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Formação erudita vai às pequenas cidades

Com a Orquestra Sinfônica Jovem e programas de itinerância, o Conservatório Pernambucano de Música tem preparado integrantes para se apresentar onde tal programação é escassa

TEXTO CARLOS EDUARDO AMARAL
FOTOS LÉO CALDAS
COLABORAÇÃO LUCIANA VERAS

01 de Maio de 2013

Marcelo Ribeiro, de Limoeiro, pratica o cello e sonha integrar uma grande orquestra

Marcelo Ribeiro, de Limoeiro, pratica o cello e sonha integrar uma grande orquestra

Foto Léo Caldas

"Boa tarde, maestro!" A saudação vinda daquele desconhecido que acabara de frear sua bicicleta para cumprimentá-lo, em outras circunstâncias, seria recebida com naturalidade, mas foi uma surpresa para o maestro José Renato Accioly. Aquele senhor simples reconheceu o regente porque havia ido ao concerto da Orquestra Sinfônica Jovem, um ano antes. Para municípios de vida pacata, a presença de um grupo numeroso de músicos, e principalmente quando ocorrida na igreja matriz, tem a repercussão de um grande evento.

Esse é apenas um episódio que demonstra o quanto a OSJ do Conservatório Pernambucano de Música tem-se tornado popular no interior desde 2006, quando começou a turnê Circuito Sinfônico, patrocinada pela Chesf – além do projeto Pernambuco Sinfônico, em 2011, financiado pela Petrobras. Nessas viagens, a permanência do grupo em cada localidade quase nunca chega a 24 horas: pegam a estrada pela manhã, descansam no início da tarde, realizam o concerto-aula à tardinha e apresentam-se com casa cheia à noite. No entanto, a vivência é intensa e nada monótona para os integrantes da caravana.

Os concertos da OSJ já tiveram lugar em 42 municípios diferentes, do Ceará a Sergipe, incluindo os da turnê Pernambuco Sinfônico. Já nos últimos quatro anos, o Circuito Sinfônico concentrou-se exclusivamente em Pernambuco. “A gente escolhe as cidades de acordo com as atividades musicais que elas desenvolvem e também pedimos o auxílio das Gerências Regionais de Educação (Geres) para garantir a presença de alunos das escolas locais nos concertos-aula”, explica José Renato.

Dada a quantidade de prefeitos que passaram a procurar o Conservatório Pernambucano de Música ou a Secretaria de Educação para pedir a presença da OSJ, o critério de seleção de lugares a se visitar precisou ser definido cada vez mais por aqueles relativos à educação musical. São priorizadas as localidades onde há projetos musicais em andamento ou encaminhados. Um exemplo disso é Carnaíba, no Sertão do Pajeú, que, após a primeira passagem da orquestra, em 2008, construiu um cineteatro e um conservatório, e recebeu a visita da OSJ por mais duas vezes.

Tendo em vista a preparação dos jovens músicos para a atuação em orquestras profissionais, a base do repertório da OSJ assenta-se em peças do repertório standard, isto é, clássico-romântico. Um dos concursos profissionais recentes abertos no país, por exemplo, o da Filarmônica de Goiás, exigiu conhecimento das partituras da Sinfonia italiana de Mendelssohn e da Quinta de Beethoven, duas obras já tocadas pela Orquestra Sinfônica Jovem do Conservatório. “A vivência de uma temporada inteira é diferente da de um festival, que dura poucos dias”, acrescenta o maestro José Renato, chamando a atenção para o fato de que, no Circuito Sinfônico, o repertório escolhido é trabalhado ao longo de um semestre inteiro.


Os cerca de 70 músicos que formam a OSJ ensaiam peças do programa

E nenhum músico tem vaga garantida na OSJ: testes para todas as cadeiras são abertos a cada início de ano, o que obriga os veteranos a se reciclarem para manter seus postos. Como orquestra juvenil, o Conservatório Pernambucano de Música estipula que os concorrentes devam ter entre 14 e 28 anos, sendo abertas exceções apenas para naipes em que haja carência de instrumentistas nessa faixa etária, como ocorre para contrabaixos, trombones, oboés e fagotes. O diretor do CPM, Sidor Hulak, comenta que essas exceções em relação aos limites de idade se devem mesmo à natureza dos instrumentos.

EXPERIÊNCIA
A violinista Rafaela Fonsêca, que toca no grupo desde 2004, elogia a orientação que adquiriu ao longo dos anos nos aspectos técnico e estético; o espaço aberto aos colegas, para que possam atuar como solistas; a citada reavaliação anual, aplicada sem distinção a novatos e antigos; e a remuneração recebida pelas turnês, que ajuda na manutenção dos instrumentos. Por outro lado, ela reconhece que as viagens ao interior costumam ser cansativas: “Dorme-se muito tarde e acorda-se muito cedo. São várias horas de estrada e de ensaios. A turnê de 2012 foi bem melhor em relação a isso, comparada às temporadas anteriores. Tivemos mais tempo de descanso”.

Paulo Arruda, do naipe dos contrabaixos, dimensiona o esforço para se corresponder às exigências dos programas: “Sempre é um desafio para nós, músicos, tocar alguns trechos de obras do repertório fundamental, trechos que em breve deveremos enfrentar num teste profissional. Lembro muito bem que, no meu primeiro ano na orquestra, interpretamos a Quinta de Beethoven, que tem algumas passagens bastante complexas. Não consegui tocar toda a obra no primeiro ano, apesar de ter estudado bastante, e posso dizer sinceramente que, a princípio, fiquei frustrado com isso, mas entendi que os problemas de repertório devem ser resolvidos aos poucos, vão amadurecendo com o tempo”.

Quanto à parte logística, o CPM está buscando uma solução para o local de ensaios da OSJ, já que no auditório da instituição mal cabem os próprios músicos. Outro aspecto em revisão pela diretoria é a prestação de remuneração contínua aos membros da orquestra, para que eles continuem ligados ao grupo. “Na Orquestra Sinfônica Jovem hoje, temos diretamente cinco profissionais envolvidos: maestro, assistente de maestro, ensaiador, dois coordenadores e o arquivista. Na orquestra, são 70 músicos, desse montante, cerca de 20% são profissionais atuantes”, informa Hulak.

A violinista Rafaela Fonsêca descreve a importância da preocupação com a remuneração: “Começamos as atividades anuais por volta de março. A orquestra passa bastante tempo ensaiando, sem fornecer cachês. Isso faz com que estudantes de classes sociais mais baixas encontrem dificuldades para pagar passagens e comparecer aos ensaios. Alguns chegam até a desistir. Como apenas as apresentações são pagas, não os ensaios, os cachês começam a chegar por volta do mês de agosto, durante o Circuito Sinfônico, e daí então a situação financeira acaba se tornando mais favorável. Seria perfeito se a orquestra tivesse um tipo de bolsa mensal, que cobrisse os gastos de passagem e alimentação dos estudantes” 

CARLOS EDUARDO AMARAL, jornalista, crítico de música erudita e mestre em Comunicação.
LÉO CALDAS, fotógrafo, com trabalho publicado em vários jornais e revistas do país.
LUCIANA VERAS, Jornalista, produtora e especialista em Estudos Cinematográficos

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