Resenha

Jorge Drexler compõe com o tempo

Em seu novo disco, ‘Tinta y tiempo’, artista uruguaio traz o contexto da pandemia e dos 30 anos de carreira para fazer canções que celebram a vida, os encontros e a música

TEXTO Márcio Bastos

25 de Julho de 2022

Em 2005, Jorge Drexler ganhou o Oscar de Melhor canção original por ‘Al otro lado del río’, trilha do filme ‘Diários de motocicleta’

Em 2005, Jorge Drexler ganhou o Oscar de Melhor canção original por ‘Al otro lado del río’, trilha do filme ‘Diários de motocicleta’

Foto Anton Goiri/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

leia ouvindo

Tinta y tiempo, novo álbum de Jorge Drexler, foi um trabalho desafiador: começou a ser concebido durante a pandemia, mas logo o músico percebeu que não seria possível concluí-lo no isolamento. Foi então que o disco foi tomando um caminho peculiar, com temas acionados/atravessados por sentimentos que ele vivenciou na crise sanitária e social, mas que falavam sobre questões atemporais – ou melhor, sobre vários tempos, como o próprio título indica. Um dos artistas sul-americanos mais influentes das últimas décadas, o uruguaio mantém-se em constante evolução, resultado de uma inquietação interna que faz com que a música se mantenha sempre irrigada, vibrante, frutífera.

Em conversa com a Continente, Drexler contou que, apesar dos compromissos com a imprensa, estava em um momento de descanso, pois, em setembro, inicia uma robusta turnê por vários países, incluindo o Brasil. Pernambuco, infelizmente, não está na rota dos shows, mas o artista guarda boas memórias do estado. Ele contou que conhece o Recife e Olinda, cidade na qual chegou a passar uma temporada quando veio visitar amigos percussionistas e capoeiristas. “Aprendi a tomar café no Recife. Antes, eu não gostava, mas aí comecei [a ter o hábito]”, lembrou, citando ainda que gostaria de voltar à “terra de Chico Science”. 

Jorge previu que os próximos meses serão “muito loucos” com a correria da turnê, mas se mostrou empolgado em voltar para a estrada. Até porque esses encontros com o público e com outros músicos e culturas são essenciais para o seu processo criativo, como ele descobriu durante a feitura de Tinta y tiempo

“Foi bem difícil para mim [compor durante a pandemia]. Eu não sabia até que ponto a composição também era uma experiência que precisa de um estímulo externo, da presença do outro, do ouvinte. Eu sempre achei que, evidentemente, meu trabalho tinha uma parte exterior, que eram os shows, e uma parte interior, que era a composição, mas não é assim. O isolamento me produz uma dificuldade muito grande: eu escrevia muito, mas não acabava as músicas”, relatou. “A ausência de contato me fazia deixar as músicas em 80% do caminho e não chegar até o final. Eu entendi, então, que o ato de compor também, para mim, é um ato de comunicação. Então, se tiro a comunicação, tem uma parte da composição que não consigo atingir, porque aparentemente as últimas etapas da composição têm a ver com o outro, o ouvinte, com quem está na frente. Você acha que está sozinho no mundo, mas o tempo todo você vai jantar na casa de amigos, tem um show com a banda, uma passagem de som onde você experimenta as músicas e mostra para os seus companheiros de trabalho. Quando eu perdi essa interação com o outro, perdi uma parte importante da composição, mas, quando retomamos essa possibilidade, todas as músicas saíram muito rápido.” 


Foto: Anton Goiri/Divulgação

Diante dessa dificuldade, o cantor e compositor, que em 2005 ganhou o Oscar de Melhor canção original por Al otro lado del río, trilha do filme Diários de motocicleta, de Walter Salles, quis fazer um trabalho que se opusesse à atmosfera sombria do momento pandêmico. 

“Comecei escrevendo sobre a pandemia diretamente, sobre o medo, as máscaras, a distância, as telas, mas chegou um momento em que não queria levar essa temática para a rua, para a turnê. Foi aí que comecei a deixar essas músicas e escolher outras que falam mais sobre outras coisas, as que quando você perde e (por isso) aprende a dar valor. O disco é mais luminoso do que o período, não é fiel ao sentimento em que foi feito. É um disco que pega a cor do caminho do retorno à normalidade; tem um ponto de euforia e celebração. Apesar de ter sido escrito durante a pandemia, é feito já saindo dela”, disse.

O DISCO
Um tema muito presente no álbum é o do fazer artístico. Ao longo de faixas como Tinta y tiempo, ¡Oh, algoritmo! (parceria com a israelense Noga Erez) e Amor al arte, ele reflete sobre o seu ofício enquanto músico, exercício que foi intensificado por algumas mudanças que ocorriam na sua vida, incluindo a mudança de gravadora e os 30 anos do lançamento de seu primeiro disco, La luz que sabe robar (1992).

“O disco tem muitas metacanções – canções que falam do ato de fazer canções, como metapoesia. Em Tinta y tiempo, é como se eu falasse comigo e me fizesse lembrar o que eu faço. Aconteceram muitas coisas juntas, na verdade. Três muito importantes para mim, que influenciaram muito essa sensação que tive, da dificuldade de compor. A primeira foi a pandemia porque o isolamento foi muito duro para mim. A segunda, o mundo das expectativas. Eu tinha mudado de gravadora, assinado com uma nova e todo o entusiasmo que isso carrega. Você quer dar o melhor de si porque toda a equipe tem uma expectativa e você quer corresponder – e isso acaba sendo pesado. As expectativas não são boas nunca para a composição. Por isso, falo para mim: “No está tallado en granito” (“Não estás esculpido em granito”, em tradução direta). Tira o peso disso porque não é granito. Solta no vento as músicas, esquece o peso porque tudo vai em direção ao esquecimento, então escreve com liberdade, solta ao vento”, contou o artista.



“A terceira coisa que foi pesada é que este ano fez 30 anos do primeiro disco que lancei. Quando você faz 30 anos de carreira, isso também é outro tipo de exigência e de peso. Você começa a sentir o peso da história de sua própria música. Vai escrever e pensa: eu já escrevi isso, já tentei isso. É cada vez mais difícil, para mim, escrever, esquecer a história da minha música e começar de novo. Por isso o disco tem tanta reflexão sobre o fato de compor. Tem muito desejo de recomeçar, de voltar a ser um principiante, de voltar a ter surpresa, experimentar o desconcerto, de renascer. Tem também a ver com o fato de conseguir espontaneidade e ingenuidade depois de 30 anos de carreira. Essas três coisas fizeram muito difícil um processo que sempre foi difícil para mim, que é compor, escrever”, reforçou. 

Outras questões que permeiam o novo conjunto de dez canções são o amor, o efêmero, as relações e a passagem do tempo. Jorge Drexler inicia o álbum com El plan maestro, uma parceria com o panamenho Rubén Blades, um dos artistas favoritos do músico uruguaio. A faixa aborda o encontro entre duas células distintas, lá no Mesoproterozóico, há 1,6 bilhão de anos, quando se iniciou a evolução da reprodução sexual e, por consequência, da biodiversidade. É uma reflexão sobre a força dos encontros, das trocas, do amor e da pulsão de vida, sentimento também presente na sedutora Tocarte, com o espanhol C. Tangana – e também o início de uma jornada poética que ele encerra em Duermevela, última faixa de Tinta y tiempo, escrita em homenagem à sua mãe, falecida há três anos, e que conta com a participação de seus filhos. 

“O disco começa com a nota mais grave da orquestra, o contrafagote – a mesma nota que o finaliza o álbum. Não é um caminho linear, mas sentia que a primeira música claramente seria a primeira e a última idem. Desde o começo sabia o começo e o final, não sabia o meio”, contou. “Estou contente com o disco, também tem uma coisa musicalmente muito importante para mim, que é a presença da orquestra, um símbolo do colorido, oposto ao cinza da pandemia, à ausência de cor. É um símbolo do comunal oposto à solidão da pandemia. Eu queria que soasse cheio de cor.”

BRASIL
Com uma relação forte com o Brasil – já tendo colaborado com vários músicos daqui, como Gal Costa, Marisa Monte, Anavitória (“As mulheres brasileiras têm sido muito importantes nessa fase da minha carreira”), Djavan, Milton Nascimento, entre outros –, ele observa atentamente o turbilhão político que o país atravessa nos últimos anos e torce por dias melhores.

“Tudo que você faz agora no Brasil tem uma interpretação extra pela dureza da realidade que o país viveu nesses últimos anos. Todos estamos torcendo para que esse período escuro, horrível, triste, esquecível, retrógrado da história brasileira acabe. Eu sou um amante da democracia. Eu não preciso que o meu país seja sempre governado por quem eu voto. Eu concordo que tenham outras pessoas que pensam diferente de mim no poder, porque assim é a democracia, então que bom aceitar também que às vezes ganha quem você não votou. Mas, quando o clima de convivência em um país se vê alterado de uma maneira tão violenta, antidemocrática, retrógrada, como aconteceu no Brasil, tudo se deteriora. Foi um período horrível para todos os meus amigos músicos, artistas, todo mundo passou muito mal. Estou dizendo com muita felicidade que senti (que esse período), espero que seja verdade, se acabava quando ouvi, muito emocionado, a música Que tal um samba?, de Chico Buarque. Além de ser linda, como tudo que Chico faz, achei que já estava falando em tempo passado, não fala mais do problema, não o nomeia, já olha para a frente. Acho que mesmo em uma separação de um casal, o momento real em que a separação é consumada, é quando você já nem pensa na pessoa, nem odeia. É importante deixar, como se não fizesse mais parte do seu mundo. Essa letra é incrível”, enfatizou, cantando um trecho da música de Chico Buarque.



MÁRCIO BASTOS, jornalista cultural e mestrando em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco.

Publicidade

veja também

Alceu ganha exposição em Olinda

Sem Coração chega aos cinemas

Mergulho no fascínio de Clarice