Geopolítica, geocultura, descolonização: questão de princípios
Para conseguir construir territórios horizontais de geocultura do Sul, impõe-se, consequentemente, uma certa ductilidade e pragmatismo, mais do que um ideologismo fundacional
TEXTO José Antonio González Alcantud
07 de Janeiro de 2026
Ilustração Laerte Silvino
Tanto se fala na mídia sobre geopolítica e geoestratégia, dada a supremacia grosseira do princípio territorial na política internacional contemporânea, na luta pelos bens limitados (Limited Good, que hoje são os materiais “raros” e a água), que deixamos de lado a parte simbólica, ideológica e imaginária das lutas políticas.
É verdade que, em contraposição ao ditame original de Karl Marx, que apontava a infraestrutura econômica, a luta e o controle dos recursos e suas mais-valias como base e fundamento de tudo o que é social na sociedade capitalista, o grupo de historiadores do Partido Comunista Britânico, segundo relatava Eric Hobsbawm, dedicava-se sobretudo a questões superestruturais ou ideológicas. Por exemplo, os marxistas dedicados à Idade Média britânica dedicaram mais tempo a analisar o que havia de mítico na figura de Robin Hood, o bandido generoso que roubava dos ricos para dar aos pobres, do que a analisar as infraestruturas feudais, como teria sido o desejo de Marx. Graças a essas derivações, Antonio Gramsci, privado por seus captores fascistas de toda literatura política, pôde assim, de forma premonitória, nos anos 1920, aprofundar a ideia da hegemonia cultural, deixando de lado a crítica da economia política em si mesma.
Agora, hic et nunc, como se saíssemos de uma ilusão ou miragem superestrutural, os olhos do mundo inteiro voltam-se novamente para os recursos geológicos e naturais, colocando em cima da mesa as ideias de apropriação territorial, que nas décadas anteriores estavam adormecidas. A apropriação imperialista desenfreada volta sem freios desde janeiro deste ano de 2025, com a chegada de Trump ao poder.
É verdade que as mineradoras canadenses, por exemplo, já haviam dado provas de voracidade sem limites, levando em pouco tempo, nos últimos tempos, mais ouro do México do que em toda a conquista espanhola. Toda a América sofreu e volta a sofrer com o extrativismo mineiro, assim como a África.
As teorias da pilhagem, traçadas por Eduardo Galeano em As veias abertas da América Latina, ganham mais atualidade do que nunca. Mas isso, para o bem ou para o mal, era feito graças a um sistema de clientelismo internacional, pelo qual, como as antigas mineradoras britânicas na Espanha do final do século XIX e início do século XX, pressupõe a corrupção das elites locais, concedendo-lhes certos privilégios metropolitanos em troca do acesso aos recursos autóctones. A Jamaica, cujos arquivos saqueados se encontram em uma fundação privada perto do Central Park, em Nova York, entregou seus recursos minerais aos americanos em troca de “privilégios” para suas elites. A fenomenologia é generalizada, e é inútil insistir mais nela.
A geocultura, cujo interesse inicial foi traçado por Immanuel Wallerstein quando estudou o “Sul” dos Estados Unidos, não teve tanta sorte teórica até o momento. Inicialmente, seus núcleos se deslocaram intuitivamente através do “racismo cultural”, que não apenas hierarquizava os povos por razões linguísticas e culturais, mas também controlava a produção do discurso. Era necessário que fosse a partir de determinados pontos do sistema acadêmico e midiático, estreitamente ligados, que os temas e suas análises fossem enunciados. Nos Estados Unidos antes da Guerra Mundial, a influência alemã era muito grande nos estudos humanísticos.
Franz Boas, o grande “maître à penser” da antropologia, por exemplo, era de origem germânica. A Guerra Mundial mudou o jogo e, agora, sem deixar de ser europeu o horizonte, seria a partir da França que se proferia o discurso. A Segunda Guerra Mundial reforçou essa tendência.
As redes traçadas pela espionagem intelectual norte-americana foram tecidas em torno da agência Research and Analysis (R&A), que funcionou como serviço secreto especializado para captar intelectuais entre 1942 e 1945, dependente do Office of Strategic Services (OSS), o antecessor imediato da CIA. A R&A havia apoiado, por exemplo, os refugiados marxistas da Escola de Frankfurt, proporcionando-lhes moradia e salário sob a proteção da Columbia University, de Nova York.
O próprio Max Horkheimer, líder da Escola de Frankfurt, foi contatado pela R&A, que facilitou sua atividade e a de seus seguidores do Instituto de Pesquisa Social, considerados “marxistas heterodoxos”, não sem antes verificar sua fidelidade à causa da “guerra justa” liderada pelos Estados Unidos.
No campo concreto dos fatos, Herbert Marcuse, vinculado ao ramo centro-europeu da R&A, assessorou a OSS em diversos aspectos, como a disseminação de boatos e piadas antinazistas com o objetivo de enfraquecer o moral nacional-socialista. Um desses rumores, por exemplo, consistia em espalhar a ideia de que havia uma epidemia de tuberculose entre os trabalhadores alemães e que o regime nazista a estava ocultando. Com rumores e piadas, eles também contribuíram para a desnazificação da Alemanha, após sua derrota.
Antes do Instituto de Pesquisa Social, havia sido fundada a New School of Social Research, também em Nova York, uma instituição que buscava libertar a pesquisa social das amarras acadêmicas e que viria a desempenhar um papel muito importante entre os exilados europeus durante a Segunda Guerra Mundial. Precisamente a Escola de Frankfurt, apoiada pela Universidade de Columbia, acabaria se apresentando como uma espécie de concorrência à New School. A trama entre as ciências sociais europeias e americanas era complexa, e a política de acolhimento dos Estados Unidos não foi um encontro fortuito, nem fruto do momento. Houve planejamento na aposta geocultural.
Os americanos, dando uma guinada em sua anterior germanofilia, apostaram agora, no calor da guerra, na Teoria Francesa. Acabaram dando mais peso à New School, onde foram acolhidas personalidades como o antropólogo Claude Lévi-Strauss. Na sombra também estava a École Libre des Sciences Sociales, fundada por exilados franceses, que acolhia cientistas sociais que fugiam da Paris ocupada e do regime colaboracionista de Vichy.
Para preparar o terreno para esse exílio intelectual, fundações americanas enviaram acadêmicos para explorar in loco o que e como apoiar os franceses a salvar a massa crítica pensante. Marcel Mauss foi uma figura fundamental nesse processo. O famoso navio que partiu do Porto de Marselha, carregado de intelectuais, entre eles o já citado Lévi-Strauss e André Bretón, com destino a Nova York, é célebre.
O “roubo da arte moderna” após a Guerra Mundial estava garantido, e Nova York substituiu Paris como centro do mundo artístico. Lido de outra forma, com o início da Guerra Fria, a substituição da OSS de William J. Donovan pela CIA e, finalmente, a irrupção do Comitê de Atividades Antiamericanas (House Un-American Activities Committee) de Joseph McCarthy, a guerra fria cultural abriu um espaço importante. Os Congressos pela Liberdade Cultural (The Congress for Cultural Freedom), patrocinados com dinheiro da espionagem americana, empregaram desde orquestras sinfônicas até diretores, artistas (o expressionismo abstrato está sob suspeita), cineastas (Elia Kazan é o exemplo clássico), emissoras de rádio (Radio Liberty, de Gerona), escritores anticomunistas etc. Os soviéticos fizeram o mesmo; seu carro-chefe era o compositor Dmitri D. Shostakovich.
A luta ideológica adquiriu assim um papel fundamental, e a vida acadêmica se beneficiou de investimentos que de outra forma nunca teriam sido feitos. Às vezes, os benefícios eram indiretos, como o programa espacial ou nuclear americano. Isso foi relatado pelo antropólogo Clifford Geertz, que se beneficiou de uma bolsa de estudos por ser ex-combatente na Indonésia, e foi complementado pelos casos relacionados à experimentação social da fazenda Vicos no Peru, patrocinada pela Cornell University, e de Napoleão Chagnon entre os yanomamö do Amazonas, cujas pesquisas foram generosamente financiadas pela agência de energia atômica americana.
A globalização da comunicação permitiu liberalizar o conhecimento a partir da década de 1990. Apesar das listas de universidades mais ou menos prestigiadas, que hierarquizam o pensamento em função da “renda da situação” e do prestígio discutível, o acesso imediato às redes de comunicação gerou debates transversais e, consequentemente, polos de conhecimento (pôle de la connaissance) incomuns em outros tempos. Dessa forma, surgiu a ideia fértil de que o colonialismo não era uma coisa do passado, mas ainda permanecia invisível em vários domínios.
Trata-se, entre outras coisas, do controle dos obstáculos epistêmicos, como diria Gaston Bachelard, e do trabalho necessário para removê-los, como completaria a sociologia crítica de Pierre Bourdieu. O pensamento francês, que havia chegado muito longe nas tarefas de desconstrução (Foucault, Derrida), fertilizava uma corrente, na qual havia que incluir igualmente a tradição crítica italiana (de A. Gramsci a U. Eco, passando por Ernesto de Martino) e a alemã, surgida no calor da guerra mundial (de H. Marcuse a J. Habermas). O controle do discurso, em definitiva, em nome do otimismo histórico promovido pela globalização e pela queda das fronteiras, contribuía de maneira essencial para levantar o contradiscurso aos poderes da época.
Os povos latinos, submetidos a regimes militares, ditatoriais ou populistas, demorariam muito mais tempo para se libertar de suas dependências geoculturais. O uruguaio Ángel Rama, assim como Marta Traba, sentia falta, na década de 1980, da existência de um discurso crítico coletivo na América Latina. Nesse campo, figuras como José María Arguedas ou José Carlos Mariatégui, no Peru, Óscar Fals Borda, na Colômbia, ou Darcy Ribeiro, no Brasil, apesar de sua genialidade, não ultrapassaram o âmbito “nacional”. No entanto, a ideia da transculturação ou da mulatez da cultura, como uma nova dimensão do real, impôs-se na América. Destacaram-se as obras do cubano Fernando Ortiz e do brasileiro Gilberto Freyre. Apesar de tudo isso, foi preciso esperar por Félix Guattari e Gilles Deleuze para que suas análises sobre o capitalismo e a esquizofrenia colocassem a América no centro do discurso. A autoridade do discurso continuava vindo do exterior.
A Península Ibérica, os antigos colonizadores espanhóis e portugueses, que haviam experimentado seus próprios caminhos de emancipação, possuíam um sistema acadêmico extremamente enfraquecido, em meios onde o analfabetismo continuava sendo uma praga. No início do século XX, Rafael Altamira se perguntou como era possível que o Ensino Médio que se experimentava então no Chile fosse muito melhor do que o espanhol. Américo Castro, durante a república espanhola e antes, colocou em discussão o desastre do sistema de bibliotecas na Espanha. Isso levou este último, em seu exílio, a se estabelecer nos Estados Unidos, buscando a proximidade de boas bibliotecas. Os cahiers de doléances seriam inúmeros em todos os países.
Estava claro que, por mais que a queixa pela supremacia anglo-francesa estivesse em pauta tanto na América quanto na Península Ibérica, não havia meios materiais para contrabalançá-la. Foi preciso chegar à globalização para poder acessar recursos bibliográficos, argumentativos e dialógicos, para reconstruir o campo.
Nesse domínio, as lutas emancipatórias e, em especial, a teologia política da libertação, radicada na América Latina, através de diversas ordens católicas, unida às teologias avançadas, de raiz protestante, surgidas nas universidades norte-americanas e holandesas, sobretudo, contribuíram para a reflexão política e filosófica. Nesse ponto, surgem os teóricos do anticapitalismo, de universidades como a Iberoamericana, do México, a Javeriana, de Bogotá, e muitas outras.
Arrastando os resquícios do marxismo acadêmico e da teologia da subalternidade, juntamente com os impulsos britânicos e indianos da pós-colonialidade, surgem os “descolonizadores” na década de 2010. À frente, estavam teóricos, todos provenientes do campo da teologia, como Enrique Dussel ou Boaventura Sousa Santos, que cunhariam expressões de grande impacto como “colonialidade”, “epistemicídio”, “sul global”, “classes subalternas” etc.
Do ponto de vista filosófico, e mesmo da filosofia da cultura, essas posições eram muito fracas. Não podem ser levadas a sério. Mesmo dentro da Igreja Católica, com a chegada de um papa populista como o argentino Francisco, houve tentativas de reavivar uma aliança com os outros pensamentos, de acordo com o programa do Vaticano II, ou seja, com o marxismo, o evolucionismo, o estruturalismo, a psicanálise e a antropologia.
No entanto, o movimento “descolonial” terá sucesso entre jovens pesquisadores, orientando movimentos políticos como os que surgiram após o 15 de maio na Espanha, e muito pouco entre pesquisadores seniores, mesmo que fossem anticoloniais. Esse é o meu caso. O excesso de ideologização, incluindo a linguagem, e a ausência de trabalhos empíricos sérios acabaram por levar ao descrédito. Este movimento fracassado teve pelo menos uma vantagem: deslocou os debates do “norte” para o “sul”. O que se discute hoje, sob a tutela de um campus norte-americano ou francês, depende muito mais do que antes dos “proprietários do problema” do que nunca.
Onde situar nosso discurso, então? Ao situar o polo do conhecimento no “sul”, não estamos fazendo alusão a nenhuma região específica do ponto de vista geopolítico, mas a um conceito orientador que leva a pensar nos modos de vida ou existência: ritmos naturais versus produtividade; vida cotidiana versus morte; alegria de viver versus culpa etc. Ora, essa posição se complementa com a da propriedade do problema, já que a palavra final, por razões de ordem ética, sobretudo, caberia àqueles que sofrem com ele. Além de qualquer dimensão analítica emic/etic artificial, introduz-se o império da moral.
É necessário, no entanto, um discurso desconstrutivo elaborado de maneira científica, e não ideológica, a partir do sul. Esse processo de descolonização do imaginário deve enfatizar o conhecimento local, elaborado na intimidade dos problemas. Deve prescindir de qualquer presença ou vestígio do pensamento metropolitano, amparado pela autoridade acadêmica. É, portanto, um discurso horizontal. Para alcançá-lo, é necessário um conhecimento empírico e uma análise discursiva muito sólidos, que revisem detalhadamente o passado histórico e o presente.
Ali está o campo de batalha da geocultura. Um caso interessante é o de Cuba, que, apesar das oscilações políticas, se manteve firme. Vejamos, por exemplo, o caso de Lydia Cabrera, cunhada de Fernando Ortiz, que, embora tenha se exilado nos Estados Unidos nos primeiros momentos da revolução castrista, era bem-estimada entre os intelectuais do interior de Cuba, sendo considerada até sua morte um pilar firme da cubanidade. Ao contrário do que aconteceu com a revolução argelina, que criou uma divisão entre Franz Fanon, o ideólogo por excelência, que nem era argelino nem muçulmano, e Albert Camus, que era argelino. As reações de violência verbal em torno de Camus podem ser facilmente associadas ao fanonismo oficial argelino.
Para conseguir construir territórios horizontais de geocultura do Sul, impõe-se, consequentemente, uma certa ductilidade e pragmatismo, mais do que um ideologismo fundacional. Só assim se estabelecerão lugares serenos de descolonização, livres da tutela da autoridade metropolitana, a partir dos quais os Faculty Clubs costumam lançar desafios, a favor ou contra, como se vê no caso problemático e repleto de suspeitas de Noam Chomsky, o eterno oráculo “anti-imperialista” da universidade do Pentágono, ou seja, o MIT, de Boston.
JOSÉ ANTONIO GONZÁLEZ ALCANTUD, catedrático de Antropologia Social da Universidade de Granada.