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Lançamento

A humanidade e sua caverna

Leia alguns capítulos do romance 'Os degraus do arco-íris', de Carlos Nejar, lançado pela Cepe Editora

TEXTO CARLOS NEJAR

05 de Junho de 2019

Foto Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 222 | junho de 2019]

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CAPÍTULO PRIMEIRO
Fui conduzido a morar num covil. Ao fundo, vi um pedaço de antigravidade crepitando. Não sei a que civilização pertenço. Na caverna, em pequenos espaços, dispersos, outros, como eu, habitam. E há um lago de gelo ao meio, como um bloco branco. Talvez marco pré-histórico cercado de alvas e grandes pedras, que não foram polidas e são como óvulos desovando a escuridão. Era um vasto buraco que crispava, como a boca de uma serpente. E vai devorando, aos poucos, a cauda.

Dizia Franz Kafka que ninguém recua diante do habitante da Caverna. Mas quem recua não é a Caverna, nem o morador, nem o intruso. Só o tempo recuará, porque não sabe caminhar na sombra. E descobri também que Caverna é o tempo, com suas fendas circulares. E cada fenda desembocava em grutas. Ninguém é profeta nesta obscura Caverna, onde a luz é fabricada desde o teto, entrando como chaminé. E é do tempo ser ultrapassado sempre por outro, tal uma gruta se encomprida noutra. Igual ao desenrolar da história tornando impossível volver ao passado. E naquele antro de formas e desejos, tudo corria para depois de amanhã. Numa fúria que dignifica a flecha. Porque o arco é a mudança.

Repito. Fui levado a morar num covil. Não sei quem me trouxe a este sítio, onde me impõem regras, obsessões, como se organizasse numa larvária ordem de milênios. Tínhamos de obedecer ao ritual silenciário. Porque Caverna é o que com o vulto oculta a alma. E os corpos trabalham mecanicamente, sem destino. Porque não é ele mais que nos carrega, somos nós que o carregamos.

Ali dentro da caverna não havia peso. Nem a caverna conseguia pesar no cosmos. Como se estivesse solta. E a humanidade estava ali, cercada. E os demais humanos precisávamos subsistir. Havia uma quota de loucura nos trabalhos e até que ponto a sensatez não é loucura? O que não se mede é o que nos mede.

E eu não pressentia que a Caverna era sustentada por outra e outra. Indo devagar comendo com língua de cavalo o céu, restando apenas as bordas.

E a Caverna tinha uma pata de animal junto a um trinco que ninguém alcançava retirar, como se acobertasse outra porta.

Estávamos todos condenados a uma cavernosa humanidade. E ela possuía graus que eu ignorava como atingi-los, nem intuía a altura, o comprimento. E não adiantava ver com o corpo, precisava contemplar com o tato e os olhos. E eu não podia mais ser humilhado, porque calçara no pé o sapato da humildade mais cordata, ainda que às vezes não o fosse. Nem o bizarro fundo da Caverna, nada era para mim fato consumado. Sofrer me dava força inusitada. Mas nós, moradores, cometêramos o delito abominável de haver nascido. E cada um era uma pedra que cansara de ser pedra. Por haver cansado de ser homem. Sem mais olhar nas alturas o perfil da gravidade eterna. Eu era taciturno, como se tivesse nas unhas, um relâmpago. E nas garras, a certeza de que um homem é território que não há de ser violado. Minhas pálpebras não tinham lábios, mas o peso de uma honra não vencida. Via que, ali, nada era surpreendente, por se repetir, igual a um filme mudo que se enrola na máquina. Mas as pedras cresciam como se as pedras crescessem naquele universo sem flores. E um ajudava ao outro, ajudava, mesmo sem fixar, cuidando de que a Caverna não os diminuísse de tamanho, tal uma foice que cortasse a erva. E o que se tornava natural era a existência de sombras que bruxuleavam como candelabros ao vento no fundo do covil. Sem distinguir a quem pertenciam, vindas de um limiar que não podia ser transposto. Apenas não era anônima a dor. Não nos conformamos em sermos animais, somos homens e lutamos, para que a Caverna não nos reduza de tamanho. E nos grandes momentos ela se comportava com a boa aparência que convinha e nos pequenos, mostrava-se como era. E não nos cabia aceitar duas vezes o limite da mesma pedra. Quando o equilíbrio não tem contradição. Ou a contradição é o próprio equilíbrio.

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Todos pareciam albergar um o rosto igual ao meu. Era como se as pedras os modelassem em sua dura casca e imutável forma. Não podíamos sequer sussurrar os nossos nomes — ainda que os cochichássemos aproveitando o rumor do vento na Caverna — pois as pedras os consideravam ato de rebeldia. Mas tínhamos que manter a altura da dignidade do homem, que, segundo constatei, as pedras não percebiam. E até a voz se fizera de pedra, tal se tivéssemos de segurar o seu sotaque. Era ridículo, inaceitável, mesmo que sejamos tantas vezes resignados e ridículos. A ponto de o nome não poder ecoar duas vezes no mesmo ouvido. E a Caverna ia perdendo, aos bocados, o ouvido — o que era terrível — sendo as sombras no fundo, seus únicos olhos. Num movimento cíclico.

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Um ajudava ao outro, se caísse exausto, ainda que as pedras se opusessem. Sim, as pedras resmungam mas não entendem quanto o abraço robustece. E os homens podem resistir como pedras, mas as pedras jamais serão homens, ainda que o desejem. Nem elas logravam ultrapassar essa fronteira, só se os homens o permitissem. E ali ninguém achou, nem vai achar um rosto feliz.

Perdêramos tudo, menos a humanidade. E não deixava que fosse diminuída. Mesmo que a morte venha, há de encontrar-nos intactos.

Foi ali que conheci Boamarte, o velho encarquilhado, com feia cicatriz no peito, empurrando, como eu, as pedras, com poupado esforço. E Josaldo, o magro e duro, com ombros já curvados e olhos aguçados de cão adoecido. E Telma, com braços feridos e olhos pequenos que parecia não se cansar, solteira, brava. E Roselindo, que andava com espinhos na mão e os olhos espinhosos. E Josafá, que arrastava a roldana de pedras, rindo, como se nada mais lhe significasse, mantendo outras vezes a cara fria, distante, de quem tivesse o tempo todo para a empreitada. E João Cobra, acostumado ao sacrifício, de mãos roídas e olhos raivosos, preparando algum bote, não se sabe onde. E Pedro Não, juntando os músculos como um feixe de raízes açuladas. E outros, inúmeros, cujos rostos se confundiam com as pedras.

Ser humano é o oposto da caverna, onde a loucura ensinava a não chorar. Se ao menos as pedras madurassem e dessem frutos, podíamos talvez nos alimentar com seus cachos. Mas as pedras eram infrutíferas, sáfaras, partes da Caverna, e a Caverna, parte da morte. E não existe revelia, nem consolo, ou recurso tramitável contra as pedras. E ali o mundo era úmido. E a dor não sabia ouvir.

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O mais insondável. O conjunto de leis que vigoravam na Caverna e só os desconhecidos agentes, cujos rostos nenhum de nós viu, conheciam. Nós todos pisávamos no escuro, como insetos em torno das pedras. Não sabíamos se tais leis eram reais ou supostas. Outro boato circulante era o de que a única lei era a de subsistir, ou todas as leis existem para atestar o incompreensível e era o que aprendêramos sempre. O invisível não tem novidade; ela apenas se mostra no visível. Só o que tocamos passa a existir. O que nos caça acabará caçado. Basta acreditar. Como se algo já tivesse acontecido. Porque nada vive ou morre totalmente. E o processo de progresso, é o mesmo de recesso. Num mover errado ou impreciso de dados. E cada um dos trabalhadores que empurravam a pedra se imitavam, ou no movimento dos ombros, ou no fluir dos braços, por procurarem uma saída. Mas o mistério é cego, para não perder sua imperiosa vertente.

Como a fábula que ainda logrou ser mito. Ou o mito que pretende devorar a fábula. E a fábula na palavra que enternece o espírito. O que é vivo mastiga o que não é vivo.

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Sob a égide da Caverna, os filhos são radicalmente diversos dos pais, como frutos longe da árvore. Seu intuito era o de seduzir, amarrando a razão, que não parece razão alguma, ao se dar por iludida, mostrando-se a Caverna ora oblíqua, ora desvairada, ora desdenhosa. Não querendo nem esclarecer, nem iluminar. Importa-lhe que não haja hierarquia de valores. E que valor goteja de tão desvalida hierarquia?

E o que refreia o medo da Caverna não é a esperança, ou o desejo, mas a memória ou consciência da banalidade do Mal. E a Caverna detesta os intelectuais ou filósofos, por agitar ideias, transformando num perigo à aparente segurança. E desavisadamente ama a velhice, por ser o seu arauto, mas vai contra os que a abominam, não coincidindo com o que afirma famoso pensador italiano: “Só louva a velhice, quem não a vê de perto”.

E a avidez da Caverna não serve para nada, pois é o poder pelo poder. Há que ser cruel para manter unidos os sequazes e fiéis os que a ela se sujeitam. Porque a Caverna tem a convicção devastadora de que nasceu não para os outros; ela nasceu para si mesma.

CAPÍTULO SEGUNDO
Nós não meditávamos, éramos meditados pela própria Caverna. Por querer penetrar no escândalo de ser homem, este fanático de linguagem, este que não se dobrava e tinha centelha insubmissa, certa progenitura do gênio, que a Caverna detestava, por conter em si a tábua da secular memória. E a Caverna considerava transgressor, metafísico do perene movimento, com uma legitimidade que ela nunca teria. Com o vínculo interminável entre os vivos e os mortos. Mas quem nutria a Caverna? Por que esta espécie de terror terrestre? Ou este odor de barro? Nós juntos como um zumbido de moscas tontas e brancas. Ou os pés descalços empurrando o ovo do mundo. Ainda não conhecemos bem a raça das cavernas, raça inerme e de fundura na barba das idades. Nosso coração é mais do que um país. Goteja agora a mesma sombra da Caverna. E estamos todos estrangeiros. Como grilos presos numa colmeia. Para além do circo das pedras, a solidão no flanco daquela noite. Quanto suportaremos a lógica que a viver nos impede? O terrível que nos dilacerava não eram as pedras, mas a silente obrigação de empurrá-las. E continuamos humanos, terrivelmente humanos com a lerda imbecilidade das pedras. Ou talvez o contrário, por empurrá-las sem saber o sentido. Existir não deixa de ser um ponto de vista. Como a ferida de uma lança que perdura. E não nos apercebíamos dos graus daquela realidade. Ou era uma realidade sem graus, uniforme, incontroversa. Ou éramos todos nós humanos, meros tiros no escuro. Ou talvez possamos descobrir algum desacerto entre as pedras e a Caverna, para que, ao clarearem, colidam. Restando assim o que somos, sem pedras e sem Caverna. Ou que a pata do animal que a guarda se desequilibre e tombe com suas garras de trovão no abismo.

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Hannah Arendt, pensadora de Pedra das Flores, intitulou um capítulo de seu livro O declínio do Estado-Nação e o fim dos direitos do homem, talvez pensando no arbítrio da Caverna. Afirmou: “os ditos direitos sagrados e inalienáveis do homem mostram-se desprovidos de qualquer tutela e de qualquer realidade”. E era o que eu constatava. E diferente do método de Quintana, o poeta que morou no pampa de Pedras das Flores, que postulava “a preguiça como método de trabalho”, por haver constatado que os leitores gostam de ler dormindo, a sinistra Caverna, por preferir os pesadelos, adotou o método de trabalho da mentira. Não há escrúpulo em qualquer campanha. Mantém a assertiva de que os inimigos vão privatizar o dia, ou as estações. Mas essa fraude tem explicação diante da derrota, que é tangível. E o pior, promove manifestação contra a mentira que ela própria inventa. Não se pode, assim, por imposição da Caverna, dizer o que se pensa, mas o que o povo quer ouvir. Ou ver tudo, existindo nada. E era disfarçada ditadura, com aparência democrática. Visível na ponta, pelo bem torneado bico de corvo.

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Ante esse puído e falso clima de defensora dos direitos nacionais, quando os esmagava, eu não podia, nem posso fazer nada contra as pedras, nem no resguardo dos nossos direitos contra a Caverna. Mas aos nos unirmos nos curamos juntos desta roda, nos curamos desta história envergonhada, nos curamos do medo que nos assola, da mentira que invade todos os setores da república, com a desafogada corrupção de poderosos. E verifiquei que o temível não é belo, é o desagregador. Ao empurrar as pedras, elas vão-me ensinando a morrer, vão ensinando a resistir, vão ensinando a levar diante das grutas os severos e futuros insetos de meu corpo, que borbulham pelo antro. Por suportar a condição humana, não permito que seja ela reduzida como uma pedra é derruída por outra e mais outra. Detesto qualquer gesto de piedade, por ser a bestialidade da Caverna, não do homem. E sairemos todos, nem que tenhamos que rasgar o fundo, rasgar e abrir mais, cavando, cavando o fim da Caverna, as últimas paredes, corroendo os seus desmandos. O impossível é a cancela do possível, sendo apenas erro de ótica, pois ninguém alcança violar o coração humano. E o terrível não é belo, o terrível devora.

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A nossa luta de empurrar as pedras basta para encher de fúria a alma, que não tem ou não quer pedras. Imaginamos lutando. Acredito na esperança tanto, tanto, que continuei a acreditar. E por empurrarmos demasiado, as pedras começavam a se deslocar, começavam a sair da polia, batendo uma na outra, e a Caverna, como máquina, ao extraviar das peças, se desmontava. No choque, a pata do animal desabou para além da porta, ao abismo. Por um rasgo de Arco-Íris. E fiquei de aristotélica serenidade e, como todos, tinha a mesma face. Empurrando as pedras, entrávamos no embrião do ser, todos carregando a vida para fora. Nossas autobiografias são as próprias pedras que empurramos, com o sangue e suor desenhando nosso rosto. E elas, ainda que servissem a uma Caverna pérfida e danosa, não nos deixam mentir, embora mudas. E a Caverna é uma poética conforme a posição das pedras. E somos insetos que nos tornamos homens e homens que voltamos a ser insetos, até sermos os homens que comem os insetos, comíamos a dor e dávamos a consciência e a liberdade aos homens. E a liberdade foi crescendo maior do que as pedras e podíamos discernir o bem e o mal, o que a Caverna abonava. Conseguimos em empresa de loucura e sensata paciência descobrir os graus e direitos que a Caverna vedava, que são os do amor que esgota a palavra e a palavra que esgota o amor.

5
Surgiram, das entranhas da Caverna, opositores, que a ela serviam, cegamente. Avançaram com armas. Um dos nossos, Pedro Não, pediu para ser morto e por erro de tiro, apenas o feriram. Eu estava entre os que seriam fuzilados, mas tão ruim foi a pontaria, em primeiro e segundo lance, que a arma falhou. Depois me fingi de morto e estou aqui. Fui escolhido para contar a verdade.

Os algozes da Caverna, implacáveis sombras, acabaram, ao final, no entrechoque, matando-se a si mesmos. E a própria Caverna era hostil com os que não cumpriam seus funestos desígnios. Feroz, os absorveu sem memória e nem a mereciam. A Caverna optou pelo esquecimento e certa parcela de terror. Todos sabíamos que não era um estado de alma, mas de expiação. Vários companheiros escaparam por não mais os lembrarem, entre os civis. Acabando Pedro Não, por ousadia, dizimado. Não o toleravam, nem na desmemória.

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Todos nós, sobreviventes, saímos com o mesmo semblante daquele mundo de girar pedras e fomos para o sol, descendo a brusca montanha. Porque o homem não podia ser esmagado ou destruído pelo peso das pedras. Mas as metamorfoses se efetuaram em leões e tigres que apareceram prontos para dilacerar as presas. Mas nós os amarramos na palavra. E os devoramos, mastigando, irados. O que ama, devora.

Eu tinha nariz comprido, enxergava mais longe. Como se avistasse com as narinas. E havia um companheiro, Ranulfo: raquítico, com mãos sujas, cabelos ensebados, que inventou o que combati logo, pôr num prumo o homem — era desabrido depois de tanto sofrimento — e seguimos adiante, porque homem não se mede, se desvenda. Porque, mesmo parecendo ser de mesma estirpe, nenhum era igual a outros, ainda que tivéssemos rosto semelhante. E ninguém diminuía o homem de tamanho, nem desisti jamais da condição humana. Mesmo que a condição humana quisesse desistir de mim.

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Então nos damos conta, num relâmpago, de que éramos a Caverna e as pedras: por isso as suportávamos. Levando-a junto às pedras conosco, onde fôssemos, porque se entranhava de alma, o que não pode nos escapar de tão dentro. Agora peregrinávamos para longe, andando no campo livre, com suas árvores. Mas a Caverna não deixa de pesar, desde a espessura, até as sinuosas sombras ao fundo. Conduzíamos o mito que ainda não nos conhecia. Também descobrimos que aquela Caverna era transmissível de pai a filho. Como um funéreo legado que a espécie humana tinha de tolerar.

Meus companheiros não me falaram nada, calaram, aceitando tal herança que vinha dos primeiros homens e toda a civilização, com suas aventuras, não a conseguia arrancar. Ao contrário, quanto mais civilizado, mais Caverna e mais pedras. A soberba dos experimentos civilizatórios não nos fez mais humanos, e sim mágicos. E na magia estava o avanço do sobrenatural. Porque o princípio e o fim se uniam, advindo da mesma e secreta fonte. E mais. A magia é sem nome, como a justiça, livre, bem-aventurada. Porque ter nome é culpa. E percebi que também o universo era uma Caverna dentro de outras e outras, entre cometas, nebulosas, planetas, constelações. Tudo ascendia só pelas Cavernas como escadas. E a tal árvore da Vida no Éden situava-se numa delas, à margem de capitoso rio. Morrer era mudar de Caverna, onde o corpo era inofensivo, inútil e desativado, devendo portanto conhecer a fome da terra. Com a abolição do tempo.

Assim, a nossa humanidade não se inseria fora, mas no interior da Caverna. A vida humana não passava de transição, às vezes dolorosa, de uma via à outra. E o amor, o pequeno e ínfimo intervalo entre essas instâncias, ainda que nos acompanhasse como o fogo nas brasas, ou as cinzas do fogo.

Mas tentei me desligar desta ideia que me dava perplexidade, por ficar tanto tempo empurrando pedras em mim mesmo. Sentimento que assaltou a todos os companheiros. Estávamos simplesmente presos em nós mesmos, porque a caverna resplandecia em nós. Como viajantes que vão e vêm pelo mesmo caminho do deserto, achando que o fim estava ali e não havia fim, nem começo. Perdemos o tempo, ou o tempo nos perdeu. Iguais a meninos pulando na mesma gangorra sem termo. Ou empurráramos pedras sem saber que empurrávamos estrelas.

E nosso percurso agora não tinha mel escorrendo dos lábios, nem pomar de maçãs, nem Querubins, mas o arfar das narinas no cansaço, a tampa vazia da noite e as perturbantes cintilações. Porém, o que reparei é que vagávamos em círculos e círculos como se atrás de uma noz de luz que contemplávamos e começamos a pensar que a beleza do que víamos já era o principiar retumbante da loucura, ou era uma côdea do delírio, vagaroso, entre os desavisados passos. Depois uma névoa foi subindo do solo e nos envolveu, tal se caminhássemos para o início do mundo. Mas o início do mundo é quando a Caverna em nós pega flor e se torna um vergel e andamos entre pássaros. O certo é que a escuridão desaparecera, os trabalhos cessaram e havia uma primazia da primavera que não conseguíamos separar da alma e dos ossos.

Veio-me a cogitação: por que ficamos tanto tempo, talvez anos, dentro da Caverna, se a Caverna era nós mesmos? Ou não sabíamos o que fazer de nós mesmos diante do destino, ou o próprio destino não tinha como nos levar. Mas não importa. Todo esse pensamento durou tanto para se clarear, sendo um ponto luminoso, que se retardou de existir.

Ou talvez me conduza à ideia de meu retardamento, com o inconsciente mais rápido que o consciente. Tudo me volta depois de uma forma inapelável. Mas outros companheiros permaneceram ao meu lado e não aconteceu o mesmo com eles, ou esperavam de mim algum sinal. Vivemos de coices pequenos, médios ou grandes. Conforme se ligam ao burro. E quem muito burro toca, deixa burro e coice para trás. E o pior, é burro com entusiasmo e com iniciativa. Mas é decidido, meditativo, desdenhoso, grave, sério — para Montaigne. Também vivemos de golpes solares. E de um bico de corvo nos defrontando. E nunca ponhas a ovelha a guardar o lobo. Em terra de lobos, uiva-se com eles. Se nós não nos vigiarmos, quem nos vigiará?

Depois reparei que nada tem existência permanente e tudo vai mudando como a pele no corpo e a cor dos cabelos. E agora é a nobreza que faz a lei e a lei, a nobreza. O novo aparece sempre de uma forma velha e o velho, de uma aparência nova. O que se impõe como verdade é uma hierarquia do espírito. E essa não é replicada. Um despertar de dentro para fora. Somos uma concha, onde o mar bate e temos que saber sobre esse rumor, para levantarmos. Se sonhamos, não há imbecilidade alguma nos sonhos. Eles sempre nos querem dizer alguma coisa e merecem que fiquemos atentos a eles e aos desvios de caminho. Preferimos não explicar nada. A alma migra antes do que pensamos, antes da realidade vivida, outras vezes a realidade se manifesta antes da alma. E se não encontrarmos atrás das pedras nada e se não acharmos oposição lá em cima, vamos descendo pela encosta. Mesmo que sejamos iludidos com nossas invenções, vale mais tentar do que temer. Pois o medo não tem mestre. E a loucura tem sintomas que se repetem, até não ser mais loucura, mas desordenado hábito. A loucura não inventa muita coisa, apenas a si mesma. Fora dela, a invenção é ir adiante. Porque a imaginação governa a vida. E a vida, a imaginação. Não cabendo nos devorarmos uns aos outros, mas aos que nos devoram. E o paradoxo é não haver nenhum.

Deixemos Deus ser Deus, mais nada. Às vezes O tentamos impedir. Mas quem somos, de que matéria fomos concebidos, ao nos parir nossa mão, entre o estupor e o júbilo? Raramente a justiça é iminente e deixamos na memória o elefante parado na infância, junto ao círculo, quando o espetáculo se encerrou. E mesmo que a memória seja de elefante, ele não consegue mais puxar a memória com as trombas. Torna-se por demais pesada. E Deus a tudo observa e executa quando Lhe aprouver. Com o relógio da noite na mão. Ainda que o sinal seja uma tranquila gota na luz. E nada em nosso desejo se perde e resta algo a encontrar. E há fios que se atam ou desatam na resoluta e indormida febre. Mas a medida de empilhar o trigo não é a nossa e branca é a inteligência do que aguarda. Pressentindo bater lá no fundo sua proximidade, como a de um tropel de cavalos, quando aparece no horizonte em disparada. Ou um cavalgar de sinos. Sim, deixemos Deus ser Deus. E quem O pode segurar, se é a perfeita Justiça. Não a faríamos tão limpa e concisa. E nos basta.



CAPÍTULO TERCEIRO
Na rua ou na praça, em Pedra das Flores, cada um de nós pode trocar sua caverna pela do outro, ou no amor, a caverna de um entra na caverna de outro e pode encantar-se tanto, que se dá a iminente troca. Por que conter a Caverna é a própria perplexidade humana e se torna simples. Ou pela inveja, ou pelo fervor, ou por tantas formas com que assume o estranho sentimento das espécies. Mas o que não se aceita é que a humanidade que trazemos fique reduzida de tamanho, ou haja alguma esdrúxula metamorfose em que os homens grandes se transformem em anões, por alguma gradação de raça. Ou ninguém mais possa crescer e todos se assentem numa estatura reduzida, não podendo sequer haver ambição de maior desenvolvimento. E se for pequeno ou breve o homem, a Caverna será pequena. E maior perigo é que haja extravio da natureza da Caverna, com o cair de fluidos, partes, sombras, pedras e a pessoa comece a ser corroída, cambaleante, vindo o interior para fora. O que não deixa de ser uma exposição de vísceras. Sem adivinhos para decifrá-las.

2
Tal é o vínculo entre o homem e a Caverna, tal a união complacente com o peso de suas entranhas, que o movimento do corpo repercute no movimento da Caverna e não se sabe até que ponto o homem a poderá carregar, sem que haja uma desconexão desabusada e aguda. Como um trem que se desata de seu vagão. Mas de outro lado, o liame também se faz entre a Caverna e o homem, a ponto de ir deformar suas aptidões e virtudes, de forma sucessiva e obstinada. Tal um vagão que também impele o trem com sua desapiedada carga. Pitágoras diz que somos estrangeiros deste mundo e Marco Aurélio afirma que, como homens, pertencemos ao mundo inteiro. Mas a Caverna que trazemos, ou nos traz, é estrangeira, parecendo íntima, sendo, por si própria, igual ao mundo todo.

A Caverna não sabe onde está enterrado o umbigo, mas a orelhas e os olhos a adivinham, mas o peito palpita junto com ela; às vezes sua umidade escorre, através da sombra.

E a sombra não segura a luz que vem de dentro de nós, a luz. Mas o que todos admitem é a precisão de manter a disciplina da Caverna. Igual à coleira a um cão. Mas a Caverna não era lugar de viver, nem de morrer. Mas ninguém morre de forma relativa. Morre de vez. Como uma pedra cai.

3
O inevitável é o homem esquecer a Caverna e ela então destrava a memória, por não gostar jamais de ser deslembrada. E muitos acontecimentos provêm dos sonhos. Mas ainda não descobri se é meu corpo que sonha ou se a Caverna sonha sozinha. Ou ambos os sonhos coincidem. E os sonhos têm perpétua infância. Igual à água que se move ao fundo.

Se a Caverna é sensata, o homem pode ser louco, ou vice-versa. Mas a normalidade é o equilíbrio e dentro da Caverna é muito escuro para ler. E contam ser ela analfabeta. Nem sei se tem alma, deve ter a mais infecunda. E por não se expulsar a natureza, não se expulsa a Caverna do homem, sabendo que possui muitos olhos presos à luz. E muitas letras, a escuridão. E a Caverna é metódica em mentir. Mas não sofre de dor nas costas. A Caverna, ao pregar a paz e a fé, era inimiga de ambas e se as observasse perderia a reputação e o desígnio. Além disso, dá pouca importância à promessa de felicidade, sabia envolver com astúcia a mente dos homens e animais que se alicerçavam na sinceridade. E a Caverna dava mostra de estar apaixonada por mim e os companheiros, por termos ouvidos muito abertos de fora.

4
Vi que minhas relações com os outros que vieram da Caverna e empurravam pedras, insanamente, como eu, precisavam subsistir. Quando afirmei que todos os rostos pareciam iguais, é porque solidariedade se encadeava neles, num só semblante. E havia que montar em cavalos no gênero humano e montá-los com as Cavernas no lombo, para não dizer que elas compunham um segundo lombo. E as patas dos corcéis faiscavam ao trote. E eles já eram o gênero humano. Com presteza de velhos que levavam flores na cabeça, mesmo que os animais ainda já fossem jovens. E as Cavernas não podiam murmurar para nós: — Nascemos um para o outro! Existir não é o parágrafo de um galope. E ao cavalgar no gênero humano sentimos tanta volúpia, certa beatitude dos heróis e semideuses. As reputações se fundavam no limite entre o Homem e a Caverna, sendo essa aparentemente mais humana, prestimosa, e o homem mais túrgido e abissal. Quanto mais fundo o homem, mais sensível e tortuosa a Caverna. E não tenho, leitores, como Heine, a ambição da confissão pública. Apenas relato esse processo penoso que não expõe os segredos do mundo. Em tudo, o que achei temível cada ser afundar-se no próprio gênero humano, como se a infelicidade quisesse adaptar-se à possível felicidade. Tal se o azeite rançoso fosse mergulhado num frasco do mais apurado azeite. Mas o gênero humano é espécie aperfeiçoada, que tem a espessura de um rio que a tudo acolhe, depurando no filtro das águas.

Mas que sensatez é admissível no fragor de tanta loucura? E o que prolonga a Caverna no homem é a certeza de ultrapassar o buraco do Arco-Íris, o cerco do paraíso que ali se bifurca, conduzindo a humanidade ao afiado extremo da luz. Cortando o acessório como foice. Porque a Caverna no homem ocultava um riacho, com luz que não dormia. E por que tem de dormir a luz, se é insone o seu caudal?

E é nos degraus do Arco-Íris que transita esta energia indomável do cosmos, a potente claridade que não para nunca, como viver não para nunca, salvo o vício da morte. Mas não se inocula o mistério. Havendo sempre sopro, por não acabar a infância. E o envelhecimento é por fora, dentro é voraz inocência. E no amor conheço o preço da altura do céu e sua força. Até o início de Deus.

CAPÍTULO QUARTO
Vi que alguns humanos não traziam a mesma marca da caverna e tinham existência sem sobressaltos. Apenas os que estiveram comigo na Caverna das Cavernas nos trabalhos de pedra guardavam este absurdo contorno de precipício por dentro, como uma segunda e incrível natureza, a ser levada como fardo no emprego, na rua, em casa, na igreja.

Decerto não escutava queixas ou súplicas dos companheiros de suplício, talvez por aceitarem passivamente o encargo, talvez por não saberem que era uma função inócua e injustamente imposta. Como se tivessem em mente: — Não deves cantar, deves tolerar ou morrer. Como se tivessem de criar um monstrengo, a leite.

Nos reunimos em assembleia em minha casa no alto do monte na Pedra das Flores e discutimos o motivo de conservarmos as cavernas, quando não era desígnio dos demais. Levávamos o que não era nosso. Porque havia, sim, no sofrimento uma união, pacto irresistível entre um e outro, esta consolidada solda de fraternidade e o que resiste na espécie dos cães, a inexprimível fidelidade, tornando-se todos jungidos aos mesmo e poroso ofício de se manter vivo, apesar das tribulações.

Felipe, brioso, de voz firme e ombros severos, disse ser de nascença tal Caverna e o que recebíamos de berço e pia era sinal de sina, não mudável.

Ouvi outros, como Francisco Lavasco, de cenhos carregados e forte como árvore e mencionou que o que era sobrenatural não se tocava e senti medo em sua justificativa. Ruben, o mais alto de todos, inquisitivo, com os braços sólidos como tocos de árvores, tomou direção contrária. Disse que nós poderíamos arrancar aquele penoso suporte com o poderio da palavra. O que precisávamos era só de palavra e palavra, o mais se resolvia. E Boamarte, Roselindo, o de pés pequenos, Josaldo, com dedos disformes pelo esforço, Telma, a mais frágil, ainda que de braços roliços e robustos, Josafá, o renitente e sestroso, João Cobra, que se arrastava na lama como se fosse pertencente a ela, rápido nos lances de consciência, e Pedro Não, que tendia inicialmente à recusa e depois voltava atrás com mais galhardia e ímpeto que todos e juntos concordaram, começando a mudar os rostos e as compleições, como se possuíssem a cara igual, tendo naquele gesto o começo de outra vontade, outro ânimo. E me dei conta de que não usava o que tinha, a palavra na mão, capaz de transformar o cosmos e o andamento das estrelas. Porque a palavra ainda se armazenava em mim, por isso estava vivo. Colhendo, como dizia Píndaro, “o fruto imperfeito da sabedoria”. E estavam seguros, “porque nada há de seguro em homem que não está seguro”. Como havia palavras nos outros e brilhavam, decidimos não mais suportar o jugo, já que conhecíamos o escape pelos degraus do Arco-Íris, o verbo conjugado ao infinito. E os degraus do Arco-Íris não envelhecem.

O que era destino se tornara mera sujeição da suspeitosa morte. E principiei agarrando a palavra e a Caverna era corcunda, apêndice artificioso do corpo. E se nos operássemos nalgum hospital para tirá-lo, podíamos sucumbir, pelo rápido avanço da Caverna no organismo. Porque o bisturi não cortaria as pedras que ali se demoravam, inertes, robustas.

Murmurei palavra contra a Caverna, que eu e os companheiros aninhávamos, e a escrevi no solo e no círculo determinei o fim daquele estorvo atado ao corpo. Um movimento se desencadeou e começou por mão invisível e perturbadora e caiu a Caverna, desmoronou com extraviado feto que descia das costas e o eliminei, eliminei, eliminarei — o que mesmo sucedendo com os outros companheiros, atônitos e não havia mais alma alguma nela. E pedras se rompiam e o riacho se esvaiu e até a Caverna do céu foi atingida e se derreteu como uma geleira. E não ficou nada de acréscimo, nenhuma sequela, nada. O bico de Corvo que a rodava em círculo, bateu numa das pedras, rompendo-se e agora somos apenas humanos, sem o lugar de refém do desconhecido.

Porque tínhamos que rasgar, desarvorar, desmanchar a Caverna, antes que a todos desmundasse. E vimos quanto suportamos de constrangimento indevido e nos resignáramos — o que foi pior. Pois não devemos tolerar calamidades inominadas. E colhemos na alegria cachos de nuvens e uvas. Todas as altas razões jazeram sobre o nada. Não havendo nada mais para cavar por debaixo do nada. Sem previsão de benevolência. Nada com a língua de nada. Livres, livres. Mas não esqueçamos que nos arcanos, mesmo aparentemente desmontada, a Caverna, como alguns escribas, passam todo o tempo corrigindo os mesmos textos diabólicos, de modo a aperfeiçoá-los. E como as leis da Caverna são ilegíveis, devemos nos acautelar com certo temor de ela reaparecer, nalgum momento ou criatura. E há de ser destruída, cada vez. Ninguém nos arredará desta caça dos sonhos humanos, ainda mais que também os sonhos nos caçam.

2
Franz Kafka insiste que não se recue diante e do habitante da Caverna. Mas a Caverna não tem mais habitante, nem o habitante tem mais sua Caverna. A realidade não aprende nunca. Nem que se force. É cega e tentou o braile e ninguém a entende. Consta que é retardada.

Mas o que fica no homem é o que caiu por dentro dele e saiu para o mundo. O homem é o mundo que ainda não sabe, Mas o habitante, afinal, da Caverna não tem mais Caverna.

Estou convicto de que a imaginação inventa o que não existe e passa a existir. E o que se inventa é tão importante quanto estar vivo. O segredo é ultrapassar o que os olhos veem, é ver atrás dos olhos, atrás dos lábios dos olhos.

Porque o incrível se repete até tornar — se possível. O milagre não; é sozinho. O milagre é quando a lógica cochila. E é tão mágico como se o dedo apontasse a luz e ela se derramasse de universo. Mesmo que, depois, a repetição do milagre já não nos cause espanto. Até que, reiterado, não signifique mais nada.

3
Quando minha cachorra forçou a caverna contra uma pedra, a caverna afundou e minha cachorra sucumbiu com inusitado câncer no pulmão e eu deplorei essa calamidade nos animais, que também possuem almas. E aquela cachorra possuía tamanha alma que me perdia na profundeza de seus olhos. Como se quisesse me avisar de que ia morrer.

Principiei a usar palavras contra todos os que se sobrecarregavam do mesmo agravo. Estranhei por não existir nenhuma mácula de nascer. E não sabia como todas as punições adventícias viessem nos animais inocentes. A natureza não tem sensatez. E me cansara dessas deformidades. Embora não ignorasse a existência de metamorfose entre os seres, cada vez mais me espantava com tal duplicidade da espécie. O cão não aceitando ser cão e o homem não aceitando ser homem. E vi homens mudados em cães e cães mudados em homens. Quando desejavam, voltavam à forma original. Não sabia, ao olhar um cão, se era homem ou se era cão. Nem sabia em que universo estava. Não importava. Optara por ser homem até o extremo dessa sua humanidade. E respeitava as diferenças. Porque os sonhos estavam repletos por eles. E são desmedidos os sonhos. Houve o fato até de um tigre tornar-se ministro do Supremo, belicoso e idolatrado. E outro era um lobo que se tornou julgador no Pretório Excelso, por erro de metamorfose, manteve a cauda e uma das patas. Não me adveio porque tais animais se localizavam no Judiciário. Nem entendia porque certas metamorfoses se volatizavam.

A esses animais que se tornavam homens, seguiam as regras dos cargos com volúpia, sendo tenazmente humanos.

4
A natureza, ali, podia multiplicar-se. Como por exemplo, avantajar o focinho, mas não errava no todo, nem na identidade. E catavam os nomes do fundo cartórios dos cartórios, para completar o enunciado da metamorfose.

Eu resistia, sendo homem: não queria metamorfose alguma para mim, sob pena de correr o risco de perder a alma. A troca do corpo podia tender à troca da alma.

E foi aí que conheci uma mulher de olhos verdes. Vivera só tanto tempo e se mostrou sedutora, afável. E a convidei para conversarmos num bar da vizinhança e ela aceitou. Como se desvendasse seu desejo. Porque o amor à primeira vista, tem outras imprevisíveis vistas. Porque o mágico subsiste e influi como a circunstância cria o amor. E o que é de água não jaz afogado. Ficou amor flutuando entre nós. Pois age em fluidos como de algum filtro. E Cíntia era o nome da mulher e eu guardei o nome, boiando na memória entre jacintos.

Depois achei os próprios jacintos brotando pela fresta de seu corpo. Os jacintos dos dentes brilhando e os jacintos de água. E não custou para ficarmos nus, soltos de amor na cama vasta de minha casa. Brancos e de fogo. Como segurar essas águas sem idade? Corpos brancos e brancos sonhos. Deitávamos sem saber onde acabar a infância. Mesmo que a semente diga que termina, mesmo que os corpos se exauram, não acaba a infância. Agora o ardor de Cíntia me abastece. E as pequenas coisas bastam, porque nos bastamos às penas coisas. Somos imensos e ínfimos, tocamos na bondade do firmamento e o firmamento suntuoso nos toca. O perene da madrugada e o terrestre, a fusão do sonho de um no do outro, onde juntos o assistem. Com o gosto do licor, nos bebemos.

Damos à amada o que não tem e ela nos cede o que precisamos, como a vara na vinha e a vinha no tempo que a vai destilando. E cometemos a luz, coincidimos com o universo; até as plantas crescem sob a chama. E é mais branca do que nossos dentes e lábios na sarça também branca dos beijos. Ou igual às romãs que o amanhecer entorpece. E tudo no amor amanhece tem frutos. Pois não há pomar tão maduro como almas que se apuram, enlaçadas. Inexiste nada mais universal e puro do que a romaria deste abraço. O sagrado só se efetua no humano. Mas o que é humano senão ascender pelos ramos de ébria e infindável árvore. Como se inventassem outro gênero, outra espécie já remota. O humano apenas se depura no sagrado. Mas a luz não deixa nunca os olhos abertos. Não deixa nunca de acordar por dentro, onde a volúpia acalma e os corpos são gamos que correm num bosque de alma, sem medo do caçador. Tem os olhos em férias, o paraíso.

CARLOS NEJAR nasceu em Porto Alegre e se radicou no Esconderijo da Nuvem, Urca, Rio de Janeiro. É membro da Academia Brasileira de Letras e construiu uma obra importante em vários gêneros — poesia, romance, teatro, conto e criações infantojuvenis. Publicou diversos livros, tais como Riopampa, ou o Moinho das tribulações e O poço dos milagres.

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