Resenha

Labirinto onírico de Brennand

Livro "No labirinto do sonho - 50 anos da Oficina Francisco Brennand”, que traz análises sobre a obra do artista pernambucano, tem lançamento nesta terça (11), às 14h, na oficina na Várzea

TEXTO Carol Botelho

10 de Junho de 2024

Francisco Brennand, em sua oficina

Francisco Brennand, em sua oficina

Foto Fritz Simons/Divulgação

Uma visita à Oficina Francisco Brennand, na Várzea, pode ter como ponto de partida o Pátio do Templo, lugar central da cidadela erguida pelo artista plástico Francisco Brennand (1927-2019) ao longo de sua vida. Local com características surrealistas fantásticas em que a arte desponta a céu aberto, interagindo com a olaria, o ateliê e a terra que ocupa — uma mata preservada dentro do bairro recifense que Brennand assim definia: “A Várzea é o meu centro do mundo” —, em uma intersecção quase orgânica. Neste pátio fica o ovo primordial, o início da vida, do sonho e do percurso labiríntico que agora completa 50 anos. Para celebrar a data, o espaço lança a publicação No labirinto do sonho — 50 anos da Oficina Francisco Brennand, nesta terça-feira (11), das 14h às 16h30, no Teatro Deborah Brennand, dentro do museu. A data escolhida para o lançamento da obra no Recife — já ocorreu lançamento em São Paulo - é a mesma do aniversário do artista, que faria 97 anos. Neste dia, a entrada na oficina será gratuita. E o livro terá preço promocional de R$ 42 - depois, interessados terão que desembolsar R$ 197.


Capa do livro editado pela Oficina Brennand
Foto: Divulgação

Escrito a muitas mãos — as tantas que construíram e refletiram o monumento — o livro revela o lugar onírico de arte, mito e espiritualidade, jamais estático, sempre em movimento, tal como a vida, o tempo, a natureza e o humano. O labirinto é uma construção mitológica erguida a partir da gigantesca erudição do artista, dos muitos livros de seu ateliê, das intermináveis pesquisas, da eterna cerâmica pela qual caiu de amores desde que Picasso ao material o apresentou, e dos seres vivos. Inclusive os microscópicos. A bióloga Cecilia Toro escreveu, em 2001, um artigo para a Revista Chilena de Historia Natural em que defendia um inconsciente coletivo biológico, em que o humano carrega memória escrita nos átomos e moléculas que fazem parte do universo que habitam. Sendo assim, diz a autora, “não estranha, portanto, que Brennand afirme que a argila tem memória, pois, na sua constituição molecular, está essa memória”. 

É também labiríntica a maneira como o livro foi construído, editorial e conceitualmente, pois compila artigos escritos por curadores, colaboradores, familiares e críticos, em épocas diversas, visto serem textos atemporais e, portanto, atualíssimos para refletir a obra do Mestre da Várzea. A cronologia é linha reta que se faz questão de tumultuar, em nome de vida e produção dinâmicos. “A oficina é um organismo vivo que se nutre da diversidade de olhares sobre o acervo do artista e do espaço que ele ergueu com a ajuda de muitos, a partir de um ideal próprio nos anos 1970”, diz o prefácio do livro, organizado por Ariana Nuala (gerente de educação e pesquisa), Olívia Mindêlo (gerente artística do museu) e Júlia Rebouças (ex-diretora artística da instituição). Esta última define a oficina como um potente espaço de criação, pesquisa e difusão artística constituída, segundo ela, “de mata e rio, feita de barro e fogo”. 


No Portal da Ponte de Ferro, o símbolo da oficina, ofá,
arma divina de Oxóssi. Foto: Guilherme Licurgo/Oficina Brennand

O livro de 304 páginas traz textos e imagens (ensaios visuais) que se desenham em quatro tomos: A ruína como princípio, Um fio que tudo perpassa, O poder do fogo e das formas e Um chamamento de arco. O símbolo da oficina — um arco e flecha, a arma de Oxóssi, divindade das religiões africanas — Brennand conheceu em viagem a Salvador em 1956. “Fiquei hipnotizado pela figura de Oxóssi, este arco e a flecha estilizados. E determinei que seria, definitivamente, a marca do meu ateliê, da minha oficina”, disse Brennand, em entrevista ao jornal O Povo, em 2006. O compositor, cantor e poeta Tiganá Santana reflete sobre o que chama de escultura-flecha: “O ofá é a tentativa de se modelar a espera, na cerâmica, quando os dedos parecem de ferro”. 


Vista aérea mostra a área da oficina, no bairro da Várzea
Foto: Breno Laprovítera/ Oficina Brennand

A influência africana na obra de Brennand e a leitura um tanto simplista do caráter erótico e primitivo de suas obras é apontada pelo curador Emanoel Araújo, em texto de 2004, em que sugere pensar em um Brennand antropofágico dos anos 1970, “quando a representação da natureza na sua obra tinha a grandeza da fertilidade da terra, a sensualidade suada do gesto grande, eloquente e brasileiro, e tão brasileiro que levou a que o expusessem numa bienal como ‘primitivo’. E como diria Mário de Andrade: ‘Primitivo em relação a quê’?”.

Apesar de nunca ter tido oportunidade de perguntar a Brennand o porquê da marca de sua cerâmica, Emanoel preferiu supor que, “tal como Oxóssi, também Brennand é um caçador, dono do tesouro das formas invisíveis que se escondem na mata e que capta e modela para colocá-las nos espaços mágicos da Várzea”. Aquele homem elegante a caminhar de bengala seria, segundo o curador, “a maior obra do universo”. 

SERVIÇO
Lançamento do livro No labirinto do sonho — 50 anos da Oficina Francisco Brennand
Onde: Teatro Deborah Brennand — Oficina Francisco Brennand (lançamento seguido de roda de conversa)
Quando: Terça-feira (11), das 14h às 16h30
Quanto: Acesso gratuito

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