Arte holandesa é revirada por Benjamin Moser
Livro O mundo de ponta-cabeça - encontros com os mestres holandeses apresenta pintores desconhecidos das terras baixas
TEXTO Carol Botelho
25 de Maio de 2026
Acima, Rembrandt como pastor com cajado e flauta, pintado por Govert Flinck
Foto Gislene Barreto
É inevitável não associar o biógrafo Benjamin Moser à fascinante biografia de Clarice Lispector. O norte-americano radicado na Holanda tornou Clarice conhecida no mundo inteiro. Ao se deparar com o nome dele estampando a capa de um livro sobre arte, no mínimo se tem curiosidade sobre seu conteúdo. Passando da curiosidade para as 351 páginas da obra O mundo de ponta-cabeça - encontros com os mestres holandeses (Companhia das Letras, 2026), Moser se revela igualmente cativante.
Como se estivéssemos exercitando “plantar bananeira”, deixamos de ver igrejas, divindades, retratos de membros da nobreza e cenas de guerra - comuns nas pinturas do século XVII - para admirarmos pessoas comuns em seus afazeres mais banais e cotidianos; paisagens, naturezas-mortas, cenas bíblicas nada lisonjeiras e repugnâncias como a profusão de cenas de assassinato, crueldade, tortura, estupro e autópsias. Não é agradável olhar para a gigantesca obra O cegamento de Sansão, do mestre da sombra Rembrandt. Sobre A aula de anatomia do dr. Nicolaes Tulp, Moser diz “sentir nas narinas a comichão do cheiro pútrido”. Ora, se é tão repugnante por que fascina? Porque assim somos: humanos, demasiado humanos.
Na Holanda daquele período já se realizava a pintura “de gênero” que a modernidade e a contemporaneidade ressuscitaram. Em lugar de uma Vênus grega, uma prostituta. Em vez do sagrado, o mundano. “O divulgador mais vigoroso da ideia de que a arte holandesa refletia a vida cotidiana foi o jornalista e crítico de arte francês Théophile Thoré, hoje lembrado principalmente como o redescobridor de Vermeer. “Para Thoré o refinamento valorizado pelos classicistas era afetação e academicismo”, escreve Moser.
Moser vai fundo na arte e na história holandesa da Idade de Ouro e traz de lá nomes desconhecidos do período, apresentando-nos da melhor maneira que um crítico pode fazer: colocando suas impressões pessoais, carregadas de muita pesquisa, sobre obras e seus autores. Conhecemos Van Gogh. Mas ele não está no livro justamente por ser popular demais. Rembrandt, Vermeer, Eckhout. Conhecemos também, mas já são bem menos populares do que o pintor que mutilou a própria orelha. Não menos importantes são Jan Lievens, Carel Fabritius, Gerard ter Borch e tantos outros.
Radicado na Holanda desde os 25 anos, Moser levou 20 anos para lançar esse livro. Estrangeiro em outro país, sentindo-se peixe fora d’água, o autor se apega aos famosos “ninguéns” da arte local, com os quais se identifica. Submerso nos museus, bibliotecas e livros sobre a Holanda, faz daquela Idade de Ouro a sua própria, como se estivesse em uma viagem no tempo.
Se com Rembrandt e Vermeer o autor enche as páginas de elogios - ao menos à pintura -, com outros, nem tanto. Sobre Jan Lievens, quando escorrega na feiura, o tombo é mais feio do que quando acerta, pois há poucas pinturas belas. Pintor de retratos de idosos, Lievens por vezes os faz grotescos. “As obras bem-sucedidas continuam no lado certo da linha divisória entre o pungente e o patético”.
Ferdinand Bol, coitado, já foi chamado de superficial e insípido. Seu contemporâneo, Govert Flinck, foi descrito como sem criatividade e de capacidade técnica inútil, com habilidade para a imitação.
A nação holandesa parece mesmo esse mundo de ponta-cabeça que Moser define. Religiosamente tolerante, só não aturava o catolicismo exacerbado da Espanha, arqui inimiga. Se não era natural aos italianos encarar um São João Batista ao lado de cães fornicando, na Holanda não havia problema. Era a mais pura realidade. Era natural. E de fato não são eles, os pintores holandeses, os mais naturalistas.
É interessante um capítulo dedicado à ausência de árvores holandesas no país das flores. Mais uma vez, o bem empregado título de ponta-cabeça explica por que o céu e as nuvens parecem mais expressivas do que o que é retratado em solo. Jacob van Ruisdael, por exemplo, pintou Vista de Haarlem com Campos Branqueados (1670–1675 ). "Os céus têm todo o relevo, todo o drama que faltam à terra, e são tanto mais visíveis devido à sua planura".
No capítulo dedicado a Albert Eckhout, o autor destaca a relação do Recife com os colonizadores e Maurício de Nassau, e recorda o tempo em que esteve na capital pernambucana a pesquisar sobre Clarice Lispector. As únicas 21 pinturas que Eckhout deixou das primeiras representações europeias dos povos originários estão em Copenhague, Haia e Berlim.
O biógrafo de Susan Sontag ressalta o estilo artístico definido por ela como Camp - o barroco ostentação de moralidade irônica de dramatização cotidiana que os artistas dos Países Baixos da Idade de Ouro anteciparam. A pintura de Jan Steen traz essa pegada. Basta mirar em O mundo às avessas, cena cotidiana repleta de humor e ironia. Mais uma vez a pintura holandesa reflete o universo invertido na obra do holandês Paulus Potter. O touro jovem é pioneiro ao trazer um animal como protagonista, em tempos em que pintar animais era quase tão humilde quanto retratar a natureza-morta. Fez tanto sucesso que foi adquirido por Guilherme IV, o chefe da Casa de Orange. Punição de um caçador é ainda mais do tipo realidade espelhada: um porco abatendo um açougueiro, crianças cavalgando os pais e cavalos cavalgando homens. Além dos detalhes escatológicos.
Que achava que conhecia arte holandesa ficou de queixo caído.
Mais sobre os holandeses na edição 47 da Revista Continente do app.