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Curtas

'Curral' investiga processo eleitoral através da ficção

TEXTO Luciana Veras

08 de Abril de 2019

Na trama, Chico Caixa (Thomás Aquino, ao centro) entra na campanha a vereador do amigo Joel (Rodrigo Garcia, dir.)

Na trama, Chico Caixa (Thomás Aquino, ao centro) entra na campanha a vereador do amigo Joel (Rodrigo Garcia, dir.)

Foto Daniela Nader/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 220 | abril de 2019]

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Mais um mês havia transcorrido do segundo turno das eleições de 2018, porém, em Gravatá, a quase 90 km do Recife, a atmosfera ainda vibrava em alta voltagem com comitês de candidatos a vereador, santinhos espalhados pelas ruas e militantes pagos para trabalhar devidamente fardados com as cores de seus respectivos partidos. Não se tratava de uma campanha tardia, muito embora as casas pintadas com números das candidaturas fossem tão verossímeis, que a prefeitura foi inquirida pela Justiça Eleitoral sobre o funcionamento daqueles comitês extemporâneos.

Era o cinema a transformar o cotidiano da cidade com cerca de 230 mil habitantes, forjando uma disputa eleitoral para a vereança e fazendo disso o mote para Curral, o primeiro longa-metragem ficcional do realizador pernambucano Marcelo Brennand. Projeto da Zéfiro Filmes em parceria com a Querosene Filmes, com as pernambucanas Bárbaros Produções e Jaraguá Produções como produtoras associadas, o filme é centrado na dinâmica que se estabelece entre os amigos de infância Joel (Rodrigo Garcia) e Chico Caixa (Thomás Aquino), quando o primeiro sai do Recife e volta residir em Gravatá para se candidatar.

Investigar os meandros do processo eleitoral, agora sob a perspectiva da ficção, foi o que impeliu o diretor a um retorno. Entre 2008 e 2009, ele rodou o documentário Porta a porta naquele município, acompanhando candidatos a vereador e seus cabos eleitorais. Desde que o filme estreou, em 2011, acalentou a ideia de expandir aquele potencial dramatúrgico. “Entendi que precisava ir para a ficção, pois teria a liberdade para aprofundar essas dinâmicas que havia encontrado no documentário, só que agora com mais densidade e por outros ângulos”, explicou à Continente, em um breve intervalo na filmagem.

Na sequência daquela manhã de dezembro, Joel Advogado, como os panfletos espalhados pelas ruas diziam, tomava uísque e cheirava cocaína enquanto Caixa contava os votos arregimentados em um evento. Era perceptível a tensão entre eles, como se o estresse da campanha e a tênue fronteira entre o certo e o errado já tivessem afetado aquele vínculo. No enredo, Gravatá é governada pelo prefeito interpretado pelo paraibano José Dumont, Caixa é um ex-funcionário da empresa de abastecimento de água e Joel anseia pelos contatos do amigo entre os eleitores mais pobres para se cacifar na disputa.

Não por acaso, eis uma outra antítese que Marcelo Brennand optou por explorar em Curral, cujo título vem da percepção de votantes tangidos como boiada. “Gravatá é chamada de ‘Suíça Brasileira’. No entanto, ali a população lida com problemas antigos, como a falta d’água. Queria que a cidade, com suas contradições, fosse um personagem também, com a urbanização em que as pessoas têm carros novos, antenas parabólicas, celulares, maior poder aquisitivo, mas ainda convivem com questões arcaicas”, pontuou. Próximo a ele, a produtora Bárbara Maranhão destacou uma ironia que ratificava a fala do cineasta: “Sabia que aqui tem um bairro chamado Alpes Suíços?”.

Essa ideia de transformar a cidade em vetor de força narrativa incidiu sobre a fotografia. Beto Martins, responsável pela poética luz de A história da eternidade, de Camilo Cavalcante, quase levou à loucura os produtores-executivos Luiz Barbosa e Carol Ferreira, da Jaraguá, com a decisão de trocar o equipamento uma semana antes da filmagem. “Optamos por uma Panasonic GH5 porque queríamos imprimir agilidade na linguagem, mas não apenas a partir da movimentação da câmera, que era o esperado em cenas como um comício, por exemplo. Queríamos que a urgência do roteiro também estivesse impressa na imagem, por isso essa câmera, que, mesmo em digital, filma como se estivéssemos rodando em Super 16mm”, contou o diretor de fotografia.

De volta ao set: a cena era noturna, mas o sol ardia, então a luz tinha que ser dosada com uma lona que encobria o acesso. Marcelo e Beto analisavam o quadro e propunham pequenas alterações no posicionamento da câmera. Num cômodo adjacente, Bárbara, Carol e Luiz prestavam atenção, vendo tudo pelo monitor, enquanto conversavam com a figurinista Rita Azevedo e o diretor de arte Juliano Dornelles, que entravam e saíam com rádios a tiracolo. A equipe estava satisfeita, porque as filmagens se encerrariam no dia seguinte.

Quando, enfim, berrou-se “corta”, a pausa para o almoço veio e com ela um descanso de Joel para Rodrigo, ator de talento e intensidade, vide sua inesquecível Paulete de Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda. Do gestual crispado, “como se tivesse problemas de retenção”, ele saiu para uma expressão relaxada de quem entende o personagem. “É comum pensar no político como alguém que é tragado pelo jogo e, dentro disso, vira um psicopata. Quis ressaltar o aspecto humano de Joel, tentar entender sua psique, suas questões com controle, sua obsessão com dinheiro, mas sem transformá-lo em um monstro”, observava.

De camisa polo e calça jeans, era inevitável não associá-lo ao atual governador de São Paulo. “Tem um quê de João Dória aí?”, eis a pergunta da Continente. Rodrigo sorriu: “Trago elementos de muitos outros políticos, busquei traços também em jovens lideranças que acabaram de ser eleitas com muitos votos em Pernambuco”. Ao seu lado, Thomás buscava matizar Chico Caixa. “Ele é alguém que vai para essa campanha por ser amigo de Joel e também porque precisa ganhar dinheiro, mas aos poucos vai percebendo que tem um preço alto a se pagar quando se entra na política. Será que ele vai até o fim?”, perguntou.

Curral está sendo montado por CaioZ e sua estratégia de lançamento será definida com a distribuidora Pandora Filmes. A julgar pelos três meses de “nova política” instalada no Palácio do Planalto, os ficcionais Joel e seu Partido Avança Brasil não estariam em dissonância. “Acredito que o filme pode contribuir para o debate sobre como se faz política no país”, arrematou Marcelo Brennand.

LUCIANA VERAS, repórter especial da Continente.

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