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Resenha

Sem Carnaval, mas com frevo

Músicos pernambucanos lançam a coletânea ‘O ano que não teve Carnaval’, a primeira voltada para o frevo nascida no contexto da pandemia

TEXTO Márcio Bastos

09 de Fevereiro de 2021

Detalhe da capa da coletânea

Detalhe da capa da coletânea

Ilustração João Lin

[conteúdo exclusivo Continente Online]

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O ano que não teve Carnaval, coletânea lançada neste 9 de fevereiro, Dia do Frevo, captura um momento singular de suspensão (e suspense). Há quase um ano sob os efeitos de uma pandemia que permanece descontrolada, e uma vez privados da coletividade, do afeto, do desejo, do toque, os brasileiros tentam entender como transitar por tempos tão duros e mórbidos, ainda mais massacrantes sem a perspectiva da explosão de sentimentos e sensações da maior festa popular do país. Organizado por Juvenil Silva, o projeto oferece diferentes visões de músicos pernambucanos sobre a sonoridade e as simbologias evocadas pelo período carnavalesco no imaginário dos foliões. 

Quatro décadas separam esta iniciativa das coletâneas Asas da América, idealizadas pelo compositor e produtor Carlos Fernando e que ajudaram a renovar o interesse no frevo em nível local e nacional. Participaram daquele projeto artistas como Alceu Valença, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Jackson do Pandeiro, Geraldo Azevedo, Marco Polo, Elba Ramalho e Flaviola. A ideia de Carlos Fernando era celebrar o frevo sem sacralizá-lo, espírito que ecoa na curadoria de Juvenil, músico cuja própria relação com o Carnaval é marcada pela (re)descoberta dos ritmos associados à festividade. 

“O Carnaval entrou para mim quando comecei a ouvir mais música brasileira e a tocar com a minha banda, Dunas do Barato, que me trouxe para o universo tropicalista. Mais novo, ouvia mais soul e rock. Nesse processo, me deparei com o frevo, que é um ritmo da gente, mas pouco utilizado de maneira mais experimental, ousada e popular. Minha vertente enquanto artista sempre foi de quebrar o tradicional”, explica Juvenil. “Então, comecei a escrever esporadicamente frevos com a Dunas, ao mesmo tempo em que, no meu trabalho solo, lido mais com sons psicodélicos. Me tornei um folião maluco – e entendo o Carnaval como a experiência mais psicodélica que alguém pode experienciar.” 

Esse movimento de experimentação com o frevo é compartilhado por vários de seus contemporâneos. Em O ano que não teve Carnaval, algumas dessas iniciativas lançadas ao longo dos últimos anos são agrupadas em uma amostra eclética das potencialidades musicais. Das 13 faixas presentes na coletânea, duas são inéditas: Você pensa?, da Dunas do Barato (que também aparece com a faixa Sai da calçada), e Calote na vida, de Evandro Negro Bento, que ganha um clipe dirigido por Juvenil Silva e lançado também neste 9 de fevereiro (veja no fim deste texto). 

Além deles, integram o projeto o próprio Juvenil (com a faixa Bloco do Amor Primo), Publius (Bloco do Nada), Marcelo Cavalcante (Alto do Bom Sucesso), Isaar (Estação ligeira); Ex-Exus (O bloco que você me deu), Júlio Samico (O Carnaval chegou), Feiticeiro Julião (Frevo na estrada), Manuca Bandini e André Macambira (Colibri), Graxa (O Carnaval promete) e Juba (Para brincar o Carnaval). 

No caso de alguns desses artistas, os ritmos carnavalescos já fazem parte do repertório sonoro, mas, para outros, é uma base de experimentação dentro de projetos artísticos que caminham por outras vertentes musicais. Juvenil explica que, além de possibilitar formas diversas de se relacionar com as canções e, em alguns casos, de descobri-las, o principal objetivo da coletânea é o de conscientizar as pessoas sobre a importância de manter o isolamento social para frear a pandemia. 

“Acima de tudo, a gente quer reforçar que o Carnaval, este ano, é em casa. Fizemos esse projeto com o objetivo de entreter a galera com um conteúdo interessante para tentar, mais uma vez, reforçar a necessidade de cuidar de si e do outro. Não tem Carnaval, mas tem frevo. E essa, inclusive, é uma questão que a gente quer pautar: o frevo não é só Carnaval. A gente tem que quebrar essa visão careta e quase folclorizada em torno dele. Não tem certo e errado na hora de trabalhar em cima dele: é uma manifestação musical livre, como é o samba, o rock, o jazz etc. Tem que tocar o ano todo, na rádio, nos shows e estar em discos que não sejam necessariamente de frevo ou com temáticas carnavalescas”, defende o músico. 


SEM BLOCOS NA RUA
Como aponta o jornalista e crítico musical José Teles no texto de apresentação de O ano que não teve Carnaval, a coletânea é a primeira voltada para o frevo nascida no contexto da pandemia da Covid-19 e carrega consigo um paradoxo: “Frevo não combina com isolamento social, não há gênero musical que reivindique tanta aglomeração. Mas a necessidade é mãe da invenção”. 

As faixas estão disponibilizadas gratuitamente através do YouTube, com a capa original criada pelo artista João Lin. Nas outras plataformas de streaming, como o Spotify, é possível encontrá-las em forma de playlist, uma vez que a maioria das músicas já estava no acervo dessas plataformas, em formato de singles ou como parte de seus álbuns de origem. 

Essa configuração ressalta ainda um fato interessante, de que esses trabalhos estão inseridos, em seus contextos originais, em discos que não são carnavalescos ou voltados especificamente para o frevo, reforçando a versatilidade do ritmo em diálogo com outras sonoridades. 

“O frevo e o forró, por exemplo, são gêneros que têm matrizes, sejam rítmicas ou melódicas, muito fortes e reconhecíveis e estão fortemente associados a períodos específicos. A coletânea mostra que, ao contrário do que alguns querem acreditar, eles conservam essas identidades, mas estão em contante transformação e vão ganhando novas roupagens. Principalmente para os artistas independentes, é quase inviável colocar na gravação um naipe de metais, uma orquestra, porque não há recursos para isso. Então, é preciso que os artistas usem a criatividade para trabalhar em cima do ritmo”, pontua Juba (nome artístico de Juliano Valença), cuja canção Pra brincar o Carnaval, que integra seu primeiro disco, Ethos, de 2020 (leia nossa resenha), se aproxima ainda do maracatu rural. 

Por conta da própria vivência ao lado de seu pai, Alceu Valença, uma referência no Carnaval pernambucano, Juba vive a festividade desde criança e entende suas reverberações afetivas e também na cadeia produtiva da música. Sua (necessária) suspensão tem impacto em vários profissionais que têm no período uma parte significativa de seus sustentos. 

“Este é um momento completamente atípico e acho que os músicos estão todos tentando se virar da melhor maneira possível, procurando outros meios de conseguir sobreviver com seu trabalho. É bem complicado porque o Carnaval gera uma economia muito grande, de quem está vendendo cerveja na rua até os músicos que tocam com orquestras no palco. A gente fica sem norte”, reforça o músico. 

Nesse contexto de adaptação e reinvenção, vários músicos e blocos têm buscado soluções para fazer circular suas obras e minimizar os impactos da suspensão do Carnaval, seja unindo forças, como no caso da coletânea, seja através de lives, lançamento de músicas ou campanhas virtuais.  No aspecto criativo, a produção também continua aquecida. 

Juvenil Silva e Juba, por exemplo, recentemente trabalharam juntos na música Cadê meu Carnaval, atualmente em fase de mixagem e masterização. A ideia é que a faixa seja lançada ainda durante o que seria o Carnaval deste ano – entre os dias 12 e 16 de fevereiro. Para o próximo ano, Juvenil também pretende lançar o projeto Frevodelic, no qual já está trabalhando. O projeto é uma expansão das experimentações com o ritmo que ele vem fazendo há alguns anos e sua ideia é continuar “profanando” o frevo a partir da fusão com sonoridades de inspiração psicodélicas.

MÁRCIO BASTOS é jornalista.

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