Grada Kilomba: “Me interessa contar histórias”
Escritora, psicóloga, teórica e artista interdisciplinar portuguesa esteve no Instituto Inhotim, em fevereiro, onde conversou com o público sobre trabalho, história, Brasil e diáspora
TEXTO Carol Botelho
24 de Março de 2026
Artista multidisciplinar portuguesa fala da importância do Brasil para sua obra
Foto Carol Botelho
Conhecida e reconhecida pelos trabalhos em literatura e arte que abordam o racismo, o colonialismo e a memória, Grada Kilomba esteve, no dia 7 de fevereiro, no Brasil a convite do Instituto Inhotim para um bate-papo com o público e apresentação do terceiro ato da obra O Barco, que chegou ao museu a céu aberto de Minas Gerais em 2024, depois de passar por Lisboa e Londres. Aqui, a artista recriou a obra em uma instalação composta por 134 blocos de madeira queimada pintados de preto em alusão aos navios que atravessavam o oceano trazendo pessoas escravizadas. Já o Ato III consiste na videoinstalação Opera to a black venus, onde pessoas cantam em um cenário que pretende aludir a um oceano vazio. A obra faz a seguinte indagação: “O que o fundo do oceano nos diria amanhã, se hoje fosse esvaziado de água?”
PROCESSO DE TRABALHO
"Às vezes eu olho um pouco para cada obra, eu acho que a vida de um artista é um pouco como escrever um livro eterno, em que cada obra é um capítulo por si e, no meio do primeiro capítulo, já se começa a desenhar qual é o segundo capítulo, que é a próxima obra e a próxima obra no terceiro capítulo e no quarto e no quinto."
"Não sou uma artista que trabalha com a pintura ou com a escultura, ou com o filme ou com a encenação. Me interessa, acima de tudo, contar histórias. A história começa a contar quase em segredo, nos ouvidos, como é que quer ser contada. E aí aparecem as materialidades e a forma do movimento. Então, essa é a minha metodologia de trabalho”.
HISTÓRIA E ARTE
"Portugal tem uma história, como todos os países europeus, absolutamente violenta. Uma história construída com genocídio, opressão, escravidão, colonialismo. É uma história muito complexa e muito difícil de lidar. Uma das grandes funções de um artista é exatamente tratar os temas que são apagados na sociedade. Temas para os quais nós não temos uma linguagem. Sabemos lidar com a glória, mas não com a dor."
BRASIL
"O que eu vivencio aqui é algo muito especial, uma urgência. É um país com população extremamente jovem, completamente ao contrário da Europa. E esse país jovem tem uma grande urgência em aprender, em querer se ter, em encontrar um novo trabalho, em falar sobre aquilo que não pode ser falado”.
"O centro do meu trabalho é falar sobre aquilo para o qual muitas vezes nós não temos uma unidade ou não sabemos falar. Enquanto a Europa está ocupada em justificar uma história, o Brasil está ocupado em compreender e reescrever a história e desenhar o futuro”.
FRAGMENTAÇÃO DE SABERES: HERANÇA COLONIAL
"Uma criança vai estudar matemática, outra vai estudar literatura, outra, carpintaria. Tudo muito separado e essa separação de saberes está intimamente ligada à história colonial que hierarquiza os saberes e os corpos. Havia uma série de saberes que criavam a obra e que estão ainda em muitos artistas da diáspora. Nós trazemos um saber que é negado, que é pago, mas que dentro de casa e das comunidades é praticado e depois é exercitado na criação de uma obra que é sistemática, e que estão ainda em muitos artistas da diáspora."
"Então nós passamos por uma série de disciplinas e de uma série de saberes que fazem parte de criar uma obra. E se nós olharmos talvez alguns textos de atrás, olhamos para artistas clássicos filmes como (Leonardo) da Vinci trabalhava tanto com desenho como com arquitetura, carpintaria, astronomia, astrologia… Havia uma série de saberes que criavam a obra e que estão ainda em muitos artistas da diáspora nós trazemos um saber que é negado, que é apagado, mas que dentro de casa e dentro das comunidades é praticado e que depois é exercitado na criação de uma obra que é sistemática."
CAROL BOTELHO, repórter especial das revistas Continente e Pernambuco