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Turnês: Grandes plateias

Com a profusão de espetáculos, o mercado passou por um processo de aperfeiçoamento técnico e tecnológico

TEXTO Fábio Lucas

01 de Janeiro de 2015

Mercado ainda tem incertezas: último show de Madonna no Brasil não lotou, devido ao alto valor dos ingressos

Mercado ainda tem incertezas: último show de Madonna no Brasil não lotou, devido ao alto valor dos ingressos

Foto Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem de "Comportamento" | ed. 169 | jan 2015]

Se o teatro padece de esvaziamento provocado,
em parte, pelo avanço das mídias e do entretenimento virtual, outros segmentos culturais encontraram nichos de mercado e conseguem reunir pequenas multidões, de modo crescente. É o caso dos shows musicais e das feiras literárias, que se multiplicaram e se firmaram no Brasil nos últimos 15 anos.

“Diria que, a partir de 2000, vivenciamos um boom, o país entrou definitivamente na rota internacional, por diversos fatores”, relata Horácio Brandão, CEO da Midiorama Comunicação e Imagem, que, ao longo das últimas décadas, trabalhou com nomes como Kiss, Placido Domingo, David Bowie, Björk, Eric Clapton, Elton John, Beyoncé, Madonna, Marisa Monte, Daniel, Ana Carolina e outras estrelas do showbiz nacional e internacional.

De acordo com ele, os artistas tiveram que excursionar mais, devido à redução das vendas físicas, fruto da pirataria e dos downloads. “As mudanças econômicas nos mercados europeu e americano, e uma certa estabilidade no Brasil, também influenciaram. Nesse período, grandes empresas do entretenimento mundial fizeram parcerias significativas com os players nacionais, e o Brasil tomou a frente, ao puxar turnês”, conta Horácio. “Passamos a comprar mais datas de shows dentro de turnês pela América do Sul do que os hermanos vizinhos, como o Chile e Argentina.”

A curva ascendente do mercado de shows, nesse caso, acompanhou o aumento da mania pelo entretenimento tecnológico. “Somos um país musical, festivo, torcedor. Não é novidade para ninguém que nossas plateias são volumosas e passionais. Tudo aqui é muito, seja o número de celulares, computadores, gente na internet, e isso faz o bolo do entretenimento crescer”, avalia Horácio Brandão, que começou a carreira como consultor de imagem para eventos, há mais de 20 anos. “Quando iniciamos, não existia internet, telefonia celular, e isso mudou a maneira de se comunicar. Além de consultoria de comunicação e imagem para o mercado, voltamos nosso olhar para o consumidor final, o fã. Hoje, lidamos com milhares de fãs através das mídias sociais, provendo conteúdo, promoções e estreitando o laço com seus ídolos”, diz Brandão, que define a posição de sua empresa, atualmente, como um hub, um canal entre mídia, produtos de entretenimento e público.

Com acesso a novas tecnologias, que põem os shows na dianteira do sonho de consumo de muita gente, os grandes artistas não dispensam o aparato que for necessário para oferecer à plateia um espetáculo de imagens e efeitos especiais. Segundo Brandão, tecnicamente falando, o “circo” dos shows evoluiu e se profissionalizou nesses 15 anos. Ganhou melhores técnicos e investimentos em som, iluminação e palcos. “Não somos mais um país que não tenha profissionais e equipamento de alto gabarito”, afirma. O que não quer dizer que não existam problemas. “Com artistas nacionais, ainda vinga a lei do contratante que dita as condições, e vemos DVDs bem-produzidos e artistas em versões menores de produção pelas feiras, rincões, festivais e casas de shows. Isso não acontece em países preparados para que cada show, em cada arena, tenha a mesma entrega e acabamento”, compara.

Porém o mercado de shows no país ainda tem o que aperfeiçoar, e está longe de ser estável. “As turbulências ocorrem toda vez que o público tem mais oferta do que procura. Eventos de grandes proporções, como as turnês de Lady Gaga e Madonna, que ocorreram quase simultaneamente em território nacional, não conseguiram alcançar o público ideal, o que foi algo inesperado”, recorda o produtor. “Incertezas de resultados como esses podem ocorrer. Tem de haver equilíbrio entre oferta e demanda, e equacionamento de uma infinidade de variáveis, como o câmbio, o patrocínio, o valor de ingressos e os serviços.”

Para ele, a principal tendência do mercado nacional de shows para os próximos anos, tomando por base a evolução do cenário no início do século 21, é justamente a maior interatividade com o público, que terá mais domínio para ditar as regras do mercado. “Eles não dependem mais da propaganda ou da mídia convencional, o público sabe o que quer. Hoje, é possível esgotar ingressos em semanas”, ressalta. Na sua opinião, promotores de shows devem deixar de olhar para plateias como “consumidores acéfalos e que se comportam como massa” – na mesma linha do que disse à Continente, em entrevista, o jornalista Paulo Roberto Pires (leia a seguir). Nesse aspecto, a compreensão dos hábitos do brasileiro é fundamental, para não mais tratar os consumidores como massas uniformes. 

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