O traço popular que dá identidade à Feira de Caruaru
Entre improviso, memória e sobrevivência, letreiros feitos à mão contam histórias e enfrentam a padronização na feira livre de quase 250 anos, localizada no agreste pernambucano, e considerada a maior do país
TEXTO Pedro Cunha
01 de Julho de 2026
Foto Cecília Távora
O traço fino do pincel número zero desliza devagar sobre a madeira já marcada pelo tempo. José Fernandes da Silva, 54 anos, conhecido como Galo Cego, mede o espaço com o olhar antes de tocar a superfície. Mistura branco com preto até alcançar o contraste ideal e, então, começa a desenhar letras que não seguem régua, mas memória. Desde o início dos anos 2000, ele ocupa a Feira de Caruaru com sua pintura, transformando placas simples em marcas visuais que ajudam a contar a história do lugar reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro.
Foi entre corredores, barracas e boxes da feira situada no agreste pernambucano que José aprendeu, ainda jovem, a dar forma às palavras que hoje identificam pontos de caldo de cana, bancas de ervas, artesanatos, roupas e recantos onde o forró anima o ambiente. “Faz mais ou menos 25 anos que comecei a pintar aqui”, diz, enquanto relembra o percurso construído entre tintas e bases improvisadas para os letreiros. Entre os seus melhores trabalhos, ele destaca a pintura do Recanto dos Violeiros. Um bar onde, assim como nas suas letras, tudo parece atravessado por uma ideia de permanência.
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