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Religião: Deus é amor

Igrejas inclusivas, como a Comunidade Cristã Nova Esperança, têm acolhido grupos LGBT, propondo diferente interpretação dos textos bíblicos

TEXTO E FOTOS CHICO LUDERMIR

01 de Fevereiro de 2015

Reunião na CCNE

Reunião na CCNE

Foto Chico Ludermir

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 170 | fev 2015]

Era noite de domingo e Rayanne fazia recepção na porta
de uma casa no início da Avenida Caxangá, zona oeste do Recife. Calça jeans colada às pernas, blusa branca estilo bata e um colete azul por cima. Estava do lado de fora da porta de vidro de um imóvel que em nada se destacava dos vizinhos, numa das vias mais movimentadas da cidade. Obreira da Comunidade Cristã Nova Esperança, tinha como missão dar boas-vindas a todos aqueles que, como ela, não eram aceitos nas igrejas cristãs convencionais.

Foi por amor ao ex-marido, Rafael, que Rayanne entrou pela primeira vez na CCNE. Quando ele a chamou, achou o convite ridículo e riu, imaginando padres vestidos de batina rosa, coral com danças escandalosas. O estereótipo, no entanto, se desfez, logo que percebeu que lá era aceita. Simplesmente aceita. Desde então, a transexual se filiou à igreja porque, junto a outros 85 fiéis – em sua maioria gays e lésbicas –, sentiu-se acolhida. Rafael deixou de frequentar a igreja, assim como também deixou de ver Rayanne, quando teve que optar entre viver um casamento sem esconderijos ou permanecer num falso heteronormatismo. Até então, mantinha em sigilo para a família que Rayanne tinha nascido Henrique.

Enquanto a jovem recebia as pessoas na porta da igreja, na sacristia, o presbítero Hillario organizava os envelopes que seriam distribuídos aos fiéis para a doação. Mesmo sem precisar, repassava mentalmente as palavras que usaria para pedir às pessoas a contribuição para manter o templo. “Irmãos, é com a graça de Deus que conseguimos manter esta casa. Mas somos todos voluntários e precisamos pagar o aluguel e as contas da igreja. Portanto, contamos com a colaboração de todos aqueles que puderem. Amém.” Recebeu um coro de améns de volta e recolheu um a um os envelopes que ajudariam a manter viva a instituição.

Hillario está na congregação há aproximadamente dois anos e já entrou como presbítero por ter experiência – ocupara o mesmo cargo em uma igreja não inclusiva, a poucos passos da CCNE. Durante quatro anos, dedicava quase todo o seu tempo livre à organização dos eventos do templo vizinho. A maré mudou, quando ele conheceu aquele que seria seu primeiro namorado. Ciente de que sua sexualidade e o cargo de presbítero eram incompatíveis, pediu para se desfiliar de suas funções e da instituição. Conversou com a pastora e, ao contrário do que imaginava, a saída se deu de forma tranquila.

Hillario ainda tem vários amigos em sua antiga congregação e cruza com eles muitas vezes, quando vai à CCNE. A Comunidade Cristã e a vizinha Renascer convivem cordialmente e, mediante as diferenças, se respeitam. Num domingo, os cultos ocorrem simultaneamente e encontros fortuitos acontecem na entrada e na saída dos dois lugares. Em uma visão panorâmica, não se percebem diferenças físicas entre os fiéis. São homens, mulheres e crianças que vão juntos louvar o Senhor.

A tolerância mútua foi acordada após um incidente: em um desses finais de culto, os dois grupos se encontraram e, assim que passou um casal da CCNE, duas seguidoras da Renascer debocharam dele, gesticulando caricaturalmente, em rebolado e trejeitos escandalosos. O resultado foi uma retaliação imediata e uma conversa entre os pastores das duas congregações. “Todos somos cristãos e devemos nos respeitar”, argumentou Wandeberg Torres – ou apenas Berg –, da igreja inclusiva. E recebeu do pastor da Renascer um pedido de desculpas e a garantia de que essa não era uma prática estimulada por ele. “Todos somos cristãos e devemos nos respeitar”, concordou.


Rayanne pode viver sua religiosidade sem os interditos impostos pela maioria das congregações

Esse não foi o pior dos episódios de intolerância que viveu a CCNE, em seis anos de funcionamento no Recife. Assim que chegou a Pernambuco, em 2008, a Comunidade Cristã recebeu diversas ameaças e tentativas de interdição. Uma delas veio em forma de um cartaz colado em sua porta: “Deus não ama vocês”. Quando a sede ainda era no Cordeiro, chegaram a ouvir ofensas de diversas pessoas. “Acham que vão para o céu?”, resmungou uma senhora de meia-idade, enquanto puxava o neto para longe. “Jesus não está aí”, ouviu-se outra vez, vindo de um rapaz que gritou de dentro de um carro.

“O trabalho é gradual”, explica Berg, que, além de pastor, é também aluno de Teologia na Faculdade Metodista. “Começamos muito pequenos, na casa de um pastor em São Paulo, e hoje temos sedes nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste e células em Londres, Buenos Aires e Pisa, na Itália.”

O conceito de igreja inclusiva surgiu nos Estados Unidos, na década de 1960, no contexto das revoluções feminista e sexual. Tido como criador desse tipo de congregação, o reverendo americano advindo da Igreja Apostólica Romana, Troy Perry, incluiu pessoas que até então não eram aceitas em sua congregação: mulheres divorciadas, adúlteras, negros e homossexuais. A Comunidade Metropolitana (ICM) nasceu em 1968, na cidade de Los Angeles, e serviu como propulsora para o nascimento de outras instituições de igual natureza no mundo ocidental.

Perry e seus seguidores buscaram na Bíblia a justificativa para a aceitação irrestrita. “Deus é amor” (João 4.16) inicia qualquer explicação da inclusão dos homossexuais no cristianismo. Outras passagens compõem o vasto repertório dessa tese. “Porque Deus tanto amou o mundo, que deu o seu Filho Unigênito para que todo que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). Sendo assim, o fato de serem homossexuais é irrelevante, diante de uma premissa maior, que seria a própria crença nesse Deus. No mesmo caminho indutivo, recorrem à citação do livro dos Romanos 8.1 – “Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” – e Atos 10.34, que diz: “Então Pedro, tomando a palavra, disse: na verdade reconheço que Deus não faz acepção de pessoas; mas que lhe é aceitável aquele que, em qualquer nação, o teme e pratica o que é justo”.

No caminho inverso, rebatem acusações das igrejas convencionais sobre Sodoma e Gomorra, além de versículos do Levítico. “Não te deitarás com um homem como se deita com uma mulher. Isso é abominável” (Levítico 18.22). “De fato, está escrito na Bíblia. Mas ler qualquer afirmação fora de contexto é pretexto”, argumenta o pastor Berg, completando que é preciso situar historicamente o texto sagrado. “Existem outras 629 regras no mesmo livro que incluem a proibição de comer mariscos e crustáceos, de raspar a barba, de tocar em carne de porco e de tocar (não apenas ter relação sexual) em qualquer mulher que esteja no período menstrual.”

RECONCILIAÇÃO
No Brasil, o conceito inclusivo só chegou em 1982, quando, em São Paulo, teve início a ICM. As congregações, segundo o sociólogo Carlos Lacerda, em sua dissertação de mestrado pela Universidade Federal de Alagoas, já somam mais de 40 denominações diferentes. No Recife, a CCNE é a única em atuação.


Hillario também é frequentador da CCNE

Também surgida na capital paulista, em 2005, a Comunidade Cristã Nova Esperança foi criada, da mesma forma que a ICM, por um religioso vindo de uma congregação tradicional. Divorciado de um casamento heterossexual e pai de dois filhos, Justino Luiz começou recebendo os fiéis em seu próprio apartamento, até que, com mais 40 frequentadores, o espaço se tornou pequeno.

O nome, segundo o fundador, vem de um trecho do livro de Romanos 12.12: “Alegrai-vos na Esperança, sede paciente na tribulação e perseverai em oração”. Berg complementa: “Aqui temos alegria, temos comunhão, aqui não há hipocrisia, é o lugar que o próprio Deus separou para nos reconciliar com Ele mesmo”.

Para o pastor Berg, a descoberta da igreja inclusiva foi uma reconciliação sua com Deus. Como a maioria dos outros pastores e fiéis da CCNE, ele também tinha vivido experiências nas congregações convencionais e entrado em conflito com seus desejos e escolhas.

Aos 14 anos, começou a namorar uma companheira da igreja batista. Casou-se e manteve o relacionamento até os 22 anos, fazendo todo tipo de concessão à sua sexualidade. Quando, aos oito meses de casado, expôs na igreja que tinha desejo por outros homens, foi recebido de braços abertos para a libertação e o exorcismo daquele demônio que, segundo seus companheiros de congregação, estaria no seu corpo. “Ficava no meio de uma roda e os pastores liam a Bíblia, enquanto faziam imposição de mãos sobre a minha cabeça. Em nome de Cristo pediam que aquele espírito saísse do meu corpo” – descreve Berg o seu processo de sofrimento intenso. Chegou a fazer jejuns, sete orações diárias por sete semanas. Durante anos, acreditou que estava possesso, frustrando seus sonhos de felicidade.

Mas, apesar de os pastores prometerem, a suposta libertação não acontecia. Ano após ano, durante cinco anos e meio, o desejo pelo mesmo sexo não desaparecia ou diminuía. Até que se pôs um dilema: ou o nome de Cristo não tinha poder – tese em que jamais acreditou – ou não havia demônio nenhum para ser libertado. Qualquer uma das respostas revelaria uma incompatibilidade entre Berg e sua antiga congregação.

“Fizeram-me acreditar que aquilo que eu estava vivendo era algo demoníaco. Quando cheguei à fase adulta, pude perceber que não era nada de demônio, era a minha essência que eu precisava e queria viver e não esconder mais de ninguém.” Sentenciou o pastor da batista: “Não podemos manter uma pessoa homossexual. Não é de Deus”.


Como em outros templos pentecostais, os fiéis reúnem-se semanalmente para adorações

Ele passou alguns anos longe dos templos. Circulou por bares e boates, achando que poderia vir daí sua aceitação. Não veio. Nunca conseguiu beijar alguém em uma balada, e voltava para casa sentindo falta do seu espaço religioso de origem. Conheceu a CCNE assim que ela estabeleceu sede no Recife, em maio de 2008. Emocionou-se ao entrar em contato com a cartilha explicativa da igreja. Pensou que, enfim, encontrara seu Deus, o inclusivo. Desde 2009, é líder da congregação em Pernambuco. Trabalha como pastor em dois cultos semanais, sem receber salário. Assim como ele, todos os obreiros são voluntários.

O RITUAL
Rayanne, que recebeu os fiéis na porta da Igreja, e o presbítero Hillario só conseguiram se acomodar quando Berg já ocupava o púlpito. Sentaram-se lado a lado no culto daquele domingo. Na fileira de três cadeiras, a última era ocupada por uma jovem senhora loura de óculos. “Quando eu tinha 12 anos”, começou Berg, “Jesus me curou de uma enfermidade no coração, decorrente da febre reumática. Parei de tomar os remédios e minha fé me salvou, não foi mãe?”, perguntou, olhando do altar para a mulher loura. Obteve um sim e um sorriso como confirmação. “Se Deus me curou dessa doença, por que ele não me curaria da homossexualidade, se doença fosse?”, questionou, retoricamente.

Afora alguns poucos momentos de referência a temas especificamente do mundo LGBT, o resto do culto é seguido exatamente como ocorre em qualquer igreja pentecostal. No coral, pessoas de vozes afinadas cantando os hinos de louvor e uma solista de talento. Diversas passagens bíblicas do Antigo Testamento e um fervor que contagiava as mais de 60 pessoas. Na plateia, gritos de “Glória a Deus”, “Amém” e “Aleluia”, além de alguns dizeres intraduzíveis, no que se chama de “línguas” – palavras faladas em uma espécie de transe de contato direto com Deus, próprio das igrejas pentecostais, que acreditam nos dons espirituais de cura e em profecias.

Questionado sobre o ritual que reproduz literalmente a liturgia das mesmas igrejas que oprimem e renegam os homossexuais, Berg retruca com segurança. “Não é a liturgia que oprime, mas, sim, a forma como se interpreta a palavra de Deus. A gente só se sente dentro de um culto, se tiver liturgia. Se não houver uma regra de sequência, não.” O ritual inclui uma oração inicial e momentos de louvor, palavra e ofertório.

Há cerca de um ano, a CCNE tomou para si a função de militância e incluiu momentos para reflexão através de textos e, especialmente, vídeos ligados à temática LGBT. Naquele domingo, os fiéis assistiram a um vídeo em que o médico Drauzio Varella explicava a homossexualidade, um depoimento de um gay para a novela Amor à vida (Rede Globo) e uma reportagem sobre a transexual Rafaela.

“Trabalhamos uma cartilha porque as pessoas chegam aqui ainda muito oprimidas. Somos uma igreja cristã, sim. Mas não só isso. Somos uma igreja cristã homossexual.” Essa afirmação fica evidente durante o culto. O pastor não tem ressalvas para usar até mesmo um linguajar queer, que se aproxima do mundo real de muitos gays, lésbicas e trans. Mas isso não significa que haja permissividade, como já foi veiculado na imprensa – o que causou indignação na comunidade. “O que não pode?”, pergunta o pastor. “Não pode não amar a Deus, não respeitar as diferenças. Não pode não amar o próximo e nem ferir ou denegrir a imagem de outra pessoa.”

AVANÇOS EM OUTRAS RELIGIÕES
O Papa Francisco fez os católicos voltarem a falar do tema da intolerância sexual, tão evitado. Depois do papado conservador de Bento XVI, em seu primeiro ano no cargo, Francisco não fugiu do tema da sexualidade. Na viagem de volta de sua visita ao Rio de Janeiro, em julho de 2013, onde foi realizada a 28ª Jornada Mundial da Juventude, o papa concedeu a primeira entrevista coletiva a jornalistas de veículos de todo o mundo. “Se uma pessoa é homossexual e procura Deus e a boa vontade divina, quem sou eu para julgá-la? Os homossexuais não devem ser marginalizados por causa de o serem, mas devem ser integrados à sociedade”, afirmou.

Em setembro do mesmo ano, Francisco voltou a surpreender, quando se declarou outra vez aberto aos homossexuais, assim como aos divorciados e às mulheres que realizaram aborto. Em entrevista à revista italiana La Civiltá Cattolica, declarou que “a religião tem o direito de exprimir sua opinião própria a serviço das pessoas, mas Deus, na criação, nos fez livres: a ingerência espiritual na vida das pessoas não é possível”.

Segundo Frei Betto, ativista e assessor de movimentos sociais, “nunca antes na história da Igreja um papa ousou colocar a sexualidade no centro do debate eclesial”. Em seu comentário semanal na Rádio Brasil Atual, o sacerdote afirmou: “quem há muito transita na esfera eclesiástica sabe que é significativo o número de gays entre seminaristas, padres e bispos. Por que eles não gozam, no seio da Igreja, do mesmo direito dos heterossexuais de se assumirem como tal? Será que é justo que permaneçam ‘no armário’, vitimizados pela Igreja e supostamente por Deus, por uma culpa que não têm?”.

Frei Betto sugere a necessidade de se reler o evangelho pela ótica homossexual, assim como foi feito, nos últimos anos, pelo prisma feminino. Ele ressalta que a unidade na diversidade é uma característica da igreja católica e diz que “basta lembrar que são quatro os evangelhos, e não um só, ou seja, quatro enfoques distintos sobre o mesmo Jesus. A igreja católica não pode de maneira alguma continuar cúmplice desse mundo homofóbico, dessas tendências violentas de discriminação daqueles que não seguem uma orientação heterossexual”.

CANDOMBLÉ
Diferentemente das religiões cristãs, os rituais de matriz africana têm uma tradição de aceitação das diferentes orientações sexuais e identidades de gênero. Como uma religião que não orienta sua prática no sentido do “pecado”, o candomblé tampouco mantém leis de discriminação de homossexuais e transgêneros.

“Se comparado a outras crenças, o candomblé tem se mostrado mais aberto aos homossexuais, permitindolhes ocupar todos os postos previstos na hierarquia ritual”, explica Milton Silva dos Santos, no artigo Sexo, gênero e homossexualidade, desdobramento de sua dissertação de mestrado no Departamento de Antropologia da PUC–RJ.

Não é possível provar, no entanto, que as devoções afrobrasileiras são as mais procuradas pelos homossexuais. Pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, com participantes da Parada do Orgulho Gay de São Paulo, em 2005, revela que, do total de 303 entrevistados (apenas gays e lésbicas), 36% se disseram católicos; 19% espíritas; 18% sem religião; 4% evangélicos pentecostais. Juntos, candomblé, umbanda e “outras devoções afro-brasileiras” totalizaram 6% dos participantes. 

CHICO LUDERMIR, jornalista e fotógrafo.

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