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Passado, presente e futuro em colisão no Cine Ceará

Na 29ª edição do festival, longas-metragens da América Latina usam potencialidades do documentário e da ficção para dar conta de temáticas sempre atuais em um continente fraturado

TEXTO LUCIANA VERAS, DE FORTALEZA*

02 de Setembro de 2019

'Canção sem nome' estreou na Quinzena dos Realizadores

'Canção sem nome' estreou na Quinzena dos Realizadores

FOTO La Vida Misma Films/Divulgação

Durante mais de quinze anos, o Cine Ceará foi um festival voltado exclusivamente para a produção nacional. Desde o início dos anos 1990, quando apenas privilegiava obras em curta-metragem, rodadas em película ou produzidas em vídeo, só se abria como janela para o audiovisual brasileiro. Foi aqui, em Fortaleza, por exemplo, que o realizador pernambucano Kleber Mendonça Filho, codiretor de Bacurau, à época ainda atuando como crítico de cinema, recebeu um prêmio por Enjaulado (1997), como conta na entrevista publicada na edição deste mês de setembro, já nas bancas. Em 2006, o evento ampliou seu escopo para se transformar no Festival Ibero-Americano de Cinema e hoje abre sua mostra competitiva para representantes de outras cinematografias da América Latina.

Para este ano, o 29º Cine Ceará adicionou outro componente relevante além do recorte do que se tem produzido nos idiomas que reforçam a ideia de uma latinidade. “Para a edição deste ano, temos orgulho de anunciar que buscamos uma programação com cerca de 30% de filmes dirigidos por mulheres”, situou Margarita Ernandez, diretora geral de programação, na abertura do festival. Questões de gênero, afinal, merecem ser discutidas no âmbito da arte e para além das obras em si. Questões de gênero, afinal, merecem ser discutidas no âmbito da arte e para além das obras em si, como na seleção das mostras e na composição dos júris – algo que a Berlinale se comprometeu a fazer oficialmente na sua 69ª edição, como reportamos em março.

Pois bem, não por acaso, os três primeiros filmes encarrilhados na mostra competitiva ibero-americana tinham mulheres como diretoras ou coautoras e ainda em créditos e cargos principais. Indo além desse vínculo, Canção sem nome, Ressaca e Notícias do fim do mundo podem ser lidos, ainda, como uma espécie de enclave para o qual convergem passado, presente e futuro – nessa ordem em que aparecem descritos – de um continente cujas fraturas são expostas e dolorosas. Em ficção (Canção... e Notícias...) e no documentário, lançam olhares para questões que ainda nos assustam e que talvez, na tela e fora dela, estejam muito longe de quaisquer tentativas de solução. Daí a importância da reflexão promovida pela arte.

AO PASSADO: CANÇÃO SEM NOME
No original Canción sin nombre (Peru/Espanha/EUA/Chile, 2019), o filme estreou na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes em maio e em junho deu à cineasta peruana Melina León o prêmio Cinevision no Festival de Munique. Melina se inspira em fatos reais ocorridos em Lima em 1981, noticiados por seu pai, Ismael León, um jornalista do La Republica, periódico da capital peruana, em uma série de reportagens: o roubo de crianças nascidas em uma fundação beneficente (ou melhor, de fachada caridosa e práticas nada cristãs), bebês dados à luz em sua maioria por mães pobres, jovens e de ascendência indígena como sua protagonista Georgina (vivida pela estreante Pamela Mendonza com assombro e destemor).

Cineasta peruana Melina León | FOTO Chico Gadelha/Divulgação

Logo no início, dois aspectos óbvios capturam o olhar: a fotografia em preto & branco (belo trabalho de Inti Briones, que fez Banquete e Vazante, os dois últimos de Daniela Thomas) e a opção por usar o enquadramento no formato quadrado (aquele mesmo hoje mais atrelado ao aplicativo Instagram, porém usado nas transmissões televisivas mais antigas). E um nada óbvio, que só se desnuda quando conversamos com a diretora. "Queria usar o preto e branco porque estava contando uma história que não tinha cor nem horizonte, a história de uma vida roubada, e o formato televisivo para dar fidelidade à época. E apesar de ter me inspirado nos textos do meu pai, quis trazer o filme para o ano de 1988, quando a presidência de Alan Garcia estava preparando o caminho para a eleição de Alberto Fujimori. Ele seria eleito como o ‘diferente, o técnico que não era político’ e tudo era sinônimo de mentira", pontua Melina. Qualquer semelhança com Fernando Collor...

No enredo, Georgina encontra um aliado no jornalista Pedro Campos (Tommy Páraga), “um pouco inspirado no meu pai”, confessa a realizadora. Juntos, eles tentam denunciar a San Benito Fundación, a entidade cujo reclame no rádio atraiu Georgina para que lá pudesse parir. Pergunto a ela se o nome foi mantido: “Claro que sim. Como poderia trocar? É inacreditável que uma fundação com esse nome fosse uma máfia”. San Benito é São Bento, em português. Pergunto também sobre um cotejo com Roma, de Alfonso Cuarón, Oscar de melhor filme estrangeiro desse ano. “Bem, tirando o fato de serem narrativas em preto e branco com uma personagem que entra em trabalho de parto, não estamos encaixados, eu acho. Temos diferenças orçamentárias bastante grandes”, responde, sorrindo com discrição.

Canção sem nome arremessa, com pungência e força narrativa, um olhar ficcional para um passado de ferida ainda escancarada e não apenas peruana. “Não podemos esquecer o que se passou, ainda que seja um passado traumático. É preciso exorcizá-lo, pois tudo pode se repetir. Aliás, ainda se repete: há mulheres nas selvas peruanas que foram enganadas e hoje trabalham como escravas sexuais, da mesma maneira que outras mulheres pobres no Brasil são esterilizadas sem seu consentimento”, sustenta Melina León. Não há previsão, por hora, para lançamento comercial por aqui, mas a torcida tem que ser grande. Quantos filmes peruanos recentes você já viu?

NO PRESENTE: RESSACA

Ao alto, still do documentário, com bailarinos do Theatro Municipal; acima, os diretores Vincent Rimbaux e Patrizia Landi | FOTO Rogério Resende/Divulgação

Vertige de la chute, "a vertigem da queda", é o título em francês deste documentário que chegou ao Ceará para sua primeira exibição no país, referendado por participações em mostras prestigiadas como o FIPADOC, em Biarriz em janeiro, Full Frame (EUA) e no Dok.fest em Munique. Mas Ressaca (Brasil/França, 2019), a palavra escolhida para batizar o exercício documental assinado por Patrizia Landi e Vincent Rimbaux, talvez ecoe em potência e metáfora, de forma mais institiva, o tema que decidiram abraçar: o colapso financeiro do Rio de Janeiro e a crise que assola a primeira capital do Brasil a partir da situação dos bailarinos e funcionários do Theatro Municipal, que em 2017, no governo Michel Temer, chegam a ficar até cinco meses sem receber salários. 

"Filmamos durante um ano e meio, no meio e no auge da crise, e todos os artistas estavam à flor da pele", relata Patrizia. À Continente, ela respondeu sobre a polissemia do título - ao longo da narrativa, imagens de ondas a quebrar nos arrecifes espelha essa ideia de uma "ressaca" do mar, mas é inegável a ideia de uma ressaca etílica, da terrível sensação de mal estar e olvidamento que por vezes nos acossa em um assustador "dia seguinte": "Acho que essa é a ideia mesmo: depois de tudo que vivemos, tivemos essa sensação de queda, que está no título em francês, mas também da ressaca, do prenúncio de um tsunami". 

Vincent, francês que chegou para morar no Brasil "em fevereiro de 2003, no começo da era Lula", diz que um dos motores que os impeliu a efetivar essa coprodução entre a Cafeína Filmes e a francesa Babel Docs foi justamente "a queda". "Quando cheguei aqui, o Brasil era o lugar para se estar, os empresários queriam investir no país, veio a Copa do Mundo, depois os Jogos Olímpicos, e em seguida, esse mesmo país que vi se transformar, que vi mudar, sofreu uma queda muito brutal", comentou. Sobre o preto e branco que adorna e catalisa a tristeza a se abater sobre Marcia, Filipe, João e outros funcionários do Municipal impedidos de trabalhar como gostariam (ou mesmo de fruir a vida como previsto, posto que estão sem receber pagamento algum), o codiretor afirmou: "Sempre imaginei uma imagem do Cristo Redentor com o céu ao fundo, e sempre pensei no preto & branco para retratar a crise. Engraçado que a imagem nem entrou no filme, mas o p&b ficou. Não poderia ser diferente". 

Após a exibição no Cine Ceará, era possível perceber que muitas espectadoras tentavam se recompor, lágrimas escorrendo na face. O retrato do Rio de Janeiro pintado em Ressaca é desumano e atroz. Embora a narrativa seja cindida em atos que recebem o nome dos três personagens condutores (Márcia e Filipe, os primeiros bailarinos, ela que foge da crise para atuar na Áustria, ele que busca driblá-la se virando como motorista de aplicativos, e seu João, que há mais de três décadas se desloca de um violento bairro periférico para chegar ao respiro e à tranquilidade que o Municipal simboliza para ele), o desalento é constante.

É como um embate entre o que há de grandioso, celestial até, na arte e a fealdade do neoliberalismo e da hecatombe administrativa que acossou o Rio de Janeiro -  o mesmo Rio, aliás, que demoniza os artistas como de resto  também o faz o presidente da República, parece não querer receber o documentário. "Acabamos de estrear aqui no Ceará e queremos levar o filme para uma exibição no teatro, mas tem gente que não está interessada nisso. Vamos ver como fazer. Estamos em contato com uma distribuidora já, mas por hora não podemos adiantar", condensou Patrizia Landi. 

AO FUTURO: NOTÍCIAS DO FIM DO MUNDO

Cineasta Rosemberg Cariry, de Notícias do fim do mundo
FOTO Arlindo Barreto/Divulgação

Notícias do fim do mundo (Brasil, 2019) nasceu como Folia de reis. Corria o ano de 2010 e o cineasta cearense Rosemberg Cariry (Corisco e Dadá, de 1996, e Os pobres diabos, de 2013, entre outros longas) amealhou seus filhos Petrus  e Bárbara para aquela que seria as primeiras experiências em posições que hoje já dominam: ele na direção de fotografia (hoje Petrus assina câmera e direção nos filmes que realiza, a exemplo de Mãe e filha, de 2011, e O barco, de 2018, e Bárbara produz os longas do irmão, bem como também dirige). No enredo, o mestre Jacaúna (Everaldo Pontes, sensacional) é o líder de um grupo de reisado que sequestra o embaixador da fictícia nação de Golem (João Paulo Soares, do grupo paraibano de teatro Piolin). Não estamos em Fortaleza, e sim em Jenipapoaçu, um país inventado por Cariry para reunir todas as mazelas da contemporaneidade tupiniquim, e Jacaúna, sua rainha (Majô de Castro) e seus seguidores seguem a atravessar ruas e morros, favelas e avenidas, em um ônibus descrito pelo diretor como "uma nave transbarroca". 

Parece uma distopia, e decerto foi pensado como tal há quase uma década. "Penso que não somos nós que escolhemos os projetos, e sim eles que nos escolhem. O núcleo central da trama foi filmado em 2010, com essa idea transmoderna, transbarroca, como o ônibus como uma espécie de lugar para pensar o que entendemos do nosso país e em como vamos se abrindo para a História, como todos os nossos fracassos, fragilidades e ruínas", elaborou Rosemberg, que em Notícias do fim do mundo adota uma linguagem ágil, feérica em alguns momentos, até. "Tivemos duas semanas para filmar, e era como um filme de ação, e toda essa energia veio dele mesmo, de sua pulsação", recorda Petrus.

O tom é apocalíptico mesmo para um cineasta que sempre trafegou em vias para onde convergiam erudição e popular, profano e sagrado, tradição e fantasia. "Passei nove anos montando e remontando o filme até que decidi que era hora de entregar, pois não haveria um fim. Ao longo desse tempo, fui acrescentando outros personagens, mas a nave central, barroca, seguiu como principal", diz Rosemberg. No filme, a OPR - Organização dos Países Ricos envia tropas militares e um poderio bélico para invadir a pequena nação que ousou sequestrar um diplomata estrangeiro e toda a mídia internacional constroi uma narrativa a vilipendiar Jacaúna e sua trupe, que, por sua  vez, contam com um esquema alternativo de difusão, uma mídia popular, ninja e democrática.

Bárbara Cariry conta que, de R$ 200 mil oriundos de um edital estadual no já longínquo 2010, o orçamento se desdobrou - "tivemos que botar dinheiro nosso ao longo desses nove anos" - como as camadas de leitura que o filme traz, mesclando Antonio Conselheiro, misticismo, revanchismo, imagens rodadas por Rosemberg entre líderes católicos no interior do Ceará nos anos 1970 e textos de Gustav Jung, Edward Saïd, entre outros intelectuais. "A distopia que o filme mostrava em princípio ficou menor do que a realidade", reconhece o cineasta. "Acho que temos que fazer como Bacurau: ir aos museus, pegar em armas...", emendou Everaldo Pontes. 

Nesse filme, talvez ambientado num futuro não tão distante, talvez já acontecendo em alguma metrópole nossa por aí, Jenipapoaçu é o Brasil. "A geografia do filme é ficcional, composta por vários retalhos do Brasil... Tá lá o Morro do Alemão, tá lá a Rocinha...", descreve seu diretor. Porém, se na tela o Brasil se esvaiu em algum lugar na subserviência contra os tais países ricos e civilizados que metralham morros com seus helicópteros e quilombolas, pretos, indígenas, periféricos e brincantes da cultura popular tramam sua reação. E há no Brasil de Notícias do fim do mundo, como de resto no Brasil fora do Cine Ceará, a fagulha da resistência, o desejo de luta em meio à entropia e o revide à espreita. Avante. 

LUCIANA VERAS é repórter especial e crítica de cinema da Continente.

* A repórter viajou a convite da organização do festival.

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