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Carlos Mélo: Desejo de trabalhar a natureza original

Em nova performance, artista toma manifesto do crítico Pierre Restany como leitmotiv, citando-o diretamente

TEXTO Paulo Carvalho

01 de Setembro de 2014

Na obra 'Sobre humano', que integra uma série feita a partir da imagem do animal, o artista utiliza ossos de boi

Na obra 'Sobre humano', que integra uma série feita a partir da imagem do animal, o artista utiliza ossos de boi

Foto Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 165 | set 2014]

Os conceitos do Manifesto do naturalismo integral,
texto de Pierre Restany, são o mote mais recente da nova obra do pernambucano Carlos Mélo, apresentada no retorno da Bienal da Bahia. No vídeo produzido por Mélo, a pergunta inicial de Restany diante da exuberância da Floresta Amazônica – “Que tipo de arte, qual sistema de linguagem pode provocar um ambiente tão excepcional, exorbitante, em relação ao senso comum sob qualquer ponto de vista?” – encontra resposta em narração ambígua do texto, escrito em 1978. A voz marcante da atriz Renata Sorrah e a imagem do artista lendo o manifesto causam um estranhamento que logo remete à noção do naturalismo não metafórico do crítico francês.

A ideia de natureza original de Pierre Restany pode ser percebida na trajetória de Mélo desde a série chamada Emissão, em que o pernambucano faz fotos nu e seminu ao lado de caixas de som. A ideia remete ao contorcionismo imagético em que o fotografado ora parece um homem, ora uma mulher. Em uma dessas fotos, Carlos segura um cachorro até a cintura, encobrindo o sexo.

“Acredito que meu contato com o Manifesto do naturalismo integral tenha se dado por essa via: o desejo de trabalhar a natureza subjetiva. Tratar desse homem antropológico. A partir daí, dessa relação com a natureza original, surgiu a minha relação com o barro”, explica Carlos, em referência à Bienal do Barro, evento idealizado e promovido pelo artista em Caruaru, entre abril e maio deste ano.

“Pensei na bienal através não de um contorcionismo imagético, mas semântico, no qual crio o anagrama Corpo barroco. Fracionando esse anagrama, tenho três momentos: o corpo, o barro e o oco. A princípio, o meu trabalho trata mais diretamente a questão do corpo e do oco, já que, em um momento em minha produção, o devir e a ideia de processo são determinantes. Mas o barro, eu ainda não entendia o que era. Quando comecei a pensar em minhas referências, de onde vim, esse resgate da natureza original, algo tornou-se mais claro. Eu venho do Agreste, uma região de Pernambuco entre o Sertão e a Zona da Mata. Precisava voltar lá, para rever aquele lugar e entender uma série de questões. Curiosamente, descobri que um anagrama da palavra agreste é resgate. Como já vinha trabalhando essa questão do anagrama, concluí que foi sintomático. Algo apontava para lá. O barro, sabemos, é uma representação simbólica de uma espécie de referência universal do homem. Um ponto de partida”, argumenta Mélo.


Nessa busca em torno de natural, Carlos Mélo chegou ao barro como matéria primordial. Foto: Beto Figueiroa/Divulgação

No primeiro momento do contato com o manifesto de Restany, o artista pensou se tratar de um texto em defesa da ecologia. “Depois, vi que não era, que havia o desejo de ir mais fundo nas questões do homem. Isso me interessa muito. Venho do interior e minha infância foi muito ligada à natureza. Algo que faz parte da minha vida e que continua muito presente na minha produção. Meu trabalho não é representacional, não tenta ilustrar a ideia de uma natureza, mas, sim, mostrar que, através dos pequenos gestos, a natureza acaba se revelando mais integralmente, de dentro para fora mesmo. O encontro com o manifesto foi feliz por isso. A essência da produção artística é a sensibilidade. Para Restany, o poder só faz sentido se estiver a serviço da sensibilidade.”

Outra série de Mélo que remete à Restany são os trabalhos que receberam o nome A experiência sensível. “Ser sensível é caro, a manutenção da sensibilidade não é fácil. Penso que a grande manifestação dessa natureza integral é essa sensibilidade ativa. Quer dizer, também, a preservação da natureza subjetiva.”

O artista pernambucano, que vem trabalhando com atores em suas performances, conta que suas grandes referências vêm da dança e do teatro. “Quando chamo um ator para trabalhar comigo, é para que ele também contribua sensivelmente para o trabalho. Claro que traz a sua técnica. Por exemplo, quando chamo Alessandra Negrini para fazer um vídeo em que ela chora, é porque sei que ela vai chorar do jeito que a obra precisa. Restany fala de sua experiência com Frans Krajcberg na Amazônia, em que ele tem uma espécie de surto com a exuberância da floresta. Espécie de voz do outro trazendo questões que são nossas. Então, quando desejei trabalhar com o Manifesto, estava pensando a voz do outro e gostaria de convidar alguém para ler comigo esse texto. A ideia foi chamar uma atriz que trouxesse junto consigo sua imagem. Teria, portanto, que ter uma voz reconhecida. Considero Renata Sorrah uma das melhores atrizes brasileiras e penso que ela tem essa voz que sustenta poeticamente o trabalho, potente e, ao mesmo tempo, doce e sensível”, explica Carlos.

“Trata-se da incorporação do outro em mim”, acrescenta. “A ideia do estrangeirismo. Da dublagem como uma extensão sensorial. Eu não tento acompanhá-la. A ideia era começar a ler o texto à minha maneira e depois encontrá-la. Leio a tradução original do Manifesto do naturalismo integral, escrito em 1978. É utópico e é lindo por isso. Com palavras-chaves como percepção, arte contemporânea, experiência sensível, Amazônia. Palavras que acabam ativando questões interessantes agora. 

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