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Relatos: Eles só queriam ser elas

TEXTO E FOTOS CHICO LUDERMIR

01 de Fevereiro de 2015

Brenda Bazante

Brenda Bazante

Foto Chico Ludermir

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 170 | fev 2015]

Segundo relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB)
de 2013-2014, o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais do mundo. Considerando a violência nos assassinatos, a pesquisa não deixa dúvidas de que as mortes estão relacionadas à intolerância e transfobia. O preconceito revela uma aversão àqueles com os quais não nos identificamos. “Eles acham que somos coisas. Que não sentimos dor. Que se bater não sangra, não mata e nem faz falta”, relata Brenda Bazante, em entrevista para o livro A história incompleta de Brenda e de outras mulheres, que Chico Ludermir pretende lançar neste semestre, com a história de 10 mulheres. O fotógrafo e jornalista preparou para a Continente uma síntese do que ouviu no encontro com essas pessoas. 

BRENDA (foto acima)
Atracaram o navio da marinha para um serviço de sondagem na entrada do Porto de Aracaju. A embarcação enorme chamava a atenção na cidade e sua chegada tinha sido até noticiada no jornal local. Dia de domingo era quando o navio ficava aberto para visitação. Dentre diversos visitantes, um casal e uma filha, que rodaram por todo o navio e fixaram os olhos especialmente no marinheiro Bazante. Aproximaram-se do capitão do navio para tirar algumas dúvidas.

– É que minha filha tem muita vontade de entrar na marinha. Ela tem 16 anos e está interessada em servir no navio com vocês.

– Sua filha será muito bem-vinda em terra, mas acontece que em navios só servem os homens, respondeu o capitão Gomes.

– Ah é? – perguntou a mãe, quase que indignada.

– E como eu vi uma marinheira de fuzil ali atrás? – completou a filha.

O capitão empalideceu. E tentou explicar, com uma gagueira, o que nem sabia nominar. Brenda, que não estava na hora, ouviu o relato do capitão com todo o orgulho que podia. Tinha sido confundida com uma mulher. O que, para ela, era sinal de que estava no caminho certo. Para o capitão, era a prova que faltava para determinar a saída imediata de Brenda do navio e, posteriormente, da Marinha Brasileira.

FRANCINE



“Se vingar, vai carregar meu nome pelo resto da vida”, disse o pai, assim que viu seu filho recém-nascido. Francisco vingou. Mas carregou o nome do pai apenas por 18 anos. A partir daí, só apareceu nos documentos e assinaturas e, mesmo assim, a contragosto. Não combinava mais com a imagem afeminada pelos hormônios que Francine injetava.“Não quero viado em casa!”, disse seu pai. “Filho viado eu não crio!” E não adiantaram os apelos. A partir desse dia, aos 13 anos, deixou de ser filho. Para visitar a família, só na ausência do pai. Nem na mesma calçada andaram os Franciscos, durante 20 anos.

LUCIANA



Luciana estava presa por “vadiagem”. Prestes a ser liberada, sentiu uma mão que a forçava. Procurava o zíper de sua calça com brutalidade, virava-lhe de costas, e obrigava que sua mão tocasse o que não gostaria. Resistiu, gritou, mas não adiantou. Apelou para um recurso que já se tornara hábito entre as travestis em desespero. Buscou o primeiro objeto cortante que encontrou e, com a gilete que recebera para se barbear, cortou-se na altura dos pulsos. Se alguém tinha que machucá-la, que fosse ela mesma. Com o sangue pulsando para fora, livrou-se. Salva, mas não sã.

MARIA CLARA



As primeiras lembranças da vida estão povoadas de nãos: era interditado brincar com as meninas, constrangedor usar o banheiro dos meninos, e até a cor de roupa azul o incomodava. Tinha que trabalhar, ter namorada, jogar bola. Quando os irmãos iam para um lado e as irmãs para o outro, Roberval sentia que seu lado era nenhum. Por tudo isso, escolhia ficar só. Brincava de ser mulher em quadrilhas e no teatro. Mas cansou de brincar e foi para João Pessoa, longe de tudo – do que era e não queria ser. Aos 25 anos, Roberval implodiu. Maria Clara escolheu seu próprio nome. Talvez pelo hábito, um paradoxo com sua pele.

MARIANA



Era tardinha, e Dinho brincava de pai e mãe com um colega de bairro. Como sempre, assumia a figura materna. Na fantasia, cuidava de suas irmãs como uma mãe e beijava o coleguinha como marido. Como no Alto da Brasileira nada se esconde, antes anoitecer, seu Edson já estava sabendo que “Dinho tava brincando de viado”. Dinho também já sabia o que estava por vir. Quando chegou em casa, seu pai o esperava com um cipó arrancado do pé de araçá. Sem dizer nada além de xingamentos, bateu-lhe até deixá-lo em brasa. Em seguida, levou o filho para bacia de água de sal. Os gritos se ouviram em todo o bairro. Dinho só tinha seis anos.

DEUSA



Deusa tem quase 17 anos, reclama das espinhas e do tamanho do corpo, que acha desproporcional. No dia da entrevista, descreve o que andou fazendo: saiu do curso profissionalizante no começo da noite, comprou um litro de vinho Carreteiro, bebeu todo para se preparar; encontrou-se com um cliente, fez sexo em um motel, comeu, cochilou, acordou, fez sexo outra vez. Recebeu R$ 50. Voltou para casa. Comprou outro litro de vinho, dessa vez para se limpar. À noite, quando sai sem destino, anda com medo de reencontrar algum cliente que já roubou. Mas o medo não lhe paralisa. Morrer para ela é só mais uma experiência de transformação.

WANESSA



De um ângulo, nada do que vive Wanessa está subordinado à sua escolha de virar mulher. Não conhecer o pai e não ter escolaridade não são singularidades de ninguém. Querer ser feliz e ter um amor são desejos unânimes. Mas existe, sim, outro ângulo que segrega. Ela se defronta com a dureza de gente que não reconhece o universal e que exclui, violenta, mata. Um terceiro ângulo mostra Wanessa única. Só ela tem aquele tom de vermelho no cabelo, só ela tem aquele sorriso estridente, só Wanessa fez tantas mudanças de casa e de corpo, que nos lembram o quanto é necessário mudarmos também.

LUANA



Não foi fácil para Altair amar Luana, depois de ter amado oito anos Andinho. Sentia como se formassem um novo casal. E eram. Não mais dois homens. Um homem e uma mulher. Apesar do apoio e do companheirismo, as mudanças físicas de Luana trouxeram novidades. Se já era uma pessoa extremamente sensível, os hormônios, somados a toda pressão interna de renascer aos 30, fizeram dela uma mulher numa constante tensão pré-menstrual. Chorava diariamente, fosse vendo a novela, em discussões bobas, por nada, por tudo. Só haviam se passado três meses desde a retomada da hormonização. Mas ela já sabia que, dentre as outras tantas intensas mudanças, uma das mais importantes era como ficaria o futuro do seu casamento. Altair nunca havia se relacionado com nenhuma mulher, nem trans, nem cis. Deixaram de gozar juntos porque Luana demorava mais. O centro do sexo não era mais o pênis dela, que até tinha mudado de forma e tamanho. Ao ser penetrada, sentia orgasmos mesmo sem ejaculação. “Ele dizia que me amava, mas me amava enquanto menino. Quando fazia sexo comigo, parecia que estava com nojo.”

CHRISTIANE FALCÃO



“Você é o amor da minha vida, mas nunca vai poder me dar um filho”, dizia Maílson em tom agridoce. Mas, incrivelmente, a barriga cresceu. Dos peitos dela saía leite. Chris estava grávida! E ficou plena por saber que por dentro existia uma mulher completa. Para ter certeza, investigou, viu que não era parasita, vírus ou bactéria. Era, sim, gravidez. Psicológica. A mulher interna era tão forte, que proporcionou uma das maiores alegrias de sua vida, por poucas semanas. Das maiores tristezas por quase toda a vida. O parto não teve dor física, só emocional. “Nenhuma travesti é feliz”, confidencia, com sofrimento que se sente no ar. “Sempre viveremos em conflito. Sempre me faltará alguma coisa.”

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