O lado sombrio do ícone da moda
Livro escrito pela sobrinha de Yves Saint Laurent, Marianne Vic, é lançado no Brasil
TEXTO Carol Botelho
16 de Janeiro de 2026
Fatos biográficos pesados sobre a vida do estilista são revelados na obra
Foto Divulgação
Yves Saint Laurent (1936-2008) criou um mito sobre si mesmo, com a preciosa ajuda do companheiro de 50 anos e sócio Pierre Bergé. O costureiro elegante, magro, alto, loiro, de olhos azuis e voz suave guardava dentro de si uma vontade de vingança. Nascido na Argélia durante a ocupação francesa, em família de classe média, sem dinheiro nem estirpe, fez tudo para esconder o passado de abandono ao qual sua família disfuncional o relegou. Carente de afeto, tornou-se ácido com seus próximos, e sempre tinha uma palavra desagradável para dizer aos gordos, feios e malnascidos como ele.
“O que há para escrever sobre Yves Saint Laurent, o protagonista incontornável da costura francesa? Tudo, ou quase nada. Pesada demais, a verdade do homem permanece oculta na parte sombria do mito”, escreve a sobrinha, a escritora francesa Marianne Vic, no livro O príncipe da Babilônia (editora Estação Liberdade, 192 páginas, R$ 62). Lançado em 2018, só agora, no ano em que YSL completaria 90 anos, ganha tradução no Brasil.
De fato, a leitura gera um certo desconforto e se inicia com um prelúdio da morte de um idoso melancólico que já não mais desenha. O título caiu como uma luva três quartos. O inventor do prêt-à-porter de luxo morou na Rue de Babylon, em Paris. Assim que a sigla YSL se tornou uma junção de letras com significado de luxo; assim que os bolsos vazios do argelino de Oren se encheram do dinheiro dos franceses que um dia o desprezaram, o estilista mergulhou profundamente nas drogas e noitadas orgiásticas de uma Babel compartilhada com bilionários ociosos, integrantes dos Rolling Stones, Andy Warhol, Marianne Faithfull e Anita Pallenberg.
Marianne, a sobrinha, não erra a narrativa. É certeira nas palavras, do começo ao fim. Como se a todo tempo estivesse ao lado do tio – e esteve, durante boa parte de sua infância e adolescência. Até em sua partida, a sobrinha não poupa a divina decadência do eterno suicida que foi seu tio. “É a história do desejo de morte que o habitou ao longo da vida, com flashes de felicidade intermitente, como o primeiro contrato na casa Dior, o amor dos primeiros dias com Pierre, os interlúdios criativos em Marrakesh, e os aplausos, quando era aclamado no final das coleções, uma droga doce, da qual foi dolorosamente desmamado.”
Ao menos YSL foi poupado. Morreu sem saber que sua famigerada mãe, Lucienne, foi filha de um estupro, assim como a avó, após se casar com um banqueiro nos tempos da Argélia colonial. Lucienne, filha da vergonha encoberta com silêncio, também sofreu abandono. E passou adiante.
No velório do filho, de quem se aproximou apenas quando ele se tornou um famoso costureiro, 800 pessoas. Nenhuma muito próxima. Muito menos Lucienne, que chamava a ele e as irmãs de ma crotte (meu merdinha, em francês).
Já Catherine Deneuve armou uma cena de pura ficção ao se deitar ao lado do morto. “Atitude estranha para duas pessoas que se respeitavam, mas nunca cruzaram o limiar da intimidade. Quem se deita ao lado de um corpo sem vida se este não foi o da pessoa
amada?”
A obra revela com detalhes o último e triste desfile do estilista, em 2002, quando já não mais desenhava nem costurava. O jeito foi fazer uma retrospectiva de 40 anos de carreira. Marianna descreve o momento quase como decrépito, com um estilista entupido de remédios tarja preta a ler um texto: “Todo homem tem necessidade de fantasmas estéticos. Eu os persegui, procurei, rastreei. Passei por muitas angústias, por muitos infernos. Conheci o medo e a terrível solidão, a prisão da depressão e das casas de saúde. De tudo isso consegui sair um dia, fascinado, mas sem ilusões. Marcel Proust me ensinou que a magnífica e lamentável família dos nervosos é o sal da terra. Não me esquecerei de vocês”.
Apesar de não ser um livro sobre moda, nem conter uma fotografia sequer, é impossível não falar do tema que se confunde com a pessoa. O estilista, que trabalhou na Dior, inventava que o costureiro que o precedeu o havia escolhido para substituí-lo. Pura falácia. Contraditório, Yves tinge de cores suas roupas: dos vestidos trapézio às peças com estampas de pintores como Piet Mondrian, Van Gogh… As alegres tonalidades africanas, origem que desejava negar a todo custo. Por isso suprimiu um dos sobrenomes e tirou os hífens do nome do pai: Charles Mathieu-Saint-Laurent.
Quem trouxe para Yves conhecimento sobre arte foi a tia, Reneé. Mas ele não ia além dos modernistas, sempre europeus: Picasso, Gauguin, Matisse, Cézanne, Manet para esconder os dias de penúria. A não ser pelo francês Marcel Proust – foi Reneé quem lhe deu os quatro volumes de Em busca do tempo perdido –, não foi muito de ler.
A sofisticação que aparentava era pura fraude. O que o sustentou até o fim nem foi a arte, mas a morfina. A autora faz da droga poesia, ao narrá-la entrando na casa do tio para niná-lo.
Sem poupar a própria intimidade, Marianne também se confessa uma vítima do abandono parental. Ao mencionar encontros com o tio e padrinho, faz em terceira pessoa: “Ele a olha e esboça uma careta de desaprovação:
– Seu cabelo está fora de moda, você se parece com uma garota boa e sensata de um romance da condessa de Ségur, e não com uma estudante. Corte o cabelo!”.
Marianne também recorda um relato feito por sua avó: “Lucienne nunca esqueceu as sessões de tortura, que descreveu para a neta sem omitir nenhum detalhe. Sua lembrança mais vívida é a da vela introduzida na vagina para dilatar o colo do útero”.
Saint Laurent foi adorado, aclamado e é um ícone inesquecível da moda. Mas morreu sozinho, tal como viveu, excluído de amor.