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Produção nacional e modos de fruição

TEXTO Alexandre Figueirôa

01 de Janeiro de 2015

[conteúdo vinculado à reportagem de "Comportamento" | ed. 169 | jan 2015]

A produção de filmes no Brasil cresceu por conta
de fatores que vão dos financiamentos pelos editais para o audiovisual, apoiando não só a realização de filmes, como também os eventos e publicações, até o maior acesso aos equipamentos. Por conta da modernização e barateamento proporcionado pela tecnologia digital, hoje, produzir uma obra audiovisual é um processo bem mais fácil do que há alguns anos. Quanto à distribuição, isso tem que ser observado a partir de diversos pontos.

A produção brasileira ainda se ressente de uma política mais eficaz na distribuição de suas obras nas salas de cinema, consideradas por muitos como o espaço mais nobre para se lançar um filme. O apoio estatal na distribuição é tímido, em relação aos investimentos feitos na produção, no sentido de criar mecanismos que possibilitem maior visibilidade para os filmes brasileiros, como a nova medida da Ancine de evitar que um único blockbuster ocupe quase todas as salas do país.

Os festivais e mostras são espaços de circulação que vêm crescendo, mas ainda não atingem um público mais amplo. Os filmes brasileiros que chegam aos cinemas comerciais, ficam, às vezes, sendo exibidos em pequenas salas e em horários de baixa frequentação, e não têm um esquema promocional que consiga torná-los mais vistos – exceção às produções da Globo Filmes ou a um ou outro filme que conte com uma major como distribuidora. Alguns realizadores estão buscando formas alternativas de difusão e divulgação de suas obras na internet. As mudanças de regras para os canais por assinatura podem também ser uma saída, pois mais conteúdo brasileiro deverá ser disponibilizado.

O espectador da TV aberta não tem muita opção: continua vendo “enlatados norte-americanos” e, vez ou outra, produções brasileiras da Globo Filmes. A TV Brasil abre espaço para a produção nacional, mas é um canal com audiência ainda muito pequena, embora tenha uma programação diferenciada.

Nas TVs por assinatura, predomina nos canais de cinema a produção hollywoodiana, com exceção do Cinemax, que têm uma programação com diversas nacionalidades e que inclui filmes brasileiros, os que tiveram uma boa carreira no cinema, circularam em festivais internacionais e foram bem-recebidos pela crítica. Mesmo os documentários produzidos para a TV são majoritariamente estrangeiros. O Canal Brasil é a exceção. A expectativa é de que a situação melhore com as medidas de obrigar as TVs por assinatura a terem mais horas de programas brasileiros, o que tem levado canais como a HBO a produzir séries brasileiras.

A internet e as possibilidades de se ver filmes on demand, tanto nas TVs por assinatura quanto no computador, vêm alterando os modos de recepção e criando novos hábitos de fruição de filmes, séries etc. Obviamente, essas novas possibilidades mexem com a cadeia de distribuição e criam formas de consumo do audiovisual, que levam em conta a comodidade de acesso. Contudo não acredito, por exemplo, que salas de cinema vão desaparecer, o hábito de ir ver um filme numa tela grande, desde que a projeção tenha ótima qualidade, continuará sendo uma atração. Porém, não resta dúvida de que, cada vez mais, essa hierarquização, com a sala de cinema vindo em primeiro lugar, seguida da distribuição em DVD e Blu-ray e, por último, TV e internet, está sendo rompida. As fronteiras entre os dispositivos estão cada vez mais borradas e, certamente, as novas gerações vão experimentar modos de fruição não vistos. 

ALEXANDRE FIGUEIRÔA, jornalista, professor da Unicap, doutor em Estudos Cinematográficos e Audiovisuais pela Universidade Paris 3.

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