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Toda nudez será… castigada

TEXTO Gianni Paula de Melo

01 de Outubro de 2012

reprodução da pintura 'Maja Nua', de Francisco de Goya

reprodução da pintura 'Maja Nua', de Francisco de Goya

Imagem Reprodução

8 de julho de 1983. “... sou um pouco inocência em certas coisas... coisas de mulher brasileira, mal-esclarecida em assuntos sexuais. Apesar de ter tido um bebê, foi depois do seu nascimento que descobri a diferença entre útero e ovário. Antes do bebê nascer, eu achava que ele ficava no ovário da mulher. Em minha mente, desenhava-se um grande ovo, semelhante ao da galinha, de cujo ovo saem os bebês que digo, os pintinhos”. É improvável que, hoje em dia, as mulheres mantenham um grau de desconhecimento tão agudo do próprio corpo. Mas, para a moradora do Mato Grosso do Sul de quem se reproduz a fala acima, essa foi uma questão real, partilhada com as espectadoras do TV Mulher, à época apresentado pela psicóloga e atual ministra da Cultura Marta Suplicy, que, posteriormente, reuniu e analisou depoimentos como o citado no seu livro De Mariazinha a Maria.

Se algumas interlocutoras do programa chegavam ao extremo de ignorar o funcionamento do seu aparelho reprodutor – parte do corpo feminino consagrada por abrigar a cria –, pode-se imaginar que o tópico da sexualidade, abordado sob o aspecto do prazer pessoal, era muito mais nebuloso. As “Mariazinhas”, termo usado por Marta Suplicy para denominar o modelo da mulher submissa e conformada, sequer se davam conta de que possuíam um corpo, imagine compreender que era possível a ele “relaxar e gozar” – expressão utilizada pela ex-apresentadora.

Há uma ponte entre a repressão do corpo e o desejo sexual da mulher brasileira, cuja origem não é difícil remontar, em se tratando de uma nação ocidental de formação cristã. Ainda que discuta essa tradição cultural pelas vias racionais e científicas, uma pessoa nascida nesse contexto estará a ele submetida. A Eva pecadora, representação “feminina” arraigada, tem marcado a mulher ao longo da História, dentro de um modelo social machista e patriarcal. Está no Gênesis (3:16) a condenação, fartamente citada como a palavra de um Deus punitivo: “Vou fazê-la sofrer muito em sua gravidez: entre dores, você dará à luz seus filhos; a paixão vai arrastar você para o marido, e ele a dominará”.

No Brasil Colônia, por exemplo, o discurso opressivo serviu à necessidade de se estabelecerem casamentos para povoar o país e se exercer o controle social sobre os moradores. Com o matrimônio, também se normatizava a vida da mulher, que, segundo o historiador Emanuel Araújo, no livro O teatro dos vícios – transgressão e transigência na sociedade urbana colonial, só deveria sair de casa em três ocasiões: para ser batizada, casar-se e ser enterrada. Mais um trecho da Bíblia, dessa vez retirado da Carta aos efésios (5:22-24), justificava as medidas adotadas: “As mulheres sejam submissas aos seus maridos, como ao Senhor. De fato, o marido é a cabeça da sua esposa, assim como Cristo, salvador do corpo, é a cabeça da Igreja. E assim como a Igreja está submissa a Cristo, assim também as mulheres sejam submissas em tudo aos seus maridos”.


Lilith, personagem feminina da mitologia babilônica em
gravura do artista britânico John Collier. Imagem: Reprodução

Manter as esposas enclausuradas significava trancar seus corpos, sob a justificativa de protegê-las e resguardá-las da imaginação alheia. Guardadas e cobertas por muitas camadas de roupas – isso se verificando não apenas na Colônia, mas, sobretudo, no Império e na República –, as mulheres eram itens de posse e prazer. A figura feminina era apontada como excitadora e sua indumentária era o reforço a essa imagem, numa visão que se assemelha àquela que justifica a violência contra mulheres que vestem minissaias e shortinhos. Nesse sentido, a historiadora Mary Del Priori escreve, em Corpo a corpo com a mulher, que a roupa “revestindo as partes mais cobiçadas da anatomia, constituía, ao mesmo tempo, um instrumento decisivo e um obstáculo à sedução”, acrescentando, ainda, que “o pudor aumentava a cobiça que deveria atenuar”.

QUIETINHAS OU EMPODERADAS
O recato e o confinamento são os comportamentos esperados da “Mariazinha”, muito antes de a psicóloga Marta Suplicy definir essa categoria, uma referência ao arquétipo da Mãe, bondosa, resignada, virginal. A historiadora Michelle Perrot afirma, no livro As mulheres ou os silêncios da história, que esse comportamento recolhido implicava uma não comunicabilidade: “Uma mulher conveniente não se queixa, não faz confidências, exceto para as católicas, a seu confessor, não se entrega. O pudor é sua virtude, o silêncio sua honra, a ponto de se tornar uma segunda natureza. A impossibilidade de falar de si mesma acaba por abolir o seu próprio ser, ou ao menos, o que se pode saber dele”. Dessa forma, o entendimento do gênero, durante muito tempo, esteve amparado na contraposição Eva x Maria, que se reafirma quando a sociedade estabelece demarcações ou o embate entre cachorras x santinhas.

Tanto um quanto outro estereótipo pagam seu preço. Aquelas que optaram pela vida regrada, e renunciaram ao próprio prazer e liberdade, recolheram-se para evitar enfrentamentos e exposições, à custa da domesticação do corpo e, muitas vezes, do desconhecimento de si. Por outro lado, as que fogem às regras podem até povoar o imaginário feminino como heroínas glamorizadas e inspirar movimentos de igualdade de gênero, mas sofrem achincalhamentos públicos, escandalizam porque lideram um tipo de conquista sutil, mas decisiva: o empoderamento do corpo.


A atriz Leila Diniz chocou a sociedade quando posou grávida, de biquíni, para fotografias. Foto: Reprodução

Para ficar apenas em três exemplos clássicos do século 20, temos, na década de 1930, Patrícia Galvão, a Pagu, com sua vestimenta provocadora, de blusas transparentes; uma fumante que dizia palavrões. Na década de 1950, Luz del Fuego, na linha de frente do pensamento naturista e do vegetarianismo. E, na década de 1970, Leila Diniz, imortalizada numa fotografia em que posa grávida, de biquíni, ela mesma uma desbocada célebre. As três, vistas como extravagantes, expuseram, com seus corpos e atitudes, o moralismo e a perversidade a que submetiam mulheres que desafiavam o status quo.

Nessa segunda década dos 2000, para a mulher moderna que conquistou direitos políticos, sucesso profissional e uma caixinha de contraceptivos mensal, questões dessa natureza parecem superadas, pois os corpos dóceis teriam ficado no passado. Entretanto, quando o assunto é a mulher, tal afirmação soa frágil. Porque estão no cotidiano as evidências de que não aprendemos a lidar com o corpo, humanizando-o. No máximo, descobrimos formas eficientes de torná-lo mercadoria.

Para discutir a suposição da igualdade alcançada, não é necessário recorrer aos episódios extremados de países como o Egito, onde Aliaa Magda Elmahdy foi ameaçada de morte por publicar autorretratos nus, num embate contra a sociedade machista do seu país. Podemos nos ater à realidade brasileira, para percebermos que ainda há muito a se reparar. 

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