A Feira de Caruaru
Faz gosto a gente ver
De tudo que há no mundo
Nela tem pra vender
Na feira de Caruaru
Quando Luiz Gonzaga soltou o vozeirão para cantar “A Feira de Caruaru”, o mundo inteiro passou a conhecer a Capital do Agreste, que na sua mania de grandeza bem pernambucana também ficou conhecida como o País de Caruaru. O baião foi composto há 70 anos, pelo radialista e compositor Onildo Almeida, que continua na ativa com quase 98 anos – a serem completados no dia 13 de agosto. No próximo dia 30, na Bodega de Veio, em Serra Negra, Bezerros, ele sobe ao palco com a cantora Kira Aderne e um trio pé de serra para celebrar a plaquete comemorativa, de autoria do jornalista, crítico de música, pesquisador e escritor José Teles.
A origem da plaquete está um projeto de José Teles em parceria com o produtor Amaro Filho de fazer uma biografia com Onildo Almeida, pela passagem de seus 95 anos. Eles chegaram a ir algumas vezes a Caruaru para gravar material. Mas a iniciativa empancou pela dificuldade de encontrar patrocínio público e privado e de aprovação em leis de incentivo à cultura. Quem sabe, agora, a dupla consiga viabilizar o projeto para centenário de Onildo Almeida, autor de mais de 500 músicas gravadas, por nomes como Marinês, Jackson do Pandeiro, Jacinto Silva, Gilberto Gil, Chico Buarque, Banda de Pífanos de Caruaru dos irmãos Biano.
“A plaquete é o primeiro livro exclusivamente sobre a música, mas contextualizando. Em pesquisas descobri um poema de 1926 sobre a feira, inclusive com personagens de sotaque libanês, mascates árabes que vinham a Caruaru. Também um poema de João Condé, de 1937; o descobrimento de Vitalino por Augusto Rodrigues, e detalhes sobre a música propriamente dita”, comenta Teles.
A letra de Onildo Almeida faz um inventário da cultura, culinária e vocabulário do Agreste pernambucano. Muitas palavras e expressões são desconhecidas em outras regiões do país, o que levou Teles a fazer um glossário. “Há várias expressões de 70 anos atrás e que nem eram de uso comum da população urbana, mas do pessoal que vinha da zona rural para vender seus produtos. Uma das mais difíceis é ‘cuêi-tatu’, que é caititu, uma peça da moenda das casas de farinha. Outra expressão é ‘carça de Arvorada’, ou seja, calça de Alvorada, uma marca de brim, um jeans grosseiro e barato. E mais outras que nem no Google tem”.
José Teles ressalta que Onildo Almeida é um dos últimos grandes compositores de forró da geração Luiz Gonzaga. Talvez, o único remanescente. “Com 97 anos e dez meses, na ativa, Onildo tem importância que transcende ao forró. Ele é das poucas pessoas que acompanharam a evolução da música junina nordestina antes, com Luiz Gonzaga e depois de Luiz Gonzaga. Do forro e São João ele é dos mais importantes, porque é especialista em marchinha de roda, que era a música dos sambas e das quadrilhas tradicionais, não destas atuais, dignas da Marques de Sapucaí. Marchinhas que fizeram sucesso com Marinês, Ludugero, Jacinto Silva e o próprio Gonzaga.
Indagado se depois de 70 anos, se a Feira de Caruaru perdeu aquela identidade cantada por Onildo Almeida, o jornalista José Teles é categórico – “Naturalmente que sim. Todas as feiras de grandes cidades do interior do Nordeste mudaram com a chegada dos supermercados, da urbanização, dos costumes. Acho que hoje Onildo não faria uma música pra feira de sua cidade”.
Para Teles, uma palavra define a razão da perenidade do baião “A Feira de Caruaru”. “A qualidade do trabalho de Onildo. A melodia é muito boa, a letra apesar de longa, é toda com rima em ‘u’, e fácil de decorar. É igual à ‘Evocação’ de Nelson Ferreira, que é do mesmo ano, 1956. ‘Evocação’ também se sustenta na bela melodia, e tem uma letra, citando nomes e clubes do carnaval do Recife que pouca gente sabe do que se trata, e é das mais cantadas no Carnaval, acho que por ser muito tocada no rádio e cantada nas ruas há sete décadas”.
A versão original de “A Feira de Caruaru”, foi gravada originalmente em 78 rotações na voz de Onildo Almeida. O áudio original ganhou restauração com a resmasterização de Thiago Rad. Essa é a versão que Luiz Gonzaga escutou pelos corredores da então Rádio Difusora de Caruaru e que pediu imediatamente para conhecer o autor. Gonzagão foi levado pelo irmão de Onildo, Zé Almeida, para conhecê-lo. Onildo estava na técnica, na sala ao lado, e escuta do Rei do Baião a fala que já se tornou clássica: “Como é que você tem um negócio desse e não me amostra?”, respondeu que a música estava nas mãos dele. Mas, na verdade, ele tinha pensado em oferecer a música a Jackson do Paneiro, com quem tinha amizade. A canção deu a Luiz Gonzaga o seu primeiro disco de ouro da carreira, 100 mil cópias em apenas dois meses.
A Feira de Caruaru
Onildo Almeida
A Feira de Caruaru
Faz gosto a gente vê
De tudo que há no mundo
Nela tem pra vendê
Na feira de Caruaru
Tem massa de mandioca
Castanha assada, tem ovo cru
Banana, laranja, manga
Batata, doce, queijo e caju
Cenoura, jabuticaba
Guiné, galinha, pato e peru
Tem bode, carneiro, porco
Se duvidá, inté cururu
Tem cesto, balaio, corda
Tamanco, gréia, tem cuêi-tatu
Tem fumo, tem tabaqueiro
Feito de chifre de boi zebu
Caneco acuvitêro
Penêra boa e mé de uruçú
Tem carça de arvorada
Que é pra matuto não andá nú
Tem rêde, tem balieira
Mode minino caçá nambu
Maxixe, cebola verde
Tomate, cuento, couve e chuchu
Armoço feito nas torda
Pirão mixido que nem angu
Mubia de tamburête
Feita do tronco do mulungú
Tem loiça, tem ferro véio
Sorvete de raspa que faz jaú
Gelada, cardo de cana
Fruta de paima e mandacaru
Bunecos de Vitalino
Que são cunhecidos inté no Sul
De tudo que há no mundo
Tem na Feira de Carua
GLOSSÁRIO
Gréia – Grelha
Caneco acuviteiro – Um caneco candeeiro feito de lata, para não deixar os namorados no escuro. Até receberem energia elétrica gerada na hidroelétrica de Paulo Afonso, as principais cidades nordestinas do interior eram iluminadas graças a potentes geradores, desligados às 22h. Era aí que o caneco acuviteiro entrava. Seja entre os casais, ou pra evitar um forró no escuro. A propósito, “acuviteiro” é “alcoviteiro”.
Cuêi-tatu – É como o matuto chama “caititu”, de casa de farinha. O caititu, uma engrenagem que rala mandioca para fazer farinha. Tabaqueiro – Recipiente feito de chifre, para fumo torrado.
Carça de Arvorada – “Carça”, naturalmente, é calça, “arvorada” uma marca de tecido (talvez da fabricante da calça) muito comum à época, um jeans de baixa qualidade. Havia até os anos 60, uma marca muito popular desse tipo de tecido, a Coringa. Os mais velhos chamavam as cobiçadas calças Lee americanas de “calça Coringa”.
Nambu – Inhambu, ave muito procurada por caçadores, devido à ótima carne.
Mubia – Mobília.
Sorte de raspa que faz jaú – Esta só Onildo Almeida explica. Trata-se de um sorvete rústico. Raspa-se bloco de gelo, derrama sobre a raspa um xarope com essência de uma fruta. O vendedor coloca este sorvete nas mãos, em concha, do comprador, que tem que deglutir rapidinho o sorvete antes que derreta. Na época não havia copos descartáveis.
Guiné – Também conhecida como galinha-d'angola, uma ave extremamente comum nos quintais e feiras do Nordeste.
Cururu – Um tipo de sapo grande, muito comum nas áreas rurais.
Boi tatu – Expressão popular para se referir a um boi de pequeno porte, compacto e forte.
Massa de mandioca – Ingrediente essencial na base alimentar nordestina, extraído da mandioca para fazer tapiocas e bolos.
Pirão mexido – Prato tradicional feito a partir da mistura de farinha de mandioca com um caldo quente de carne ou peixe.
Maxixe e Cuentro (Coentro) – Ingredientes indispensáveis no tempero e na culinária diária da região.
Mandacaru – Cacto símbolo do Nordeste; embora resistente à seca, seu fruto também é comestível
Balaio – Cesto grande feito de palha ou vime, trançado manualmente, muito usado para transportar mercadorias na feira.
Tabaqueiro – Recipiente ou artesão que trabalha com o fumo de rolo e rapé.
Uruçu – Abelha nativa sem ferrão, típica da região, que produz um mel muito valorizado e medicinal ("mel de uruçu").
Baleeira – Nome regional dado ao estilingue (também conhecido como badoque ou estilingue em outras regiões), usado por crianças no interior.
Torda (Toldo) – Cobertura de lona que protege as barracas de feira do sol e da chuva ("Almoço feito nas torda").
Tamborete – Banco pequeno de madeira, sem encosto, muito comum nas casas do interior.
Mulungu – Árvore nativa da caatinga cuja madeira leve e resistente é muito utilizada para esculpir móveis e artesanato.
Boneco de Vitalino – O artesanato figurativo do Mestre Vitalino, o maior artesão de barro da história do Nordeste, cujas peças em cerâmica retratavam o cotidiano do povo pernambucano.
