Resenha

Flaira Ferro lança Afeto radical

Em novo álbum, cantora, compositora e dançarina pernambucana traz poéticas do cotidiano, em uma mistura de sonoridades globais com os sons da cultura popular

TEXTO Rostand Tiago

04 de Abril de 2025

Foto Matheus Melo/Divulgação

Nem mais promessa, nem mais uma artista para se ficar de olho. Flaira Ferro se consolidou na última década como um dos mais fortes nomes de sua geração na música pernambucana, entregando ao mundo, na última semana, seu terceiro disco solo de estúdio, batizado Afeto radical. Uma década após o lançamento de seu álbum de estreia, Cordões umbilicais, a pernambucana mantém importantes traços de seu trabalho, como um lirismo engajado, uma expansividade que mistura sonoridades globais como o rock com os sons da cultura popular pernambucana, mas que agora carrega também diversos amadurecimentos, tanto da sua pesquisa estética que vem desenvolvendo ao longo dos anos com seu trabalho, como no desenvolvimento de seus processos de criação e de sua rotina. 

Afeto Radical parece ser um trabalho que, por meio da agitação, das levadas enérgicas e dos arranjos efervescentes, exalta a liberdade que a possibilidade de uma vida calma, contemplativa, desacelerada e de rotinas sólidas também traz, criando um cativante contraste. A radicalidade de poder “ser o que der na telha”, ser rock, ser frevo, ser eletrônico, ser orgânico, ser amiga, ser mãe. 

“Sonoramente, minha pesquisa busca essa estética que transita entre os ritmos da cultura popular, que é onde nasce minha carreira, além de uma necessidade expansiva que o rock traz, e me abrir a uma vulnerabilidade, trazendo para a poesia emoções e sentimentos vividos. Acredito que esse disco seja uma maturidade desse estudo, esteticamente falando. O Cordões Umbilicais tinha vindo de um lugar menos pensado, mais impulso. Agora não, eu já tinha esses trabalhos anteriores, nos quais pude descobrir essas estéticas e explorá-las. Mas mantenho essa relação da música como uma ferramenta de autoconhecimento, de aprender a ressignificar o que vivi e trazer poesia para o cotidiano”, afirma Flaira Ferro, em entrevista ao site da Continente.

 

Flaira retoma suas experimentações com a música popular pernambucana, em especial o frevo que sempre tem um lugar cativo em seus trabalhos, com outras sonoridades, construindo músicas em um processo coletivo. Ela se junta a nomes como o produtor carioca Kastrup e sua bagagem com o rock e a música contemporânea experimental, contando com trabalhos de artistas como Zeca Baleiro e Elza Soares - assinando, inclusive, a produção do arrebatador Mulher do Fim do Mundo, de 2015 -, e os pernambucanos Henrique Albino, Lucas Dan e Miguel Mendes, que possibilitaram criações de texturas a partir de suas afinidades com a música experimental, a sanfona, o frevo, o reggae, os beats e a música pop. 

Os cinco entraram em um processo de imersão na busca pelas misturas que compõem o Afeto radical, passando uma semana realizando o levantamento de músicas, criação de arranjos e confluência de ideias, entendendo as emoções e as estéticas que seriam executadas. Nesse panorama de misturas, também acaba entrando em cena a faceta artística de Flaira Ferro ligada à dança. Seu corpo acaba sendo parte ativa desse processo de criação, convertendo seus gestos anatômicos em música e poesia.

“Eu gosto de entender o cantar como uma continuação do dançar. A separação entre essas duas coisas se dá muito mais em um sentido didático. Mas, na prática, cantar é dançar. Isso me ajuda a direcionar a intenção das palavras e eu também me sinto mais afinada. Irrelevar (terceira faixa do disco), por exemplo, usamos o primeiro take, que foi justamente quando cantei visualizando um palco e a dança nele. Quando não danço, as coisas ficam mais tensionadas, travadas e busco um estado de relaxamento. No compor também, quando crio uma poesia ou uma melodia, observo meu corpo, as tensões e os estados corporais que me levam a uma outra poética. Houve também uma questão hormonal, havia momentos em que cantava e parava para amamentar meu filho. Então, havia um corpo vivo, cheio de ocitocina, com meu filho ali junto, e não quis deixar nada de fora, por mais que não seja tão perceptível no resultado final”, elabora Flaira. 

Nesse sentido, Flaira continua a imprimir momentos importantes de sua vida em seus trabalhos, que acabam, de certa forma, compondo uma espécie de álbum de fotografias dos modos de vida, relações e mundos em que vive nos momentos de criação. Também é uma continuidade de um exercício artístico que possui uma faceta terapêutica. Ela lembra que o cantar não entrou em sua vida por desejos de ser cantora. Antes de ser um processo de formação musical, foi um processo medicinal, começando como uma terapia para problemas que possuía em suas cordas vocais, mas que logo passou da cura fisiológica para uma jornada de autoconhecimento. 

E todo esse aspecto terapêutico ganha vazão nas poéticas do Afeto radical. Flaira celebra os cuidados e a nutrição da vida a partir de um lugar de observações sobre o ritmo da vida contemporânea, se permitindo desacelerar e encontrar radicalidade também na calmaria e no se cuidar. Deixar “a beleza da vida desarmar a revolta” ou “desapegar da boba ilusão de que é bonito ser doidão”. Mas não em um sentido conservador da coisa, mas de entender como se manter vivo e bem também pode ser revolucionário.

“Eu vivia ali o momento de puerpério e sentia essa necessidade de falar sobre coisas que nutrem vida, seja no campo físico, psíquico, espiritual, poesias e melodias que não fiquem apenas na lógica da agressividade e da luta. São partes importantes da nossa natureza, eu acredito na raiva como forma de emancipação, mas não somos só isso. Mas entendo que também há uma questão geracional na música, pensando momentos históricos como na década de 1970, de opressões que fez uma geração de artistas buscar liberdades de expressões de uma forma mais violenta, fazer o uso de drogas e outras coisas que pudessem emancipar, abrir a cabeça e levar para outros lugar. Uma realidade muito compreensível de comportamento de liberdade, de escolha, de expressão de vida”, conclui Ferro. 

ROSTAND TIAGO, jornalista.

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