrevistas maçantes. “Esse é o lance que ninguém entende sobre Cobain,” atestou Buzz, à época do lançamento do filme, “ele era um mestre em te sacanear.”

Se ainda paira mistério sobre a personalidade dele em vida, como tentar prever o que faria, se tivesse permanecido vivo? 

Estaria, hoje, Kurt Cobain denunciando o genocídio em Gaza? Estaria John Lennon?

Estaria Kurt lutando por uma cadeia produtiva mais sadia para a música, que não fosse dominada pelas big techs? Estaria Joe Strummer?

Estaria seu gênio musical nos surpreendendo mais uma vez, e renovando a cena musical anêmica dos dias de hoje? Estaria Chico Science?

Tudo é conjectura, na tentativa de preencher um vazio de trinta anos. Nós, da geração do Mangue Beat, conhecemos bem esse vazio.

YELLOW, designer, programador, tradutor, músico e mestre em Ciências da Linguagem

 

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