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Coque: Educação afetiva

Orquestra Criança Cidadã contribui para que jovens de comunidade carente cresçam com referências musicais capazes de reverter-se também em profissionalização

TEXTO LUCIANA VERAS
FOTO LÉO CALDAS

01 de Maio de 2013

Atualmente, a orquestra recebe 160 jovens do bairro, entre 6 e 19 anos

Atualmente, a orquestra recebe 160 jovens do bairro, entre 6 e 19 anos

Foto Léo Caldas

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 149 | maio 2013]

"Sabia que Brad Pitt vai ser o ator principal do filme?”
, pergunta Ítalo Alves, 12, ao interlocutor que compartilha a paixão pelo seriado norte-americano The walking dead, exibido no Brasil pela Rede Band. “Legal”, responde Luan Lucena de Souza, 9, meio-irmão de Ítalo. O diálogo traduz o vínculo fraternal forjado por produtos culturais consumidos em massa, realidade incontestável nos dias de hoje. Contudo, o que melhor define o elo entre os dois moradores do Coque, bairro pobre na região central do Recife, não é o mesmo pai, Gleikson Souza, tampouco a afeição aos caçadores de zumbis: é o aprendizado musical e a participação na Orquestra Criança Cidadã.

A OCC nasceu em 2005, quando um juiz de Direito, que nunca tocou instrumento algum, esboçou um projeto para formar músicos e cidadãos. “O papel era muito claro e a finalidade era promover a inclusão social por meio da música”, relembra João José Targino, titular da 9ª Vara de Família e Registro Civil da Capital. “Quando tive a ideia, procurei o maestro Cussy de Almeida e as bases musicais foram introduzidas por ele. Decidimos que iríamos trabalhar com 100 garotos, todos alunos da rede pública do Coque”, completa Targino, criador e coordenador da orquestra.

O clã das cordas friccionadas, pois, foi o grupo selecionado por Cussy de Almeida (1936-2010) para iniciar, já em 2006, uma educação musical, afetiva e social. Desde então, o modus operandi da OCC, gerida pela Associação Criança Cidadã, presidida pelo desembargador Nildo Nery, não mudou.

Há 160 alunos, entre os 6 e os 19 anos, que recebem três refeições, atendimento médico e odontológico, aulas de informática, idiomas e reforço escolar na sede da orquestra, no 7º Depósito de Suprimentos do Exército Brasileiro, no Cabanga, vizinho ao Coque. No início, havia um recrutamento nas escolas. Agora, as crianças são levadas por mães, tias e avós. O atual maestro é o argentino Gustavo de Paco, auxiliado, no dia a dia, por professores e regentes como Aline Lima e Márcio Pereira.

Se, por um lado, é evidente que os benefícios oferecidos pela OCC já seriam atrativos suficientes para famílias interessadas num cotidiano menos árido para suas crianças, por outro, é inegável que a iniciativa difundiu as composições eruditas e a possibilidade de aprendê-las e reproduzi-las em um ambiente no qual a percepção sobre o assunto era ínfima. “Hoje, eles tocam um grande repertório, mas tudo surgiu com a música clássica. Os estudantes vinham sem saber de nada”, diz o juiz João Targino. Entre os alunos que ensaiavam, numa recente manhã de sábado, a maioria nunca tinha ouvido falar em música erudita ou nos instrumentos em que se exercitam antes.

Isaías Tavares, 20, seis anos de OCC. “Estou aqui desde o começo”, sintetiza o violista, que em junho de 2011 embarcou para a Áustria, onde teve experiências diversas, como estudar na mesma escola de Mozart, em Salzburgo. Ao ser convidado para o teste, ele pensou que optaria pela guitarra. “Achava que era para tocar guitarra, baixo, bateria. Aí veio o luthier com um monte de instrumentos na mão. ‘Que danado é isso?’”, falei. E ele disse: “Venha escolher o que você quer tocar”, recorda. Isaías elegeu uma viola. “Música clássica? Sabia lá o que era isso!”, admite. Thialyson Phelipe, 16, optou pelo violino, mesmo sem ter visto um antes e acreditando que música clássica era “coisa de outro planeta”. Os dois, juntos com Yuri Tavares, 16, apresentam-se na OCC e também como um trio de cordas, em eventos. Orlando Araújo, 16, queria um violino também, mas optou pelo contrabaixo; Gabriel David, 16, pioneiro como Isaías, ficou com o violoncelo.

FRATERNAL
Todos são tratados com afeto e rigor pelos professores, inclusive o pequeno Luan, que, embora mais novo, circula pelos ensaios com a mesma desenvoltura. Sua história é semelhante a de vários outros membros das orquestras. “Um dia, eu estava em casa e vi os meninos passando com o estojo embaixo do braço. ‘Mainha, eu quero ir’, pedi. E ela me trouxe”, conta.

Encantou-se pelo som do violino. Hoje, estuda na OCC e pratica em casa, com as partituras próprias ou em versão online. No ensaio, presta atenção no Concerto para 2 violinos em lá menor, do qual será um dos solistas. “Não tira o arco da corda, Luan”, alerta o mestre Márcio Pereira. O menino atende e capricha na sequência de notas. Do lado de fora, sua mãe, Lúcia Maria Lucena manda chamar Luáurea, a filha mais velha, aluna de piano e outro orgulho seu.

Seu marido introduziu a música no cotidiano familiar. Gleikson preparou Luáurea para entrar no CPM. A pianista, hoje com 13 anos, chegou à instituição com sete verões vividos. “Me acharam muito pequena. Meu pai disse: ‘Botem qualquer peça aí que ela toca’. E eu toquei e passei”, narra Luáurea.

“A orquestra não tem um professor de piano, e, sim, de teclado”, diz Lúcia. A OCC a aceitou com o intuito de ajudar a menina, que não tinha um piano para treinar em casa. Ela praticava. E só. “Até que o maestro disse que iria me aproveitar mais, que iria procurar mais concertos com piano. Hoje, sou a pianista da orquestra”, orgulha-se.

Faz três anos, portanto, que ela e Luan vão à escola, seguem para a orquestra e ensaiam em casa. O meio-irmão Ítalo está nos dois meses de testes para ingressar na primeira turma de sopro da OCC. “Queria tocar cello, mas a prioridade são os de sopro, agora. Escolhi a trompa, mas ainda estou na aula de teoria e na flauta doce, que é por onde todo novato começa”, diz.

Ítalo não mora com os irmãos por parte de pai. Quis entrar, após observar que a vida deles rumava para outro patamar. Inúmeros alunos também foram parar ali porque enxergaram no outro uma possibilidade concreta de transformação. “É uma questão de status. Às vezes, dois garotos moram em casas vizinhas, mas só um deles pega um avião e toca para o presidente da República. Isso mexe”, reconhece o criador e coordenador da OCC, João Targino. A música erudita, associada a uma cultura “superior”, cumpre papel de abrir perspectivas, não para dificultar o acesso a esse prestígio almejado por centenas de jovens do Coque, mas para ampliá-lo – contribuindo para que essa geração cresça com referências musicais diversificadas. A atuação da OCC, patrocinada pela Caixa e pela Fiepe, sai por R$ 160 mil mensais. “Cada aluno vale R$ 1 mil por mês. Um preso em uma penitenciária federal custa R$ 4,8 mil. Essa reflexão é importante, porque esses garotos nunca fizeram dano à sociedade”, compara Targino. A contabilidade reflete a carência de aportes financeiros para se manter a iniciativa e a realidade com que os jovens músicos já se deparam. A diferença é que, hoje, eles podem se dissociar das estatísticas de violência e miséria atreladas ao bairro onde vivem e, instrumentos de cordas, sopros e percussão a tiracolo, vislumbrar um futuro mais suave e sem fronteiras entre erudito e popular. 

LUCIANA VERAS, jornalista, produtora e especialista em Estudos Cinematográficos.
LÉO CALDAS, fotógrafo, com trabalho publicado em vários jornais e revistas do país.

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