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Cobertura

"A câmera busca estabelecer uma relação de presença"

Aiano Bemfica apresenta 'Entre nós talvez estejam multidões', longa seu em codireção com Pedro Maia de Brito, resultado de sua imersão numa ocupação do MLB

TEXTO Luciana Veras

15 de Outubro de 2020

O realizador Aiano Bemfica

O realizador Aiano Bemfica

Foto Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Cobrir um festival a distância
, com imersão na virtualidade em que se realiza o 9º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, significa não apenas ver em casa dezenas de filmes, de dezenas de países, em dezenas de idiomas, e não naquele frenético e saudoso ir e vir das salas, mas também prescindir das trocas presenciais. Dois mil e vinte, de fato, não é ano para “trocas presenciais”, e sim para outras modalidades de interação. Assim, faço por telefone uma entrevista com Aiano Bemfica, um dos realizadores do documentário Entre nós talvez estejam multidões, “em cartaz” na plataforma do festival nesta quinta, 15, último dia de exibição.

Aiano é mineiro e seu codiretor, o amigo e parceiro Pedro Maia de Brito, um pernambucano. Entre nós talvez estejam multidões marca a terceira realização conjunta entre eles e traz os selos das produtoras Miúdo Cinematográfico e Riacho Doce, de Pernambuco, e Amarillo Produções Audiovisuais, de Minas Gerais. Está na mostra competitiva do Olhar de Cinema e, depois da estreia neste outubro pandêmico, deve circular em outros festivais, para onde levará a sua força no registro do cotidiano da ocupação Eliana Silva, que desde 2012 existe, e resiste, no Barreiro, um dos bairros de Belo Horizonte.

Entre nós talvez estejam multidões alia a urgência de um cinema que não esconde sua filiação política – Aiano é militante do MLB, o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas – ao contexto tenebroso que conflagra a luta por moradia no Brasil. Ao longo dos seus 99 minutos, enquadra a geografia física e humana da Eliana Silva, adentra aquelas casas com paredes de alvenaria e mesas na cozinha e nos convida a conhecer gente como Polyana e Leo, que articulam pensamentos de uma consciência política e um comprometimento com o coletivo em escassez no nosso país.

"Eles iniciaram o processo de militância na própria ocupação, são personagens que têm esse grau de elaboração política porque se forjaram nessa luta. É importante localizar isso porque é uma característica importante do movimento: suas coordenações são territoriais, pessoas fortes e lideranças forjadas ali, na luta por aquela terra", observa Aiano.

Em vários sentidos, o documentário que ele e Pedro rodaram no segundo semestre de 2018 (há cenas, inclusive, que demarcam a temporalidade daquele entreato – o tempo suspenso entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais) ecoa Chão, de Camila Freitas, que esteve na competição do Olhar de Cinema em 2019, e também Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé, rodado e exibido em um 2016 cada vez mais distante, porém ainda cabal como o ano do golpe que abriu a fenda para o escalonamento da desigualdade a nos marcar como nação.

Sobre o filme, o cinema que milita, a construção coletiva e uma estética e política da imagem se deu a conversa com Aiano Bemfica, resultado de uma ligação por WhatsApp e cuja edição se descortina abaixo. 

CONTINENTE De onde surge Entre nós talvez estejam multidões?
AIANO BEMFICA É o terceiro filme que faço dentro do MLB – Movimento de Lutas nos Bairros, Vilas e Favelas. Me aproximei do movimento em 2013, comecei a militar em 2014 e fui construindo material de comunicação, sendo videoativista, fazendo registro ao longo de processos de luta, como ocupações de prédios públicos, campanhas de financiamento coletivo ou ainda vídeos denúncias de despejo. Assim fui me tornando orgânico ao movimento, que, como o filme mostra, surge no final da década de 1990, também em Pernambuco. E, desde 2016, começamos, Pedro e eu, a fazer esses filmes. O primeiro feito nesse contexto de intimidade com movimento foi Na missão com Kadu (2016) e o segundo, Conte isso aqueles que dizem que fomos derrotados (2018), que fizemos com outros companheiros. Pedro não é militante do MLB, como eu sou, mas se transforma em realizador aliado. Então, fomos para dentro da Eliana Silva, que é uma ocupação nascida em 21 de abril de 2012. O movimento entrou, se estabeleceu por 21 dias, em confronto com a polícia, e em maio saiu.


Aiano e Pedro, codiretores do filme. Foto: Divulgação

CONTINENTE E o primeiro plano do filme mostra justamente uma assembleia em que se fala de como a ocupação surgiu, do cerco e da volta três meses depois.
AIANO BEMFICA Sim. Naquele mesmo ano, em agosto, as famílias voltaram para aquele mesmo território. Tivemos acesso às imagens do período do cerco e isso foi para o processo de pesquisa e escrita do roteiro. Começamos a filmar, no segundo semestre de 2018, com a ideia de usá-las, mas depois vimos que as imagens de arquivo acabaram não tendo essa presença. Aliás, elas não entram em momento algum do filme, mas estão em Vídeo memória, um curta-metragem ainda inédito. Então, Entre nós talvez estejam multidões se constrói a partir daí.

CONTINENTE E esse é um lugar de intimidade, um espaço íntimo entre vocês, que estão ali realizando, e aquelas pessoas que partilham o seu cotidiano.
AIANO BEMFICA Concebemos esse filme primeiro como fruto de uma relação muito íntima. Então, desde o início, a opção foi trabalhar em um processo de imersão. Filmamos de seis a oito meses, morando quatro dias da semana lá na ocupação, e nos outros três dias estando fora de lá, mas vendo o material filmado, produzindo a semana seguinte. Fomos para lá e ficamos, de cara, quatro dias na semana. Uma equipe pequena, com Raphael Malta Clasen e Rick Mello nas câmeras, e muita gente da comunidade de aprendiz nos processos do filme, dando assistência à produção. Desde o início, tínhamos essa intimidade, esse aprofundamento, um tempo que nos dava, por exemplo, para levar quatro dias para rodar somente duas cenas. Era um plano de filmar sem pressa, de aproveitar para criar as condições do encontro, pensando na ideia de filmar com e a partir desses encontros. E de pensar esses encontros como espaços de escuta e observação.

CONTINENTE Os planos do filme são longos e a câmera fica sempre estática, quase como se fosse alguém a espiar aquelas conversas, e também a uma certa distância, dando a nós, a audiência, a chance de ver não apenas as pessoas que falam, mas o lugar onde vivem, as ruas por onde circulam.
AIANO BEMFICA Acho que a câmera, na verdade, tenta mais do que espiar, sabe? Ela busca estabelecer uma relação de presença no interior daquelas casas, é uma câmera que busca estar presente para que as pessoas atuem, falem, seja nos encontros individuais, seja na construção de um pensamento coletivo. Por isso, nas assembleias, nas reuniões e nos flagras do cotidiano da ocupação, privilegiamos os planos abertos, as grandes angulares, mesmo nas imagens internas, porque a casa daquelas pessoas representa muito. É o signo material de muita coisa. É um fim da luta, mas uma mediação material importante. Queríamos esses elementos em cena.

CONTINENTE E aquele palco? Entre nós talvez estejam multidões traz cenas muito interessantes das pessoas em performances ali, seja uma jovem cantando uma música de Whitney Houston, seja um rapaz em solos de bateria. Aquele espaço já existe lá, na ocupação, ou foi pensando para o filme?
AIANO BEMFICA É uma situação mista. Todos aqueles artistas existem e foram eles que trouxeram seus números para o filme. Aquele palco, exatamente igual, é montado sempre lá no momento em que vai ter uma festa. Quando remontamos aquele espaço, convidamos as pessoas para que elas viessem fazer sua personagem do jeito que quisessem, como escolhessem e propusessem a cena. As músicas, a roupa, a performance... Essas pessoas se constroem subjetivamente a partir dos seus sonhos, dos seus gostos artísticos, e do que projetam para si mesmas. Queríamos ter espaço para isso no filme. Embora aquela seja uma comunidade de ocupação forjada na luta, não é unicamente com esse espírito de luta, ou no confronto direto com o poder público, que ela se estrutura. Queríamos que as pessoas se projetassem e se manifestassem dentro do que gostam de fazer, ouvir, cantar.


Imagem com um dos artistas que aparecem no DOC. Foto: Divulgação

CONTINENTE Vi nos créditos que a montagem é de Gabriel Martins, que é da Filmes de Plástico, diretor de um dos melhores filmes que vi em 2019, No coração do mundo. Como foi trabalhar com ele?
AIANO BEMFICA Já tínhamos trabalhado com o Gabito antes e, para esse filme, pensamos em uma estrutura de montagem fortemente inspirada pelo muralismo mexicano. Sabe aquele movimento artístico no México? Uma arte super engada, importante, com muros contendo enormes pinturas que, em si, traziam várias histórias. Então fomos atrás de pequenas imagens construindo juntas um grande painel. Pensamos muito, e juntos, o filme por aí e em como apareceria esse lugar, em que opções de fazer uma cena teríamos. Por exemplo, preferimos chamar as cenas de blocos autônomos estruturantes. Com força para ocupar uma tela toda, em planos fixos mais abertos, com personagens que entram, contam sua história e não retornam mais. Então a montagem, aquela articulação, não é exatamente o personagem que performa dentro da uma determinada cena, mas sim responde a essa ideia de uma conexão entre todas aquelas histórias.

CONTINENTE Estamos no Brasil de 2020 e muito se tem debatido sobre o cinema como ferramenta política. O filme que você e Pedro Maia de Brito fizeram é uma obra que se assume militante. Tem muitos realizadores brasileiros que, se por um lado ratificam que o cinema deve ser político, por outro optam por rechaçar qualquer inclinação panfletária, ou mesmo militante. No entanto, esse é um belo filme, um documentário urgente, e uma obra militante, já que você se posiciona como militante do MLB. Queria que você comentasse um pouco sobre isso, Aiano.
AIANO BEMFICA Bom, tem uma primeira coisa, que acho até que está na elaboração da sua pergunta, e de uma certa forma nos filmes que eu tendo a ver, que é a seguinte: tenho uma trajetória como assistente de direção, em vários outros projetos que são fonte de renda, pois nenhum desses filmes que fiz nunca pagou conta de casa. Enquanto realizador, e junto a todo mundo do MLB, posso dizer que esse filme foi construído a partir de dois entendimentos: primeiro, de que produzir imagens junto ao movimento não necessariamente significa produzir imagens para um filme. Nem todas as imagens são para o cinema, pois elas também são pensadas e produzidas a serviço de uma luta muito mais ampla e diversa. O cinema é apenas um dos territórios de imagens para as quais elas podem servir. E segundo é que seria algo inimaginável, uma vez que tenho uma relação orgânica com esse trabalho, e preciso ser honesto com as pessoas que filmo, que o filme não tomasse uma posição. Essa é uma posição do território, da ocupação, de estar com aquelas pessoas, e, por mais diferente que seja delas, penso nisso enquanto cinema também. Uma ideia de alteridade mesmo. Mas, é preciso entender também que o cinema muitas vezes é visto com uma ideia de soberba, como uma parte apartada do mundo. E essas imagens estão no seio de uma ideia, a serviço de uma causa. Com elas, posso fazer parte das disputas que estão na tela, como por exemplo, nos festivais de cinema e nos espaços outros que o cinema tem, que são espaços de circulação de ideias e imagens e de muita capacidade de produção de sentido. Assumimos um risco com essa característica do trabalho e reconheço que existem críticas a esse aspecto do filme. Porém, também reconheço que as curadorias e os festivais têm aberto espaço para esses filmes. Me interessa menos os filmes que estão no campo de uma elaboração estética rica para um cinema politicamente isento e mais aqueles filmes que são esteticamente elaborados e politicamente comprometidos.

CONTINENTE Gostei muito de ouvir essa sua colocação de que um filme pode ser politicamente engajado, militante, e também ter uma concepção estética elaborada. Não seriam proposições excludentes, e sim convergentes. Entre nós talvez estejam multidões reúne, na minha opinião, uma preocupação estética e uma posição política.
AIANO BEMFICA Sim. Elaboração estética é também uma preocupação política. Buscamos assumir isso, fazer um filme completamente transparentes com as pessoas com as quais dialogamos. Nada é aleatório. O desafio era responder justamente a esse chamado, esse desafio, de abrir o filme, de ser honesto com o que estávamos dispostos a filmar, de chamar aquelas pessoas para que elas se apresentassem e ocupassem o espaço do próprio filme, trazendo o que elas têm de mais forte, de belo, trazendo o que essa luta tem de forte e belo. Isso não quer dizer que conseguimos sempre. Outros cineastas teriam feito outros trabalhos, sem dúvida. Mas nesse filme buscamos trazer uma elaboração estética e construir política nas imagens.

LUCIANA VERAS é repórter especial da Continente e crítica de cinema.

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