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Natureza: Nada está fora dela

Arte contemporânea introduz novas problematizações sobre a relação do universo artístico com o meio ambiente

TEXTO Paulo Carvalho

01 de Setembro de 2014

'Running fence', de Christo & Jeanne-Claude, levou quatro anos para ser erguida, em uma extensão de 39,4 km

'Running fence', de Christo & Jeanne-Claude, levou quatro anos para ser erguida, em uma extensão de 39,4 km

Foto Wolfgang Volz/Laif

A Bienal da Bahia, que retornou em 2014 após 46 anos sem edições, trouxe como um dos seus pilares as reflexões do crítico de arte francês Pierre Restany (1930-2003). Autor do Manifesto do naturalismo integral, escrito durante viagem ao Alto Rio Negro, em 1978, Restany andava esquecido no circuito da arte, no qual sempre manteve uma postura marginal às instituições e ao academicismo. Dizia Restany que sua concepção de naturalismo não era metafórica ou realista: não traduzia nenhuma vontade do poder, mas operava uma “transformação da sensibilidade”. Como para o biólogo e antropólogo Gregory Bateson, valia para Restany uma concepção profunda de ecologia, capaz de transpassar “as balbuciantes perspectivas ecológicas atuais”. Se, como afirma Bateson, “existe uma ecologia das ideias danosas, assim como existe uma ecologia das ervas daninhas”, era preciso entender seu naturalismo como um fio condutor possível para o “caos da arte atual”. Naturalismo como “disciplina do pensamento e da consciência perceptiva”, donde valeria muito mais a luta contra a “poluição subjetiva” do que contra a “poluição objetiva”. Restany é uma chave possível para se chegar a um limiar presente na história da arte, retomada em novos termos e problematizações pela arte contemporânea: a relação desta com o que entendemos como natureza.

“Sei que o senso comum pensa a natureza como uma espécie de conjunto de eventos externos ao homem e a todas as suas edificações. Aliás, em boa medida, as edificações humanas possuem como baliza identitária e meritória o grau de exterioridade que estabelecem com essa assustadora teratologia produzida pela natureza. Toda edificação humana é uma estratégia de livrar-se e proteger-se, mesmo que ilusoriamente, dessa profícua teratologia. Talvez por ser uma estratégia de sobrevivência, a cultura e seus produtos (como, por exemplo, a linguagem) tenham sido pensados como algo externo à natureza. Natureza, esse espaço do intempestivo, esse tempo do eterno inaugural”, afirma Marcelo Coutinho, artista e professor do Departamento de Teoria da Arte e Expressão Artística da Universidade Federal de Pernambuco.


A escultura Connemara, de 1971, foi realizada na Irlanda, por Richard Long. Foto: Divulgação

Segundo Coutinho, durante boa parte do século 20, definiu-se cultura como um tipo de espaço de clausura, externo e avesso à natureza. Postura que seria tensionada a partir do final dos anos 1960, por mobilizações como a land art e a arte povera (do italiano “pobre”) que, além de colocarem obras para fora dos ateliês e galerias, realizariam as mesmas em seus ambientes naturais, fossem campos, desertos, mares ou montanhas. A arte da natureza, a partir da virada da land art, ainda que a escala grandiosa pudesse fazer crer o contrário, revelaria a influência do minimalismo e sua busca por obras (em particular esculturas) que pressionassem o mínimo sensorialmente o lugar onde estivessem, opondo-se aos valores estabelecidos pelo expressionismo abstrato. Nesse contexto, despontaram artistas hoje consagrados, como Christo & Jeanne-Claude, Richard Long, Robert Smithson, Michael Heizer, Sol LeWitt e Walter de Maria.

“Este foi, por exemplo”, acrescenta Coutinho sobre a separação entre cultura e natureza, “o corte epistemológico estabelecido, num primeiro momento, pelo estruturalismo de Lévi-Strauss, de certa forma, extensão do projeto civilizatório humanista do Ocidente. Mas há como assentarmos nosso pensamento sobre outra topologia e, quem sabe, nos vejamos e nos definamos não como fenômenos externos à natureza. Porém, como mais uma de suas expressões. Mais uma de suas monstruosidades. O intempestivo e o eterno inaugural, esse parto que nunca cessa, seriam elementos que nos constituem”.


Exemplar de earthwork, Spiral Jetty, de Robert Smithson, foi construída em Utah.
Foto: Divulgação

Não haveria, portanto, para este artista, nada externo à natureza. Esta seria um processo incessante, intangível, incomunicável, indizível, agramatical pelo fato de nos conter e, ao mesmo tempo, nos ultrapassar. “Não somos nós homens que transcendemos a natureza. Trata-se do oposto: a natureza é que nos transcende. Ela nos ultrapassa em todos os sentidos, e largamente. Por isso a natureza e a ideia de sagrado ou divino sempre andaram juntas durante toda a história do homo sapiens.”

Marcelo Coutinho escreveu o texto Hermenêutica do mato, composto por 30 conclusões a que chegou, após três anos morando na Mata de Tabatinga, na Paraíba. Nele, há ideias como: “Há luzes juvenis e luzes velhas”, “O ôntico é uma ilusão de ótica”, “Os gregos estavam certos: a marca estrutural do homem é o esquecimento” ou “Wittgenstein não resiste a um dia de sol”. E, de acordo com o artista, o texto poderia chamar-se também Fenomenologia matuta. “O matuto estaria mais capacitado de fazer aquilo que Husserl indicava como base do método fenomenológico: a ‘redução eidética’. O matuto observa. Sua natureza é observar. Suas bases metafóricas de ordenamento e descrição do mundo mantêm-se sobre o solo da vida natural. Assim, ereções e amores entre bois e entre cães não são incompatíveis com ereções e amores entre humanos. Entre matutos há, certamente, todo um gosto pelo abismo. Estar abismado é o objetivo de toda prosa matuta. A natureza é esse abismo.”


O artista Michael Heizer realizou esculturas "negativas", direto no chão do deserto de Nevada. Foto: Divulgação

E por que é tão difícil falar sobre natureza sem falar de política? “Porque política, por essência”, responde Coutinho, “é uma estratégia de livrar-se das teratologias próprias à natureza. Não foi da pólis que se expulsou o poeta? A pólis é espaço da assepsia dialética, da razão, do exercício da politiké (negócios) entre os politikós (cidadãos civilizados). O espaço de construção de consensos. Será dentro do ‘mercado persa’ das trocas simbólicas que deambularão indivíduos e se constituirão os códigos de convívio social. A pólis procura afastar de si a produção de desvios, monstruosidades, quebras, proliferações de novas séries, sempre vistas como anômalas, por serem expressões do desvio”.

ROMANTISMO
Hugo Fortes, artista e professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, organizou, no primeiro semestre de 2014, a segunda edição do seminário Arte e natureza. De acordo com ele, alguns dos trabalhos contemporâneos que se colocam nesta fronteira fazem referência ao Romantismo, movimento que, em linhas gerais, se opôs ao olhar dissecador cientificista, privilegiando a observação analítica do orgânico, e não a visão de conjunto.


Montada em 1999, na Lituânia, escultura Double Negative Pyramid indica o minimalismo na obra de Sol Lewitt. Foto: Divulgação

O Romantismo não se opunha às ciências da natureza e à emancipação por elas propiciadas, mas criticava a presunção de transformá-las em únicas chaves de compreensão dos fenômenos. Assim, a física mecânica, por exemplo, seria capaz de observar, segundo os românticos, apenas fenômenos de superfície, restando à nova sensibilidade voltar-se para a autoatividade produtiva da natureza, vista como um espaço múltiplo, pleno, em ajustamento contínuo de forças em constantes e complexas relações. A natureza, para os românticos, formaria junto com os homens uma unidade produtiva.

“A natureza que revela uma espiritualidade ligada à ideia do sublime aparece hoje como uma referência saudosista, mas não como um sublime possível. Não há mais a contemplação da natureza como espera de algo, como uma revelação divina. Hoje, ela surge atravessada pela tecnologia e questões do mercado. Não há mais a ideia de uma paisagem original. A gente tem um ambiente natural já completamente construído, com uma série de modificações e, nesse contexto, temos que destacar o papel da tecnologia na produção de imagens que são apropriadas por alguns artistas”, explica Fortes.


Vídeo Sounds from Beneath foi realizado por Mikhail Karikis, em mina de carvão desativada. Foto: Divulgação

“No meu trabalho como artista, venho discutindo questões relacionadas aos rios urbanos. Rios com os quais quase não temos contato, tomados pela arquitetura. Rios marcados por certa sensação de perda que temos em relação à natureza no espaço urbano. Alguns artistas também vêm lidando com a construção de imagens naturais, ressaltando a questão da artificialidade da paisagem como uma maneira que temos de nos relacionar com o mundo natural”, acrescenta.

Fortes também organizou uma exposição paralela ao seminário e trouxe artistas de vários países, como Olafur Eliasson, de origem dinamarquesa, que constrói cachoeiras e outras espécies de paisagens naturais, usando andaimes e tubos de plástico. Como o brasileiro Walmor Correa, com seres fantásticos e estudos de anatomia; o grego radicado na Inglaterra, Mikhail Karikis, que apresentou um ensaio com minas de ferro abandonadas; ou o colombiano Oscar Leone, que se volta para comunidades de trabalhadores no Caribe colombiano.


O brasileiro Walmor Correa trabalha com seres fantásticos e
estudos da natureza. Foto: Divulgação

Na obra Children of unquiet, de Karikis, por exemplo, temos uma espécie de “ocupe” realizado por crianças em uma aldeia de trabalhadores abandonada na região geotérmica do Vale do Diabo, na Toscana, Itália. As crianças transformam a vila, deixada para trás por falta de oportunidades, em um grande parque. As cores opacas da região abandonada contrastam com as roupas coloridas das crianças, confeccionadas por Karikis, assim como o som dos gêiseres se misturam aos barulhos dos novos ocupantes. O trabalho de Karikis é emblemático, se pensarmos como a apropriação da natureza em trabalhos de arte, hoje, se dá no cruzamento de diferentes problemáticas sociais, políticas, imagéticas e sonoras, apontando para uma complexidade ainda maior que o conceitualismo da land art e a ideia de uma “natureza primeira” do Romantismo.

O mesmo cruzamento pode ser observado na vídeo-performance Un Jesus, de Leone, na qual o artista corre frente ao oceano, amarrado por uma corda que o segura e o faz cair repetidas vezes. Na performance, como explica o artista, subsiste a ideia que “toda ação humana, desde uma pisada até a localização de um templo ou uma estrada, provocará sempre, em maior ou menos grau, uma afetação sobre a paisagem”. Para Leone, a fragilidade do corpo frente à paisagem denunciaria igualmente a fragilidade e a sacralidade de todos os elementos da natureza.


Instalação com postes de aço, The Lighting Field (1977), de Walter de Maria, reage aos efeitos climáticos. Foto: Divulgação

DESEQUILÍBRIOS
Pensar a natureza como catalisadora das nossas faculdades de sentir, de pensar e agir diante de fenômenos de desequilíbrios ecológicos e de uma progressiva deterioração dos modos de vida humanos parece ser um dos principais desafios da arte contemporânea. O artista francês Serge Huot, autor da mais recente tradução do Manifesto do naturalismo integral, ressalta o poder preditivo do texto de Pierre Restany.

“Esse texto é profético. Está falando da arte hoje. Lembra-nos que é muito mais necessário lutar contra a poluição da mente do que do próprio verde. Primeiro, temos que mudar de atitude. Restany era um homem universal. Um cidadão do mundo, uma pessoa independente, que fazia amizades com pessoas que não tinham interesse de refletir sobre a arte. Ele não estava obedecendo aos segmentos institucionais e isso incomodou um pouco. Ele tinha uma leitura junguiana, e isso não fazia parte das linhas dos críticos de arte. Mas não acho que seja por acaso que Restany esteja sendo recuperado aqui”, supõe Huot.


Em The weather project (2003), o artista Olafur Eliasson simula
ambiente natural dentro de museu. Foto: Divulgação

O artista francês conheceu o crítico nos anos 1990 e acaba de participar da Bienal da Bahia com trabalhos relacionados a Restany, dentre os quais uma entrevista que realizou com ele num programa de rádio na França. Huot mora há sete anos na praia de Arapuca, no município de Conde, na Paraíba, onde procura “viver de arte em um ambiente totalmente fora do circuito”. Seu trabalho parte principalmente de objetos coletados na praia, onde também são expostos, como aconteceu em 2012 com a mostra Cidades emersas, realizada na Torre Mirante da Estação Cabo Branco.

Restany morreu aos 72 anos, em 2003, como um dos mais famosos críticos de arte do país e o principal representante do Novo Realismo. Foi responsável pela apresentação de artistas como Yves Klein, Daniel Spoerri, Arman, Jean Tinguely, Niki de Saint Phalle e Christo para o público francês. O Novo Realismo foi defendido pela primeira vez em um manifesto escrito por Restany em 1960 e buscava estabelecer “novas aproximações na percepção do real”, numa procura de identidade para uma França pós-colonial. 

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