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Virtualização da cultura

Com o impulso da globalização e das tecnologias de comunicação, o consumo cultural no Brasil cresceu no século 21, mas problemas na formação de públicos de arte persistem

TEXTO Fábio Lucas

01 de Janeiro de 2015

Foto Lalo de Almeida/Folhapress

Entre um autor e seus leitores, entre um diretor de cinema e seus espectadores, entre um músico e sua audiência, prevalecem o vínculo que une expectativas e um tipo de prazer difícil de descrever. No universo de inquietações da cultura, toda manifestação é troca. Uma espécie de mercado simbólico que se estabelece entre o artista e o público, mediado por técnicas e por profissionais em campos de facilitação da produção, da exibição e da interação que compõem a relação cultural. No Brasil dos últimos 15 anos, parte importante do que foi consumido nesse mercado – longe de só simbólico, também sujeito ao risco e ao lucro – tem experimentado novas relações. Relações remodeladas por novíssimas mediações, que conectam o indivíduo à cultura globalizada, e põem na palma da mão de cada um a possibilidade de consumir o que quiser, quando quiser: músicas, filmes, shows, livros, notícias, fofocas, artigos, palestras, cursos… Onde houver um bit de informação, há um brasileiro conectado.

Pesquisa divulgada em dezembro de 2014 pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) mostrou que o brasileiro gasta mais por mês com internet e celular do que com ingressos de teatro, cinema e shows. A diferença em cifras é pequena – de R$ 104 para R$ 96 –, mas não se pode desprezar o fato de que a posse permanente da ferramenta tecnológica de comunicação, representada pela conta mensal, é mais relevante do que o entretenimento proporcionado pelos canais tradicionais de entretenimento e cultura. O celular e a internet estão entre as maiores prioridades das despesas familiares, de acordo com a mesma pesquisa: perde para os gastos com roupas, mas fica à frente da quantia reservada a calçados. Para os brasileiros, a conectividade é quase gênero de primeira necessidade.

De acordo com o consultor de políticas públicas para o livro e a leitura, Felipe José Lindoso, o fenômeno não é brasileiro. Com isso, o acesso se tornou mais amplo. “Os livros eletrônicos, o streaming de filmes, músicas e programas de TV ampliaram dramaticamente a possibilidade de acessar conteúdos culturais e informativos. E também os que se podem classificar como sendo de diversão ou entretenimento. Não é, evidentemente, um fenômeno apenas brasileiro, e, sim, uma tendência mundial”, lembra Lindoso, que também é tradutor e editor. Entretanto, em sua visão, esse acesso continua sendo desigual. “Não apenas os aparelhos necessários para entrar no mundo digital são caros, o que por si só é uma restrição. A infraestrutura de acesso continua insuficiente, pois o programa de banda larga não foi implementando. Os custos também são caros e restritivos, pois a transmissão de dados no Brasil tem uma das tarifas mais altas do mundo.”

Para Lindoso, também ex-diretor da Câmara Brasileira do Livro (CBL), outro ponto a se destacar é a dificuldade na seleção de conteúdo. “A abundância é tamanha, que a busca do conteúdo adequado se tornou um problema. Essa abundância traz outro problema: a ilusão do conteúdo grátis. Ilusão, porque simplesmente isso não existe: há que pagar o custo da transmissão de conteúdo. Ilusão também porque a proliferação do que se pode acessar nominalmente grátis (depois de pagar o provedor e o trânsito da informação) é geralmente de péssima qualidade e, o que é pior, disfarça-se como ‘democrático’, já que qualquer um coloca online a porcaria que desejar”, critica. Gera-se então, nessa perspectiva, uma “desvalorização do que é produzido de modo sistemático e sério, tanto no âmbito da informação (a substituição da apuração e verificação do conteúdo das notícias pela suposta instantaneidade da informação proveniente do público em geral, através da chamada mídia social), como do conteúdo propriamente cultural, produzido por autores, músicos e similares que precisam de remuneração para continuar produzindo e veem seu trabalho desvalorizado, pirateado”.

O fato é que, como no resto do planeta, no Brasil do século 21, a cultura virtual ganha força, o que vem a ser evidenciado pelos produtores culturais. “Principalmente a partir dos anos 2000, com esse incremento tecnológico cada vez maior (iPads, iPods, ‘iTudo’, canais a cabo), os públicos foram diminuindo e o teatro precisou repensar como falar às plateias”, afirma o ator e pesquisador de teatro Leidson Ferraz. A virtualização da vida interferiu no hábito do público e na forma de fazer teatro, resultando em montagens intimistas, para pouca gente, às vezes feitas em domicílio. “Vejo o teatro (de arte) cada vez mais assim, ocupando pequenos espaços, de contato direto com o espectador, tocando em assuntos pessoais (inclusive de quem está em cena). Esse voltar-se para dentro é uma tendência contemporânea que deve crescer”, acredita Ferraz.


Pesquisa aponta que brasileiro gasta mais por mês com internet do que com ingressos para teatro, cinema e shows. Foto: Divulgação

Segundo a pesquisa Públicos de cultura, divulgada em 2013 pelo Sesc, 61% das pessoas entrevistadas nunca chegaram a ver uma peça de teatro. O que não surpreende quem é do meio. “Teatro é arte cara e para poucos. Por isso nossa luta pelos incentivos públicos. Com bilheteria minguada, como sobreviver? Mas é uma arte para um público pequeno”, reconhece Ferraz.

INTERAÇÃO X INTERATIVIDADE
A formação de público, de maneira geral, é um problema que persiste em todas as formas de expressão artística. Nesse prisma, a contribuição da virtualização seria negativa, ao desestimular a convivência. “A situação caótica que se instalou parece menosprezar a necessidade e a importância de locais onde aconteçam a produção, a fruição e o aperfeiçoamento da qualidade do que se ‘consome’. Bibliotecas, centros culturais e outras instituições de caráter educativo e formador são menosprezadas em nome da exacerbação do individualismo que se expressa nos aparelhinhos de consumo personalizado e fechado, como smartphones, tablets, computadores etc.”, diz Felipe Lindoso. Para ele, é preciso aprofundar a “busca de um equilíbrio entre as facilidades de acesso proporcionadas pela tecnologia e as interações comunitárias e socialmente mais produtivas que se dão nesses tipos de instituições, que muitos qualificam como antigas, mas que são locus fundamentais da interação e da convivência social”.

De acordo com a citada pesquisa Públicos de cultura, 89% dos entrevistados nunca foram a um concerto de ópera ou de música clássica em sala de espetáculo; 75% nunca estiveram em espetáculos de dança ou balé no teatro; 71% jamais visitaram exposições de pintura, escultura e outras artes em museus ou outros locais; e 70% não estiveram numa exposição de fotografia. Em compensação, 91% revelaram assistir a filmes em casa ou noutro lugar diferente do cinema; 80% costumam dançar em bailes e baladas; 78% declararam ir ao cinema; 72% têm costume de ir ao circo; e 69% assistem a um show de música em casa ou outro local diferente de casas de espetáculos.

Há espaços recém-inaugurados que contribuem para mudar esse quadro. Como a Caixa Cultural, aberta no Bairro do Recife em 2012. De frente para a Praça do Marco Zero, um dos principais pontos turísticos da capital pernambucana, a Caixa Cultural contabiliza mais de 300 mil visitantes, em 127 projetos realizados desde a inauguração. Em 2014, o espaço recebeu sete exposições de artes visuais, sete espetáculos de dança, cinco de teatro, quatro projetos de arte-educação e quatro mostras de cinema, além de 17 apresentações de música.

De acordo com o gerente em exercício, Elton Rodrigues, pelo espaço cultural passam pessoas que vão diretamente para lá e aquelas que passeiam pelo Recife Antigo, e aproveitam para conhecer os equipamentos culturais do bairro. “Isso impõe a responsabilidade de atuar na formação do público e o desafio de apresentar sempre projetos de qualidade para atrair esses visitantes, surpreendê-los e motivar sua volta em novos projetos.”

A interatividade é o apelo dos espaços surgidos no país de 2000 para cá. Entre eles, o Museu da Língua Portuguesa (2006) e o Museu do Futebol (2008), em São Paulo; o Cais do Sertão e o Paço do Frevo, ambos abertos em 2014, no Recife. Com elementos tecnológicos em destaque e o uso extensivo de vídeos e áudios, esses museus do século 21 representam uma aposta para a conquista de públicos cada vez mais acostumados a vivenciar a cultura como levam o cotidiano – recheado de apetrechos técnicos à palma da mão e com a possibilidade de fácil compartilhamento da experiência. Apenas nos três primeiros anos de funcionamento, o Museu da Língua Portuguesa recebeu em suas instalações mais de 1,6 milhão de visitantes, logo tornando-se um dos principais destinos culturais do Brasil e da América Latina. 

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