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Rodrigo Braga: Embate entre morte e vida

Nascido em Manaus e filho de biólogos, artista foge do discurso ecologista direto, buscando mesmo invertê-lo

TEXTO Paulo Carvalho

01 de Setembro de 2014

Na fotografia 'Campo de espera', feita no arquipélago do Rio Negro, o artista intervém na paisagem original

Na fotografia 'Campo de espera', feita no arquipélago do Rio Negro, o artista intervém na paisagem original

Foto Rodrigo Braga/Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 165 | set 2014]

O artista contemporâneo Rodrigo Braga, 38 anos,
tem seu trabalho amplamente estabelecido na fronteira arte e natureza. Animais e partes de animais mortos surgem em meio a paisagens rurais, em contato com a água e por vezes com o próprio corpo do artista, como acontece na série Desejo eremita, de 2009. Apesar da formação como artista e do início da carreira ter-se dado no Recife, Braga nasceu em Manaus e atualmente está radicado no Rio de Janeiro.

“Minha formação nesse tema vem desde muito cedo, em casa, com meus pais, que são biólogos. Quando comecei a desenhar – costumava desenhar árvores e animais o tempo todo –, o tema já me chegava através dos livros e reuniões de ecologistas, que aconteciam em minha casa e nas organizações não governamentais que eu frequentava desde criança”, conta, em entrevista à Continente.

Os pais de Braga defendem as causas ecologistas desde o final dos anos 1970. Enquanto o pai realizava mestrado em Manaus e a mãe trabalhava como pesquisadora do CNPq, o artista e sua irmã eram criados no alojamento do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o Inpa. Essa casa-alojamento ficava, à época, na fronteira de Manaus com a Mata Amazônica.


Para desenvolver a série 'Desejo eremita', Braga fez residência de alguns meses no sertão pernambucano. Foto: Rodrigo Braga/Divulgação

“O que conheci em casa, na infância, formou meu gosto por estar nesse universo. E, mesmo já morando no Recife, frequentava os laboratórios da Universidade Federal de Pernambuco e da Universidade Federal Rural de Pernambuco, além de acompanhar meus pais em algumas visitas de campo”, explica Braga.

Mas no momento em que começou a trabalhar com animais e com a paisagem, agora dentro do campo artístico, o artista conta que, de certa forma, não apenas agregou o discurso dessa formação, como buscou invertê-lo. O exemplo vem de uma obra também de 2009, Provisão, na qual enterra uma árvore.

“A questão é como ir além de um discurso radical em defesa da natureza, como colocar a discussão de maneira mais enviesada e não boba, porque há no cruzamento entre arte e natureza coisas de todos os tipos. Provisão é algo que você guarda para o futuro. A obra era muito contundente, a partir do corte de uma árvore, do ceifar uma vida de um ser que não reage. Uma postura unilateral, hierárquica, do homem sobre aquele ser. Algo que meu pai, que plantou milhares de árvores através de programas ambientais, jamais faria – e eu plantei junto com ele muitas vezes. Isso também jamais teria passado pela minha cabeça, não fosse um trabalho do campo da arte em que essas questões adentram em um universo que permite. Um campo que me possibilita não só refletir, mas agir de outras maneiras”, coloca Braga.


A obra Ilha lago está na mostra Agricultra da imagem, em cartaz no Sesc Belenzinho (SP).

“Eu derrubei a árvore porque isso me veio à mente por cerca de dois anos. Em sonho ou acordado, eu não parava de pensar sobre aquilo. Até o ponto em que inscrevi o trabalho no Concurso de Videoarte da Fundação Joaquim Nabuco, em 2009. De alguma maneira, facultei a responsabilidade da decisão de matar a árvore para a comissão julgadora, já que fazer isso contrariava a mim mesmo, minha formação. Mas que bom que o campo artístico permite.”

DISCURSOS
Braga explica que nunca perseguiu o discurso ecológico em seu trabalho. “Não sou ecologista, não sou biólogo. Apenas um ser no mundo, imerso nessas discussões em que tudo o que diz respeito a desmatamentos e poluição me incomoda muito. Lembro que, quando eu era criança, meus colegas adoravam me chatear, tirando folhas das plantas e quebrando galhos. Eu ficava irado. Mas matar uma árvore e enterrá-la é um ato que me empodera enquanto artista. Trata-se de um embate do indivíduo com essa natureza, ali, na sua fisicalidade, fazendo a coisa acontecer, sendo também destrutivo.”

Rodrigo Braga vê sua produção como um embate entre morte e vida, entendidas numa perspectiva cíclica de renovação de tudo, das matérias, dos seres, das moléculas, das energias, da espiritualidade. “Tanto é que minha exposição no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, em 2011, chamou-se Ciclos alterados. Ciclos naturais alterados pelo homem. O que faço com meu trabalho é contorcer um pouco não só o ciclo natural das coisas, mudando-o de lugar, de sentido, mas também, nesse movimento, trazer a arte como álibi. Não é dizer simplesmente, ‘ah, só porque é artista pode tudo’. Mas o álibi de poder ir mais além. Dizer ‘eu posso, talvez, em nome da arte’. Mesmo que haja um ‘em nome da arte’, mas um ‘eu posso porque sou um ser que quer experiências diferentes e pensar coisas novas’”.


Embora haja um discurso político latente, a obra Broto osso se realiza em plasticidade.
Foto: Rodrigo Braga/Divulgação

No limiar entre arte e natureza, o artista chama a atenção para o trabalho do paraense Armando Queiroz, com exposição programada para o Museu de Arte do Rio, ainda em 2014. “Ele mobiliza o histórico, social e cultural, conseguindo uma complexidade que meu trabalho não alcança, já que me interessa uma discussão sobre a raiz biológica e material, voltada para as transmutações, para um debate, digamos, mais filosófico e espiritual.”

Braga também chama a atenção para a reconhecida obra de Nelson Felix, considerando que alguns trabalhos seus citam Felix sutilmente. “Ele joga com forças da natureza, em relação às quais o homem se torna muito pequeno. É um artista que tem o globo como ateliê, deslocando-se mundialmente, colocando peças, tirando fotografias, desenhando. Parte do trabalho dele é um mapa-múndi.”

Neste 4 de setembro, Rodrigo Braga abre, em um galpão de 600 m2 no Sesc Belenzinho, em São Paulo, a sua maior individual até hoje, com material inédito. São 30 fotografias, três vídeos e uma instalação. O trabalho foi produzido nos últimos quatro anos, em três regiões. Na Amazônia, que frequenta há quatro anos, com investidas em áreas isoladas no Alto Rio Negro, no litoral sul de Pernambuco e no Rio de Janeiro. Além disso, participa de coletivas no Museu Vale, em Vitória, e de retrospectiva do projeto Rumos, do Itaú Cultural. 

PAULO CARVALHO, jornalista, doutorando em Comunicação pela UFPE.

Leia também:
Carlos Mélo: Desejo de trabalhar a natureza original
O documentário como aliado do ativismo ambiental

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