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Resenha

O encontro de Jorge du Peixe e Luiz Gonzaga

Vocalista da Nação Zumbi lança Baião Granfino, disco solo com regravações de mestre Lua

TEXTO José Teles

04 de Outubro de 2021

Pousando de 'crooner', Jorge du Peixe reverencia Gonzagão

Pousando de 'crooner', Jorge du Peixe reverencia Gonzagão

FOTO JOSÉ DE HOLANDA/ Divulgação

[Conteúdo exclusivo Continente Online]

Jorge du Peixe era atendente no guichê da Vasp, em agosto de 1989, quando uma multidão invadiu as dependências do Aeroporto Internacional dos Guararapes, no Recife. “Foi uma coisa que nunca vi antes lá, onde trabalhei durante seis anos. Era o povo acompanhando o corpo de Luiz Gonzaga. Acho que muita gente ali nunca tinha entrado num aeroporto na vida”, comenta o vocalista do Nação Zumbi, 32 anos depois. Naquela época, ele dava os primeiros passos na música, fazia parte de um grupo de break dancers, mas nem em sonho imaginaria que um dia gravaria um disco com músicas pinçadas da caudalosa obra do Rei do Baião.

“Luiz Gonzaga esteve sempre presente na minha vida, desde criança. No São João era o que tocava, a música dele estava por todo canto, é muito presente na Nação Zumbi. Chico vivia imitando na boca o contrabaixo da abertura [da música] O fole roncou”, conta du Peixe, em entrevista por telefone, de São Paulo, onde mora, à Continente. Ele lançou em setembro, o álbum Baião Granfino – Jorge du Peixe interpreta Luiz Gonzaga, um disco cujo embrião remonta há 2017, quando ele participou da série Clubversão (do canal HBO), cantando Manhã de carnaval (Luiz Bonfá/Antônio Maria), com o baterista Wilson das Neves (1936/2017). Um dos produtores da série era o músico Fábio Pinczowski, que manifestou a vontade de fazer um disco com Jorge du Peixe.
Pinczowski produziu um álbum de intérprete e a escolha do repertório caiu na obra de Luiz Gonzaga, a quem aprendeu admirar, e que Jorge du Peixe trazia em suas memórias afetivas. Não seria a primeira vez que cantaria Gonzagão.

Em 2001, a Nação Zumbi participou do tributo Baião de Viramundo (Candeeiro Records), tocando justamente O Fole roncou (Nelson Valença/Luiz Gonzaga), canção de que du Peixe diz que gosta tanto que, mesmo já sendo gravada por ele com a banda, não poderia ficar fora do álbum. As músicas de Luiz Gonzaga têm acompanhado sua trajetória, mesmo na Nação Zumbi: “Músicas que gravei como Sabiá, Qui nem jiló, quantas vezes vi Elba Ramalho cantar Gonzagão em eventos de que a Nação participou”, comenta du Peixe, acrescentando, que da bossa nova ao tropicalismo todos beberam no baião.


Capa do álbum Baião Granfino, projeto solo de Jorge du Peixe. Imagem: Divulgação

Ele já vem participando de outros projetos fora da Nação Zumbi, entre os quais o grupo Afrobombas e o livro/disco A Nave vai, com o artista visual Rodrigo Visca, mas Baião Granfino está sendo considerado sua estreia solo. Só que Jorge du Peixe não concorda: “Esta coisa de disco solo é um rótulo perigoso. Seria solo se fosse de repertório autoral, mas é um álbum de covers. Um disco de crooner. Eu estou na capa, meu nome está na capa, mas é um disco de todos que participaram. O álbum nasceu antes de apertar o rec-play, as intenções nasceram antes. A importância de Fábio foi primordial, neste tipo de trabalho a cumplicidade é fundamental”.

A foto da capa (de José de Holanda) aponta inclusive para a ponderação de du Peixe, que posa de crooner, o que deve causar estranheza aos gonzagueanos raiz, que se identificam com o forró senão de gibão, mas com um indispensável chapéu de couro: “Todo mundo quer encarnar o homem do sertão, mas o Nordeste não é só isso, Mas a ideia de modernizar é difícil, a matriz harmônica é muito presente neste disco, por mais que tenha elementos novos”.

CÁTIA DE FRANÇA
Além da cumplicidade entre Jorge du Peixe e o produtor Fábio Pinczowski, o trabalho sofreu interferências trazidas pelo acaso, como aconteceu com a participação da cantora e compositora paraibana Cátia de França que, na época da gravação de Baião Granfino, foi descoberta por a geração no início do século, fissurada em vinil, com o relançamento do seu álbum de estreia, 20 Palavras ao Redor do Sol (1979). Jorge du Peixe não conhecia o álbum, cuja capa lhe foi mostrada, numa mensagem de Whatsapp, por Jefferson França, irmão de Chico Science. Ele conhecia Cátia, porque quando trabalhava na prefeitura de Olinda, ela tinha uma namorada que também trabalhava lá e sempre aparecia.

"Absurdo o disco, com Sivuca, Bezerra da Silva tocando berimbau. Nesta época ela estava sendo revalorizada, e o disco teve uma edição especial em vinil, que comprei. Estava pensando no backing vocal. Aí Fábio sugere que a gente convidasse Cátia de França. Dois dias antes eu tinha comprado o disco", conta o cantor. Cátia, que mora no interior do estado do Rio, foi convidada e aceitou o convite com entusiasmo, o que transparece na gravação. Embora ela tenha gravado no Rio de Janeiro, e Jorge du Peixe e São Paulo, há um clima de camaradagem, de chistes durante a música que como se fosse gravada com os dois ao vivo no mesmo estúdio. Du Peixe conta que teve surpresas gratificantes com o disco: “Recebi uma ligação de Santanna o Cantador, elogiando o disco, e passou o telefone para Fátima Marcolino, filha de José Marcolino, que também elogiou a gravação de Cacimba nova, composição do pai dela”.

Jorge du Peixe ressalta também ser oportuno trazer Luiz Gonzaga para o atual momento do país - tanto o político quanto o sanitário: “A pandemia mexeu com o físico, o psicológico, o familiar. Quem não aprendeu, não aprende mais. Hoje temos um lado sombrio, bizarro, como estar num apocalipse. Neste governo, nos ministérios só gente sinistra, plano de saúde matando gente...Então é importante continuar cantando Luiz Gonzaga. Não é à toa que Assum preto abre o disco".

Ao mesmo tempo em que tocava o projeto Baião Granfino, Jorge du Peixe trabalha com os integrantes da Nação Zumbi, para um disco de inéditas do grupo, que decretou seu próprio lockdown, até agora não está aceitando os convites que recebe para voltar aos palcos: “Acho uma precipitação. A nação bateu pé. Se a gente fosse fazer shows ia juntar muita gente só da banda. A Nação está com várias músicas já gravadas, vamos finalizar o disco que deve ser lançado em 2022. Tem também um disco do Afrobombas, gravado em 2013, ainda sem mixagem, nem masterização. Duas faixas chegaram a ser mixadas e remasterizadas em Nova Iorque, levada pelo baixista Thiago Duar, no estúdio do canadense Scotty Hard, que fez a mixagem do álbum Futura, do Nação Zumbi (2006).

DISCO
Jorge du Peixe e o produtor Fabio Pinczowski não seguiram o figurino gonzagueano ao gravar as onze canções de Baião Granfino (Festa, de Gonzaguinha quase foi a 12ª faixa). As harmonias estão lá, a melodia também, mas a roupagem leva as músicas para outros caminhos. Assum Preto, que inicia o disco, tem arranjo sofisticado, a cantiga de cego vira canção urbana, com a melancolia acentuada.Ressalte-se a constelação de músicos e vozes que passou pelo estúdio de Fábio Pinczowski durante a gravação: Carlos Malta, Swami Jr., Siba Veloso, Pupillo, Mestrinho, Lello Bezerro, Bruno Buarque, Serginho Plim, Yaniel Matos, Gustavo Ruiz, Victor Rice, Bubu, Maria Beraldo, Lívia Nestrowski, Fábio Sá, Fábio Pinczowski, Sthe Araújo, Naloana Lima e Victória dos Santos.

A seleção foi cirúrgica, reúne clássicos manjados, como O Fole roncou, Pagode Russo (João Silva/Luiz Gonzaga), Sabiá (Zé Dantas/Luiz Gonzaga), e Que Nem Jiló (Humberto Teixeira/Luiz Gonzaga). Composições que, bem tocadas, são grandes sucessos. Baile Granfino, por exemplo, é a única parceria do fluminense Marcos Valentim com Lua, que a gravou apenas uma vez, num 78 rotações, em 1955. Outra raridade é Acácia amarela, de Orlando Silveira (1922/1993) e Luiz Gonzaga. Acordeonista, maestro, compositor de talento, Silveira compôs a música para a maçonaria (ele e Luiz Gonzaga foram maçons). O arranjo é cinematográfico, lembra tema de filme de Tarantino.

Pouco conhecida também é Rei bantu (Zé Dantas/Luiz Gonzaga), maracatu-canção, estilo híbrido que esteve em voga no Recife, de fins dos anos 1930, ao começo dos anos 50 (Capiba compôs pelo menos 15 maracatus-canção) , enquanto Sanfona sentida (Dominguinhos/Anastácia) ficou mais conhecida com Dominguinhos. Enquanto Orélia, apesar ter sido bastante executada em 1976, quando foi lançada, mas teve poucas versões. A música é de Humberto Teixeira que, por volta de 1968, reaproximou-se de Luiz Gonzaga, mas sem reatar a parceria.

JOSÉ TELES é escritor e jornalista especializado em música. Foi crítico de música do Jornal do Commercio de 1987 a 2020 e já escreveu sobre o assunto em diversas publicações do país.

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