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Resenha

Uma visita a 'Patrimônios periféricos'

Exposição de curadoria coletiva ocupa, com nove obras, salas do Paço do Frevo, no Bairro do Recife

TEXTO Taynã Olimpia

18 de Janeiro de 2022

Obra 'Altar dos erês'

Obra 'Altar dos erês'

FOTO Rennan Peixe/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

OCUPAR
Mais de 15 quilômetros separam Maranguape 1, localizado na periferia de Paulista, do Bairro do Recife, onde está o museu Paço do Frevo. De carro leva, em média, 35 minutos. De transporte público: quase uma hora e meia, pegando dois ônibus. Não só questões geográficas separam a periferia dos centros culturais do estado, há também barreiras simbólicas, aquelas mais difíceis de identificar e transpor. 

Os artistas Vênus Matos e Dodô Trajano são de Maranguape 1, Região Metropolitana do Recife. Junto a outros curadores iniciantes, eles deram vida a quatro salas do museu Paço do Frevo com a exposição Patrimônios periféricos. A mostra, que segue em cartaz ao longo deste primeiro semestre de 2022, conta com nove obras assinadas coletivamente pelo grupo. O resultado é fruto do programa Paço Criativo, que estimula a economia criativa na cidade e ofertou aos jovens oficinas de curadoria coordenadas pelo designer Arthur Braga.

O frevo é uma expressão artística periférica e que hoje, reconhecido como patrimônio cultural e imaterial, se distancia de suas origens. É significativo um espaço dedicado ao frevo comportar uma exposição que traz outras vivências da periferia, que são diversas, contemporâneas, mas constantemente invisibilizadas pelo circuito cultural.

“Na abertura da exposição, artistas que estavam com obras expostas lá estavam indo pela primeira vez ao Paço do Frevo. Foi reintegração de posse total. Nós vimos que o Paço do Frevo fez festa para a periferia entrar”, comenta Vênus em entrevista à Continente.

RESISTIR
“Traz para o museu a narrativa que as comunidades querem contar sobre elas mesmas.” É o que diz o material de divulgação da exposição. E, de fato, é isso que acontece. Adentrar a primeira sala de Patrimônios periféricos, no segundo andar do museu, é como abrir uma porta para memórias com a cidade. Uma das obras, chamada Pixe aqui, provoca os visitantes a deixarem suas marcas em uma das paredes da sala. É como andar pelos corredores dos colégios de bairro, revisitar espaços urbanos onde a palavra, sem convite ou permissão, está cravada nos muros.

"No corpo de curadoria, tínhamos muitas pessoas das artes urbanas, do pixo, então queríamos que nossas redes, as nossas amizades, estivessem de alguma forma na exposição. Queríamos deixar um lugar para que elas assinassem, marcassem suas presenças. 'Pixe aqui' é essa obra de liberdade, comunicação, expressão, fomento", informa Braga.


Foto: Taynã Olimpia

Mas, assim como a essência subversiva do pixo, os escritos se expandiram e ocuparam vários espaço do museu. No emaranhado de letras, lê-se de quase tudo: nomes, datas, poesia, palavras de ordem e desejos. É como ouvir as vozes daqueles e daquelas que passaram por lá. Inclusive, uma das frases que mais se repete (e ecoa) nas paredes é: “Fora Bolsonaro”. Talvez, seja interessante parar e escutar o chamado.

Dicumê é outra obra que ocupa o mesmo salão. Ao promover diálogo entre comida e questões sociais, traz representações de quentinhas (marmitas descartáveis) coladas na parede, ao lado dos dizeres de Josué de Castro estampados em caixa alta:

“A FOME É A EXPRESSÃO BIOLÓGICA DE MALES SOCIOLÓGICOS”

Um reforço nessa discussão é a presença de quentinhas vazias em contraste com outras cheias de alimentos – mariscos, camarão, pés de galinha, feijão e arroz –, ou poesia. Em uma delas, encontramos versos da artista Priscila Lins:

eu como os frutos
e planto histórias
toda árvore já foi broto
toda gente já foi semente
digerir o passado
degustar o presente

Já na parede que separa Dicumê do Pixe aqui, encontramos a instalação Cenário louco, cujo nome já indica o que os visitantes devem esperar. A começar pelo chão: lá está uma caixa de areia, semelhante àquelas que as crianças brincam, e dentro se encontra de tudo. Pega-vareta, pião, baldinho de praia, sandália remendada com prego, bombas d’água caseiras feitas de PVC, bolas de gude. Um olhar alheio talvez não perceba o que aquela desorganização organizada comunica. Mas quem decide absorver a obra é capaz até de escutar, com ecos da lembrança, os sons que rodeiam tais objetos. A gritaria dos pirraias brincando na rua sem calçamento, o barulho metálico do prego riscando o chão, as conversas dos jovens no Carnaval, quando corriam com as bombas hidráulicas na mão para molhar o próximo ônibus.


Instalação Cenário louco. Foto: Rennan Peixe/Divulgação

"Foi uma preocupação, em toda a exposição, de não ser uma coisa clichê de mostrar 'a periferia sofrendo'", comenta o artista Dodô Trajano, um dos curadores. “Toda a exposição foi montada com sangue e suor de pessoas da periferia, que estavam lá com vontade de fazer e construir aquilo, pois enxergavam a importância de trazer essas narrativas, histórias e obras.”

No mesmo andar, a obra Altar dos erês é montado por uma penteadeira sincrética, com ares de quarto de vó, onde estão dispostos elementos como velas, terços, santos, alfazema, ervas, figa e cristais. Por trás do móvel, vemos fotografias dos curadores quando crianças. É uma obra-oração, para celebrar e cuidar dos seus realizadores.

E por falar em realizadores (no plural), mesmo uma curadoria coletiva não seria suficiente para garantir representação mínima da arte das periferias. A estratégia, então, foi criar a obra mista Galeria periférica, que preenche uma das parede inteiramente com obras produzidas por artistas do Recife e região metropolitana. Ela fica de frente para a Narrativas periféricas, que reuniu nomes, depoimentos e fotos de realizadores sociais, que contribuem para o fortalecimento de suas comunidades fora do eixo artístico.

QUESTIONAR
A exposição Patrimônios periféricos também se faz presente em outro andar do Paço do Frevo, com duas salas de projeção, cada uma com uma instalação diferente. Entrar naquelas salas – herméticas e escuras – provoca imersão naquilo que está sendo dito. Em Gaiolas, os assentos para o público são dispostos atrás de uma gaiola de passarinho. Vazia, mas de portinhola fechada. Para ver o vídeo exibido é preciso enxergar através da estrutura da gaiola; uma vista enclausurada. Descobrimos, então, que mesmo fora, podíamos estar dentro dela.

Sensação que se conecta àquela transmitida pelo vídeo exibido, que fala dos enclausuramentos, físicos e sociais, impostos aos moradores de favelas. Ao sair da sessão, lemos um aviso do poeta Mau: “Os pássaros continuam a cantar enquanto teus ouvidos estão preocupados com qualquer barulho”. Mais uma vez, o convite à escuta está feito.


Obra Gaiolas. Foto: Rennan Peixe/Divulgação

A discussão continua na sala seguinte, com a obra Corpes dissidentes, instalação com vídeo e manequins customizados com figurinos carnavalescos. “Corpes dissidentes é manifesto, denúncia e celebração (...) Queremos sorrir e ser livres, porque simplesmente podemos”, diz o texto curatorial gravado na entrada. Desta vez, a temática recai diretamente sobre os corpos periféricos, que são constantemente objetificados, reduzidos e excluídos. Em especial os corpos trans, que sofrem com estranhamentos que vêm de fora e de dentro das periferias. “É falar dos corpos da periferia, que não estão de acordo com a lógica imposta”, explica Dodô.

CELEBRAR
Voltamos ao segundo andar para falar da nona obra: Não está no mapa. Não existe uma sequência fixa para visitar a exposição, mas decido encerrar o texto falando dessa por alguns motivos. Explico: é importante saber onde está. Mais importante ainda é saber onde se deve(ria) estar. A periferia existe porque os espaços do centro não acolhem todos e todas. Mas não significa dizer que o centro não é lugar da periferia. “Ocupe o que é seu por direito” é a frase, entre as várias que preenchem as paredes da exposição, que reitera o que digo.

Não está no mapa é sobre existir e não ser notado. No painel, com espaços em branco, os visitantes são convidados a preencher, com o nome dos bairros, afirmações que dizem: “Está no mapa”; “Existe”; “Resiste”. Uma, em especial, chama atenção – talvez pelo sua conexão imediata ao filme Bacurau (2019):  “Tem gente”. Na favela, na periferia, nas comunidades tem gente. E elas e eles merecem ocupar, resistir, questionar e celebrar onde, quando e como quiserem.

Além dos já mencionados Dodô e Vênus, os jovens curadores e coautores das obras de Patrimônios periféricos são: Aldeny Cavalcanti, Emerson Gomes da Silva, Jefferson da Silva Vitorino, Júlia Abage, Lalesca Alves, Luiz Phillipe Seixas Ramos de Barros, Maria Clara de Lima Santos, Maria Eduarda Gomes de Oliveira, Maria Gabriela Lima de Carvalho, Matheus Vinicius Das Neves, Maurício dos Santos, Micaela Almeida, MISS, Sales Pas Mesmo, Suennya Seixas, Súzan Araújo, Tuca Duarte, Vanessa Maria Rodrigues, Virginia Matos, Wictor OUTRO, Yana Ribeiro Teixeira, Zarthur Felipe da Silva.


Foto: Taynã Olimpia

TAYNÃ OLIMPIA é jornalista em formação pela UFPE e estagiária da Continente.

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