Reportagem

SP-Arte e o golpe pateta

21ª edição da feira de arte, de 2 a 6 de abril em São Paulo, traz negócios, design e obras inéditas que refletem o agora e servem de termômetro para o que vem por aí

TEXTO Carol Botelho

03 de Abril de 2025

"Glope", de Lourival Cuquinha, materializa a tentativa patética do golpe de 2023. Em exposição na SP-Arte

Foto Filipe Berndt / Cortesia

Mercadológica, a SP-Arte é considerada importante vitrine, termômetro, guia, referência do setor artístico e, agora mais do que nunca, do design brasileiro. Nem tudo está à venda. “Arte para sentir, viver e se conectar”, diz o tema desta 21ª edição, que acontece de 2 a 6 de abril, no pavilhão da bienal, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, reunindo 200 expositores.  Fazer contato entre curadores, galeristas, artistas, e agora designers, colecionadores e público geral é oportunidade para quem facilmente chega à capital paulista para ver e apresentar obras inéditas ou históricas, discutir tendências - a arte não escapa dos modismos - e apontar “promessas”,  ou seja, novos artistas legitimados pelos seus pares ou por curadores ou por galerias ou pela pura sorte que o talento precisa. Nesta  edição, a feira de negócios de arte resolveu apostar no design como carro-chefe. Talvez para agradar o mercado, esse ser tão inanimado quanto bajulado.

Fato é que a feira faz conhecidos no mercado nacional e internacional galerias e artistas pernambucanos. Daqui foram para lá as galerias Amparo 60, Garrido e Marco Zero. Com curadoria de Daniel Donato, a Marco Zero apresenta a exposição “Insólito Fim”, “interpretando os conceitos de término, transformação e renascimento”, diz o release. A obra central “Apocalipse de Tereza ou A Serpente”, de Tereza Costa Rêgo, dialoga com outros trabalhos de Montez Magno, Leonilson, Ismael Nery, Regina Parra, Rayana Rayo, Bruno Villela.

Em outro estande, a Marco Zero conta com curadoria da pernambucana Clarissa Diniz para promover uma costura artística entre o mineiro Advânio Lessa, a surrealista Maria Martins e a brasileira-suíça Mira Schendel, “evidenciando como diferentes gerações e abordagens podem coexistir e se comunicar em um mesmo espaço expositivo. As obras selecionadas não apenas representam momentos individuais, mas constroem um mosaico complexo das transformações estéticas e conceituais da arte no Brasil”, destaca texto de divulgação.

Já a Amparo 60 leva a exposição "Enquanto as coordenadas forem escorregadias", sob curadoria de Ariana Nuala, com 14 artistas – entre emergentes e consagrados. A mostra propõe, segundo o release,  “uma reflexão sobre espaços que se reinventam, materiais que se desmancham e fronteiras que são borradas, fluídas”.  Com obras que transitam entre escultura, pinturas, desenhos e outras mídias, a seleção inclui trabalhos de Abiniel Nascimento, Amanda Melo da Mota, Ana Neves, Ascânio MMM, Célio Braga, Clara Moreira, Cristiano Lenhardt, Fefa Lins, José Patrício, Luiz Barroso, Luiz Hermano, Marlan Cotrim, Marcelo Silveira e Martinho Patrício. Segundo a galerista, Lúcia Costa Santos a presença da galeria pernambucana por mais um ano na feira reafirma a importância da Amparo 60 na cena artística nacional. “Ao longo dos anos estivemos presentes em praticamente todas as edições da feira. Houve anos em que éramos a única galeria de Pernambuco. Fico feliz de ver que cada vez mais galerias de fora do eixo estão marcando presença e da Amparo ter sido uma pioneira nesse caminho. Hoje, temos uma galeria no Recife, que já conquistou seu espaço na cena nacional”, comenta.

Debutante no evento, a galeria Garrido leva a  mostra Fervo, fúria e fantasia aponta para o onírico, misterioso e delirante presente nos trabalhos de 12 artistas de seu casting, entre pernambucanos e cearenses: Abelardo da Hora, Acidum Project, Alexandre Nóbrega, amorí, aoruaura, Bisoro, Charles Lessa, Heitor Dutra, JEAN, Laura Pascoal, Letícia Lopes e Marcela Dias. A curadoria é de Guilherme Morais.

LIXO DA HISTÓRIA

Uma caixa de vidro blindado com 35 centímetros cúbicos levou um tiro de metralhadora M249 e foi preenchida com bolas de papel sulfite A4 - daquelas que a gente faz quando vai jogar o papel no lixo - do relatório da Polícia Federal sobre a tentativa patética de golpe de estado perpetrada em 8 de janeiro de 2023. A arma em questão consta do relatório como sendo uma das que os aspirantes a golpistas usaram no ataque às instituições públicas. O artista pernambucano Lourival Cuquinha apresenta pela primeira vez na feira paulistana a obra Glope (2025),  verbo inglês dialetal intransitivo que significa ‘olhar alarmado, ficar aterrorizado ou encarar’”, diz a descrição da obra, que inclui o projétil de 50 mm utilizado para perfurar o vidro blindado.

“Comecei a pensar nesse trabalho quando recebi os relatórios da Polícia Federal. Um tem 221 páginas, outro tem 884. Um é mais resumido e outro é mais detalhado. Fiquei dando uma lida diagonal e pensei que é um documento histórico. Quando cheguei na parte das armas que os golpistas usariam, encontrei um primo da minha mulher que estava trabalhando com blindagem de carros e aí fiquei pensando os golpistas achavam que estavam blindados”, explica o artista, cuja obra sempre traz um caráter político bem explícito.

Com a arma do pretenso golpe a blindagem foi perfurada. “Dentro do cubo, as 221 páginas do relatório da PF amassadas em bolinhas como lixo da história”. O disparo desferido no cubo é materialização da expressão figurada ‘tiro que saiu pela culatra’.

Lourival Cuquinha expõe a obra inédita pela Central Galeria, de São Paulo. É curioso que ele sempre relaciona o preço da obra à própria obra de arte. “É um método que sempre uso. Pensamos (ele e a galeria) em cobrar R$ 80 mil pelo trabalho. Depois percebi que esse valor menos o desconto de 20% comumente dado em obras chegaria a R$ 64 mil, o número do ano do golpe. A obra custará R$ 64.023. O 23 é o ano do golpe fracassado. A galerista acha ótimo porque nesses preços conceituais não cabe desconto.  A obra conta com três tiragens e duas provas de artista”, conta Cuquinha.

Originalmente, o título da obra seria uma onomatopéia de engolir a seco, para simbolizar um golpe patético. Um amigo foi quem descobriu o significado da palavra, que acabou casando perfeitamente com o trabalho. O artista conta que alguém sugeriu que a obra fosse comprada pelo governo para ocupar o prédio do Poder Judiciário, o mais depredado pelos atos golpistas.

“Acho que é aquela história se repetindo como a farsa: de novo uma ameaça comunista… Há um saudosismo dessa época militar refletido em algumas parcelas da população, mas também muito incentivado por fake news. Muita gente é levada pelos zaps a pensarem tudo isso. É um saudosismo fictício de quem apoiou o golpe. De pessoas que falsamente recordam um suposto tempo bom que nunca existiu”, reflete o artista.

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