Resenha

"I want your sex" é um clamor à Geração Z

Mais de dez anos depois de lançar seu último filme, o cultuado diretor nipo-americano Gregg Araki retorna ao cinema com um longa-metragem sobre repressão e desejo sexual

TEXTO Laura Machado

21 de Outubro de 2026

Foto Magnolia Pictures/Divulgação

No ano de 1987, portando uma câmera fixa e orçamento de US$ 5 mil, o cineasta nipo-americano Gregg Araki fez sua estreia no cinema com o filme Three Bewildered People in the Night. Trazendo o tema da sexualidade fluida, a obra mergulha na relação indefinida de uma mulher e dois homens e marca a primeira de muitas experimentações sobre identidade, erotismo e rebeldia de Araki no cinema.

Naquele momento da história americana – e mundial – a epidemia da Aids avançava como uma peste sobre a população e com diversas mortes dentro da comunidade queer, o grupo sofria com o preconceito latente. Como consequência direta, a década de 1980 também foi marcada pela efervescência do ativismo LGBTQIAP+, que se levantava por direitos e respeito a seus integrantes. É impossível dissociar este contexto histórico da criação cinematográfica de Gregg Araki. 

O cineasta foi um dos precursores do movimento batizado de New Queer Cinema (Novo Cinema Queer), que se caracteriza por tratar de temas como juventude, sexualidade e a busca por si mesmo da perspectiva de personagens queers e/ou marginalizados. Em suas obras mais aclamadas, Estrada para Lugar Nenhum (1997) e Mistérios da Carne (2004), essas características ficam muito claras. De modo geral, os filmes de Araki são regados a rebeldia e melancolia, mas também parecem ser recortes de vida daqueles que se arriscam – talvez porque não tenham outra escolha. 

Suicício entre jovens gays, abuso sexual, vício em drogas, violência, alienação parental e a epidemia da Aids. Todos esses são assuntos tratados de forma direta ou indireta nos filmes de Gregg Araki. Seus personagens estão inseridos em um mundo cheio de problemas, são instigantes e bem construídos, sem ceder à histórias típicas de mocinhos e donzelas alheios ao seu ambiente. Em suas obras os personagens são de sexualidades diversas, usuam drogas, fazem sexo, são rebeldes que não se encaixam nos moldes da sociedade.

Justamente por isso, com a ascensão da extrema direita e valores conservadores durante os últimos anos, o diretor de 66 anos decidiu que seu novo filme, I want your sex, seria um clamor para que os jovens de hoje olhem novamente para a sexualidade. 

“Eu não quero dizer que toda a Geração Z, mas uma parte deles vive uma vida protegida e não sai muito da concha. É como se eles tivessem medo de cometer um erro, sentir desconforto ou ter uma experiência que não seja incrível”, afirmou Araki para o jornal The Guardian.

No longa, Cooper Hoffman é Elliot Bell, um jovem – parte da Gen Z – recém-saído do mundo universitário que consegue um emprego como assistente da renomada artista contemporânea Erika Tracey (Olivia Wilde), cujo trabalho se relaciona diretamente com sexo e sexualidade. Pouco tempo depois de contratado, Eliot inicia uma relação BDSM (Bondage, Disciplina, Sadismo, Masoquismo) com a chefe. 

Assim como a trilogia “Teen Apocalypse” – composta pelos filmes Totally f***ed up, The doom generation e Nowhere –, I want your sex se volta para um protagonista jovem em uma jornada de descoberta de si, que também está relacionada à sexualidade. 

I want your sex se utiliza de dados concretos de que a geração Z é menos engajada sexualmente para criar personagens intencionalmente caricatos, que acreditam no sexo como salvação ou ruína, sem meios termos. 

Em tramas famosas do cinema como A Professora de Piano (dirigido por Michael Haneke e estrelado por Isabelle Huppert), a relação entre uma mulher mais velha e um homem mais jovem estão presentes. Mas enquanto estas obras costumam retratar discussões de poder e repressão sexual, o novo lançamento de Araki quer dizer que tudo bem fazer loucuras e tudo bem se seu prazer sexual surge de uma maneira diferente daquilo esperado e retratado como normal.

Durante o filme, o personagem de Cooper Hoffman passa constantemente por situações constrangedoras e às vezes fora de seu controle. Porém, ele ainda sai de tudo aquilo compreendendo melhor sobre seus desejos, fantasias e escolhas. De forma caótica, I want your sex é como se Gregg Araki estivesse rindo com a gen Z e não dá Gen Z. Mesmo aos 66 anos, ele ainda parece entender os medos dos mais novos. No entanto, clama para que eles superem esses anseios, se entreguem ao processo de autodescoberta e se desprendam do conservadorismo. 

Mais uma vez ao Guardian, Gregg Araki apontou o mundo ao redor e falou sobre seu novo longa: “Atualmente as coisas estão piores do que nunca. O nível de puritanismo, tirania, repressão e cancelamento [...] É por isso que o filme termina com a música 'Free Yourself' de Jessie Ware. Eu absolutamente acredito em ‘faça amor, não guerras”. 

“Don't stand there waiting all of your life
Não fique aí esperando toda sua vida

For the night to come and find you
Pela noite vir e te encontrar

The clock is ticking, baby, now is the time
O tempo está passando, amor, a hora é agora

For someone to come and hold you"
De alguém vir e te agarrar

veja também

O horror e a luxúria em “Labirinto dos garotos perdidos”

Um baú de joias mnemônicas

Wagner Moura no Tribunal da Pós-verdade