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Cigano: Povo ainda à margem, mas em busca de legitimação

TEXTO DANIELLE ROMANI
FOTOS ROBERTA GUIMARÃES

01 de Março de 2013

Aos 95 anos, Amélia Targino lidera os ciganos de Apudi (RN)

Aos 95 anos, Amélia Targino lidera os ciganos de Apudi (RN)

Foto Roberta Guimarães

Os ciganos têm a mesma origem, mas se dividem em grupos heterogêneos. O tempo e as rotas percorridas fizeram com que se fossem criando, durante os séculos, particularidades linguísticas, econômicas, culturais, religiosas e sociais, que os dotam de hábitos e costumes diferentes. Nem todos são pobres, nem todos morenos, nem todos analfabetos. Poucos são ricos, raros dançam em volta da fogueira ou usam roupas extravagantes, do tipo que se vê nas novelas e nos bailes à fantasia. Mas uma coisa eles têm em comum: uma extraordinária capacidade de assimilar o patrimônio cultural de onde vivem, a fim de amenizar o preconceito que enfrentam nos mais diversos países e sociedades.

Foram três os grandes grupos que se desgarraram na diáspora iniciada há mais de um milênio: os calon, os rom e os sinti. Roma é o nome pelo qual gostam de ser chamados. Está diretamente ligado à língua “original” dos grupos, o romani. Cigano, vocábulo criado pelos europeus no século 15, não é um termo que lhes agrade, pois sempre foi sinônimo de indivíduo de segunda classe. Um estigma, um fardo.

Indiana naturalizada brasileira, a calin Márcia Yáskara Guelpa é enfática ao afirmar que os gadjons (não ciganos) não entendem o seu grupo étnico. “Há um total desinteresse em relação à nossa realidade: muita invenção e exagero. Além de um imenso preconceito”, afirma a jornalista e publicitária.

Feminista, Márcia trabalhou em publicações como a Vogue e IstoÉ, tem origens muçulmanas e há anos optou pelo engajamento na defesa do seu povo.


A jornalista Márcia Yáskara Guelpa atua pela legalização do seu povo

Mas a lentidão na consolidação de políticas e, principalmente, a rigidez governamental para lidar com as particularidades dos grupos existentes fizeram com que Yáskara se tornasse impaciente com o que não apresente retorno rápido.

“Estou cansada de promessas e conversas. Os governos, as instituições não sabem quem e quanto somos, do que precisamos, como nos ajudar a preservar nossas particularidades e valores culturais”, diz.

Foi exatamente no final da pesquisa feita sobre os calons nordestinos, resultado de viagens por três estados – Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco –, que a reportagem da Continente conheceu Yáskara e pôde acompanhar um casamento nos moldes da tradição cigana.

Antes, conduzidos pelo líder cigano pernambucano Enildo Soares, por antropólogos da Universidade Federal de Pernambuco e pela historiadora Carla Alberta Gonzalez Lemos, atuante pesquisadora dos ciganos potiguares, percorremos comunidades nos três estados, e pudemos observar como vivem alguns grupos ali instalados.

PERTENCIMENTO
A primeira constatação é de que, apesar das evidentes mudanças culturais, incontornáveis para qualquer povo que viva no mundo globalizado, o pertencimento e o sentimento de ser cigano permanecem fortes nos grupos visitados. Independentemente de usarem roupas longas ou minissaias, de se comunicarem pelo Facebook ou por cartas, de serem iletrados ou graduados, os ciganos se afirmam como tal.


Maria do Socorro, a Tânia, é cartomante e quiromante. “A gente
não lê, a gente desvenda almas”, diz

“Os ciganos obviamente não são os mesmos. Nem os índios. Nem os negros. Nem os portugueses – ou por acaso temos notícias de portugueses andando em caravelas e portando chapéus de plumas no século 21? Acontecem transformações sociais que possibilitam uma dinâmica de novas tradições. Os judeus, por exemplo, reproduzem as orações ritualísticas do Antigo Testamento, mas não fazem mais os sacrifícios de sangue. Portanto, apesar de a maioria dos ciganos não andar nas caravanas, em mulas, ou de saias compridas, continuam sendo autenticamente ciganos. Não perderam nada, como se costuma afirmar, erroneamente. Apenas se adaptaram às transformações sociais, mantendo a integridade de suas tradições”, explica Renato Athias, antropólogo e diretor do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Etnicidade (Nepe) da UFPE, órgão vinculado ao CNPq, que realiza estudos sobre ciganos, índios, negros, judeus e quilombolas.

Apesar do sentimento de pertencimento e do orgulho em serem ciganos, eles se ocultam dos gadjons. Se forem abordados por estranhos, negam suas origens. Rompida a barreira da desconfiança, percebem-se peculiaridades desse grupo étnico que o distinguem: o apego à família, em especial às crianças e aos mais velhos; o idioma calé (no caso dos calons), o temor de perderem suas tradições e a convivência constante com a hostilidade. Percebe-se, também, embora veladamente, que mantém leis próprias – às quais os membros dos grupos se submetem e são julgados severamente, caso as descumpram. A existência de rivalidades e disputas entre lideranças foi outro fato percebido. Nesses casos, é natural que os grupos em desvantagem migrem de território, e se refugiem, sem pedir ajuda às autoridades formais. Os ciganos preferem resolver suas contendas entre si.

Um casamento cigano em Sousa (PB) foi considerado o ponto máximo da reportagem. A cerimônia se deu numa noite de lua cheia e ofereceu uma vasta simbologia da tradição: noiva vestida de vermelho, troca de punhais, pão, sal e vinho, quebra de taça de cristal, leques, lenços, moedas e dança típica, em que o casal não se toca fisicamente, apenas com o olhar. Os noivos eram Marcilânia Alcântara, 26 anos, e Pedro Bernardoni, 25.

A escolha do local da festa, que se desenrolou com rituais executados por Márcia Yáskara Guelpa, não foi consensual. Enquanto a pesquisadora Carla Alberta Gonzalez Lemos afirmava nunca ter visto um casamento rico como aquele, o pai do noivo, Francisco Soares Figueiredo, criticava o lugar.

“Onde já se viu cigano casar-se em um salão de eventos?”, indagava. “Por mim, era no rancho, que é onde deve ser feita a cerimônia na nossa tradição”, queixou-se. Antes, o casal havia se unido no civil e no religioso católico, com a noiva vestida de branco.

A exclusão de empregos formais promove o ócio. O jogo de cartas é o principal passatempo

O casamento em Sousa revelou o protagonismo dos mais jovens na manutenção das tradições, uma atitude claramente afirmativa de identidade étnica. Por isso o “evento” público, com a presença de jornalistas e marcado por referências ao que se reconhece como ciganidade.

Não por acaso, os noivos têm bom nível de escolaridade e mentalidade moderna: mostram a cara nas redes sociais, fazem apologia à sua cultura e se afirmam ciganos sem medo do preconceito. Marcilânia é pedagoga e dançarina de ritmos gitanos, o que ajudou a conferir qualidade extra à cerimônia. Pedro passou no vestibular de História, mas continua tentando o curso de Direito.

A aliança entre os dois não foi acertada na infância, como ocorria no passado. Aconteceu naturalmente, para a felicidade das famílias, pois os pais de ambos (o já citado Francisco Soares Figueiredo e o pai de Marcilânia, Gradival Alcântara) se conhecem desde pequenos, quando arranchavam no Sertão.

Na manhã do dia seguinte à festa, ao chegar à casa dos pais do noivo, encontramos o recém-casado fazendo “uma boquinha” na cozinha. Isso porque os ciganos têm uma unidade familiar pouco comum entre os não ciganos. “A gente é assim mesmo, vive sempre junto”, explicava-se Pedro, que mora a metros do pai.

As famílias que habitam no Rancho de Cima (existem outras em Sousa, comandadas por chefes do chamado Rancho de Baixo) são lideradas pelo pai de Pedro, também chamado de Coronel, e mantêm entre si uma estreita relação de proximidade.


Pedro e Marcilânia executam danças ciganas durante a cerimônia,
realizada dentro da tradição

“Tem dias em que faço a comida e quando vejo, acabou, porque toda hora entra e sai gente. Para nós, isso é normal. É nosso jeito”, conta Hilda Lacerda, segunda esposa do Coronel.

No dois dias que se seguiram à noite de casamento, amigos, convidados e parentes dos noivos desdobravam-se em comemorações, embaladas por cantigas, sons de violão e bebidas. “Antes, a gente celebrava até mais; agora, as festas são menores”, explicou Hilda, que não tinha ideia de quando os festejos acabariam.

TRANSFORMAÇÕES
José Gonzaga Carnaúba, 47 anos, líder calon de Macau, Rio Grande do Norte, também se ocupa da manutenção dos costumes, mas não sofre pelas mudanças. Nem mesmo com o fato de sua filha Monaliza Dantas Carnaúba, de 23 anos, namorar um gadje.

“O progresso traz coisas boas e desgraças. Você vive num mundo misturado com os outros. Não tem como a gente se fechar”, pondera o líder calon, que, ainda assim, sente saudades do passado.

“Fui nômade. Deixamos de andar por volta de 1980. O progresso não tem como ser evitado, eu sei, e se a gente não for um cigano forte, a sociedade nos engole”, afirma Gonzaga, que vive do comércio a varejo, opção da maioria dos ciganos sertanejos.


Representante de comissões, presidente de associações, Enildo Soares atua pelos direitos e reconhecimento do seu povo

Gonzaga até se arrisca a fazer um prognóstico sobre o futuro. “Os ‘meninos’ vão se casar cada vez mais com os não ciganos e se envolverem com estudos e mercado de trabalho.” Realidade já vivida por Monaliza, mas fora do alcance de Gonzaga e de seus parceiros de meia idade, que nunca frequentaram uma sala de aula. “Sei ler e escrever, mas nunca estudei”, diz o líder.

Dona de casa e cartomante – com clientes que vêm de lugares remotos em busca de seu trabalho divinatório –, Maria do Socorro Dantas, ou Tânia, afirma que não quer nem estudar nem aprender a ler. “Gosto de ser assim”, argumenta a matriarca.

A filha Monaliza tem planos opostos: quer se capacitar cada vez mais. “Minha realidade é entre dois mundos: os calons e os gadjons. Minha mãe acha que, se estudar, vai quebrar a tradição. Mas os nossos jovens vão acabar na escola. Isso nos ajudará a conquistar direitos. Com ou sem diploma, sou cigana.”

“Ninguém me ensinou a ler carta, mão, nós nascemos sabendo. A gente não lê, a gente, na verdade, desvenda a alma”, afirma Tânia.

Outra cigana que pratica leitura de cartas e quiromancia é Maria Soares, ou Judith, 72 anos, que vive na agrestina Serra Caiada. Ela é a líder de dezenas de mulheres que, ao nascer do sol, vestem as “roupas típicas” ciganas e vão às ruas das cidades vizinhas, em busca de clientes. “Faço reza, oração, cura, jogo, adivinho. Não sei ler, mas sei ver as necessidades dos que precisam de ajuda”, diz Judith.


Fernando Calon está entre os ciganos que se dedicam à arte: é escritor e declamador

Casada com Marcos Soares, um dos líderes do rancho, Islaine da Silva, 24 anos, apesar de não ser cigana de origem, lê a sorte e joga cartas. No pequeno quarto que divide com marido e filha guarda um luxo que não condiz com a precariedade do aposento: uma mala repleta de vestidos compridos e bordados. É com eles que a morena aborda e impressiona os gadjons nas cidades e vilarejos onde trabalha.

“A gente tem que sair pra ganhar dinheiro, lendo a mão. Depois disso, vamos atrás de comida e lenha. Os homens tentam fazer negócio, mas pra eles é ainda mais difícil. Acaba que é a gente que consegue trazer alguns trocados com nosso dom”, diz Islaine.

O líder do seu grupo, José Kleber Soares, 43 anos, brinca com o fato. “O cigano é igual ao leão. A leoa é que vai à caça, a gente fica só esperando”, diz o chefe do rancho de 30 pessoas. E afirma que os homens só conseguem algum dinheiro vendendo o que lhes cai nas mãos. No mais, passam horas conversando, jogando baralho e resolvendo disputas entre os agregados.

“Até 1980, o grupo da gente andava a cavalo, trocava animais, vendia ouro. Hoje, negociamos o que é possível. Mas é pouco trabalho pra muito homem, pois ninguém emprega cigano. Agora me sinto igual a um passarinho dentro de uma gaiola”, pontua José.

Responsável por centenas de ciganos, alguns ao seu lado no rancho, outros instalados em cidades próximas, ele menciona, nostálgico, o período em que o Rio Grande do Norte teve um grande líder. “Há 10 anos, estou na liderança desse grupo. Mas nada comparado à época de José Garcia, um cigano lendário que comandava mais de duas mil pessoas. Ele era a força. Com sua morte, acho que se acabou a tradição”, lamenta.


Tiago Dantas faz shows e apresentações nos arredores de Itambé

BENS ESCASSOS
A importância de José Garcia também é cantada em Apodi, extremo sertão do Rio Grande do Norte, onde a família da nonagenária Amélia Targino, dona Dudu, vive há uma década. “Desde que Zé Garcia morreu, os ciganos do Rio Grande do Norte se largaram cada um pra um lado. A gente mora aqui há oito anos, mas não tem futuro: lê mão, joga baralho; quando dá, troca relógio, vende rádio, CD... Quando andava em acampamento, passava muita fome, mas se divertia. Era cigano de verdade”, diz Toinha Carnaúba da Silva, 52 anos, filha de Amélia. As dezenas de ciganos dessa família vivem em casas praticamente vazias – uma cadeira, uma televisão e mais nada –, algo comum nas residências visitadas. Duas explicações para a escassez de bens são a baixa renda e a “ciganidade” latente, pois a maioria dos calons fica constantemente na calçada, convivendo em grupo. “Pra que tanto troço, se a gente, de repente, tem que sair pra outro lugar?”, pergunta Toinha.

Parcimoniosos nas posses, não economizam nos festejos. Em Apodi, como na maioria das localidades visitadas, a maior festa cigana nordestina é o Natal. No caso deles, a comemoração começa na tarde do dia 23 e se estende até a madrugada do dia 24.

A festa em Apodi tem uma “estrela”: o poeta Djalma Arruda, ou seu Ferreira, 76 anos. “Aprendi o bê-á-bá sozinho, bisbilhotando os estudos dos gadjons. Faço muitos versos e música”, comenta.

A produção artística está presente entre vários ciganos encontrados. No Rancho de Cima e no de Baixo, em Sousa, grupos de músicos são comuns e reconhecidos como talentosos. Em Natal, o poeta e performer Fernando de Souza Lima é famoso pelo talento literário. Mas poucas comunidades superam o talento dos ciganos de Itambé, que nasceram para a música e dela vivem. Tiago Dantas, filho de Eliezer Dantas Soares (Antônio Seresteiro) e Severina Maria Cavalcanti (Sarah) é quase um “ídolo” local.

“Dá pra montar uma banda só com a minha família. Em casa, quando a gente se junta, é só música”, diz Tiago, que, hoje, aos 22, é músico profissional. “Canto MPB, mas também sou compositor. Temos poucas oportunidades, mas acredito no futuro.” 

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