Entrevista

“Arte demanda um completo sacrifício”

Em sua primeira vinda a Pernambuco para inaugurar ‘Generator’, na Usina de Arte, a artista sérvia Marina Abramović conversou com exclusividade sobre a obra e uma trajetória de vida radical

06 de Fevereiro de 2024

TEXTO OLÍVIA MINDÊLO
FOTOS LEOPOLDO CONRADO NUNES


[conteúdo exclusivo Continente Online]

Na noite da última sexta-feira (2), um nome incontornável na história das artes visuais do Ocidente sentava à mesa junto a mais 20 pessoas para celebrar sua vinda a Pernambuco pela primeira vez. O jantar era para ela, Marina Abramović, artista sérvia com 50 anos de uma trajetória marcada pelo atravessamento do próprio corpo. Este mesmo tem sido suporte para performances que a colocaram, de formas inimagináveis, no limite da experiência humana e a consagraram internacionalmente quando tudo era mato para as mulheres artistas.  

Sentada no centro daquele mesão da “casa-grande” da antiga Usina Santa Terezinha – hoje a Usina de Arte –, Marina, 77 anos, ansiava a inauguração, no dia seguinte, da sua obra Generator, que passa a integrar o parque artístico e botânico de Água Preta, na Mata Sul do estado, longe dos grandes centros urbanos e capitalistas do país. Ao fim da refeição, a batidinha na taça anunciava o seu discurso, feito de pé: “Foi muito cansativo vir de Nova York (onde mora há anos) até aqui, realmente um inferno, exaustivo. Tive que ir até São Paulo e esperar pela conexão para o Recife. Mas, ao chegar aqui na Usina de Arte, eu me senti completamente acolhida por Bruna, Ricardo e todo mundo. Tudo muito agradável, como se eu estivesse em família, então estou muito feliz. Ademais, eu achava que o melhor carneiro que eu tinha comido na minha vida tinha sido o da minha avó, mas não, hoje eu descobri que foi este aqui. Então, agradeço de todo o meu coração”. 

A artista se referia a um dos pratos oferecidos no jantar conduzido por Bruna Pessoa de Queiroz, que gerencia a Usina de Arte ao lado do marido Ricardo. Em inglês, foi ele quem retribuiu, emocionado, a fala da artista e o que significava aquele momento para a instituição cultural. Bem-humorada, muito afetuosa e espontânea, Marina quebrou o clima contando em seguida que, em 1989, se encontrava em Belém do Pará para participar de uma exposição coletiva quando foi, para sua surpresa, convidada a ser jurada do concurso de Miss Bumbum na cidade. A artista então descreveu em detalhes aquela que, para ela, foi das experiências mais divertidas e marcantes no Brasil, país onde já expôs algumas vezes, realizou projetos como o filme Espaço além (2016) e com o qual vem tecendo uma relação muito próxima desde então. 

Basta dizer, por exemplo, que Generator aporta, em seu bloco de concreto preto com 25 metros de comprimento e três de altura, 45 pedras do cristal do tipo quartzo rosa trazidas de Minas Gerais, de onde saíram também os cristais para o seu monumento Crystal Crying Wall (2021), na Ucrânia. Em ambos, são centenas de quilos de mineral distribuídos nas instalações interativas, ou nos “objetos transitórios”, como ela chama. 

Na Usina de Arte, a premissa maior do trabalho é estimular a relação com o público, convidando-o a encostar a cabeça, o coração e a barriga nas pedras, a um só tempo. “É um trabalho lindo, que vai servir para a humanidade, vai fazer bem a todo mundo”, disse Hugo Huerta, diretor artístico de Marina Abramović responsável por mediar, desde 2023, a vinda da obra a Pernambuco. 

De lá para cá, a própria artista acompanhou todos os detalhes a distância, numa espécie de residência artística remota, pois se encontrava com problemas de saúde, impossibilitada de vir. “Ela apresentou quatro propostas e escolhemos esta. Todas estavam realmente ligadas às impressões e informações que ela tinha da história do lugar. Inicialmente, ela queria que a obra ficasse perto da água, mas depois vimos que lá em cima, com aquela vista espetacular, seria melhor, porque como é uma obra meditativa, funciona super bem. E tem um caminho a percorrer até lá, então você já vai fazendo uma limpeza para chegar e entrar em contato com a energia das pedras”, contou o curador da Usina, Marc Pottier, que trabalhou com Marina em 1995, durante um evento para a Bienal de Veneza, na Itália. “É uma obra que está em perfeita harmonia com tudo, com o restante da coleção, porque foi feita 100% em função da história da Usina de Arte e, ao mesmo tempo em que é meditativa, é também um recado político sobre uma civilização que está ruindo e a necessidade que temos de nos limpar deste mundo errático, imerso em guerras inúteis”, sintetizou Marc. 

Não é pouca coisa trazer um trabalho de Marina Abramović – e da magnitude de Generator – à terra de uma usina falida, marcada por um passado colonial açucareiro e escravocrata, cuja paisagem vem se modificando desde 2016, com a inserção de mais de 1 mil espécies de planta e uma coleção de arte ao ar livre. Lá estão hoje mais de 40 esculturas, instalações e objetos de nomes como Regina Silveira, Juliana Notari, Denise Milan, Iole de Freitas, Liliane Dardot, Claudia Jaguaribe, Frida Baranek, Georgia Kyriakakis, José Rufino, Matheus Rocha Pitta, Paulo Bruscky, Marcelo Silveira, Márcio Almeida e outros que vêm desenhando os 40 hectares de área com seus trabalhos. Entre as obras recentes, está um painel de neon de Alfredo Jaar, instalado no prédio da antiga destilaria, e um mega conjunto escultórico da dupla francesa Anne e Patrick Poirier. 

Com o comissionamento do site-specific monumental de Marina Abramović (feito especialmente para o espaço), a Usina de Arte passa a contar também, no ponto mais alto do parque, com a primeira obra pública da artista sérvia na América Latina. Em seu título, Generator (ou Gerador) alude ao passado industrial da usina de açúcar, mas o transforma, propondo um outro tipo de conexão. “Espero que vire um ponto para as pessoas irem, não apenas para usá-lo, mas para estar lá. Porque os quartzos rosas têm a ver com algo do coração, da energia do coração. Então, é sobre amor, esse muro é um tipo de história de amor”, afirmou a artista à Continente, na entrevista que lemos a seguir, acompanhada de um ensaio fotográfico igualmente exclusivo, que ela fez questão de conferir na própria câmera.

No mesmo dia da nossa conversa, horas antes da inauguração da obra, na tarde do 3 de fevereiro de 2024, mais de 1 mil pessoas adentravam o parque a pé para subir até o local da obra, a 70 metros de altura, e ver não só a obra, mas a artista de perto – numa espécie de “romaria”, como muitos aludiram. Fiz a mesma caminhada no dia anterior e é realmente imprescindível experimentar Generator no corpo e vivenciar um pouco do estado de presença e exaustão que é a matéria-prima do trabalho de Abramović. 

Separado por uma faixa de contenção da obra, o público ansiava pela chegada da diva pop das artes visuais como quem aguarda um ídolo subir ao palco. De fato, uma cena incomum num vernissage de arte contemporânea. Entre as pessoas presentes à inauguração aberta, havia moradores da vila, muitos deles envolvidos no projeto da Usina de Arte, mas bastante jovens vindos do Recife, que viajaram pouco mais de duas horas até o local, deixando para trás as prévias carnavalescas do fim de semana. 

Artistas pernambucanos da performance, como Aoruaura, Bárbara Collier, Renata Caldas, Lourival Cuquinha, Izidorio Cavalcanti e Juliana Notari estavam presentes. Juliana é  a artista que cravou Diva nas terras da Usina de Arte, uma das obras mais polêmicas e famosas do local. Ela comentou à Continente que “havia aberto a ferida colonial e Marina veio para curá-la”. No dia seguinte, Abramović foi até a obra com Juliana e fez uma foto memorável daquela grande vulva, ou buraco em sangue que é um divisor de águas na história do parque.

Quando chegou à inauguração, a artista sérvia se aproximou do público para um discurso e foi tão terna com seus fãs quanto havia sido na véspera, durante o jantar para poucas pessoas. “É muito importante saber: isso não é uma escultura, é algo que as pessoas têm que usar, é um trabalho de arte interativa. Eu não gosto de olhar para esculturas, então quero que vocês interajam. Eu dou meu trabalho e vocês dão seu tempo de experiência”, pronunciou a artista a uma audiência que fez fila para experimentar a energia dos quartzos rosas no muro de Generator. Os primeiros foram convidados pela própria Marina Abramović, que os pegou pelas mãos e também dedicou parte do tempo a autografar livros, fotos e papéis. Enquanto isso, o Atrium Quarteto, do Recife, executava músicas de Tchaikovsky, Barber, Paulo Arruda, Grieg e Debussy, conferindo uma certa carga de dramaticidade à ocasião.

Até o anoitecer, ainda havia pessoas à espera de sua experiência. Para Bruna Pessoa de Queiroz, que almejava essa obra há alguns anos e estava visivelmente emocionada, foi um momento único para a Usina e a comunidade. “Do mesmo jeito que a obra de Marina não existe sem a participação do público, a Usina de Arte não existe sem as pessoas da comunidade”, afirmou a presidente da Associação Socioambiental e Cultural Jacuípe, que gere a Usina de Arte e, após o jantar da véspera, confessou ter sido o elogio ao seu carneiro o maior que já recebeu na vida.

CONTINENTE Vemos que sua carreira é atravessada pelo elemento “muro”. Em 1988, você fez a famosa performance de travessia com Ulay na Muralha da China. Em 2017, lançou seu livro de memórias intitulado Walk through walls (no Brasil, Pelas paredes, ed. José Olympio, 2017). Em 2021, inaugurou a obra Crystal Crying Wall, na Ucrânia, e agora, na Usina de Arte, em Pernambuco, vemos Generator, também um grande bloco de concreto com cristais. Poderia falar sobre o porquê do seu interesse por muros, Marina?
MARINA ABRAMOVIĆ São duas coisas diferentes. Uma é minha biografia, Walk through walls, que tem relação com o meu aniversário de 70 anos, e que eu aproveitei para fazer enquanto eu ainda podia lembrar. E foi importante dedicá-la a “amigos e inimigos”; tantos amigos se transformaram em inimigos e tantos inimigos se transformaram em amigos. A questão é que eu digo a verdade, e as pessoas não gostam de ouvir a verdade, ficam realmente chateadas.

Agora, outra coisa é que eu não me prostro em frente aos muros, eu quebro os muros. E se aparecer outro muro, eu quebro esse muro também. Mas isso é diferente em relação às esculturas. Eu não faço esculturas, eu faço algo que podemos chamar de objetos transitórios, que demandam experiência do público e este, ao fazê-lo, experiencia a própria vida. Para mim, o que é mais importante são as emoções e como o público pode alcançar essas emoções. 

Na Ucrânia, foram circunstâncias bem diferentes. Lá, o muro foi feito de cristais brancos e cal, substância retirada das minas do país e os cristais, do Brasil. O (memorial do) Babi Yar (em Kiev), onde aconteceu o massacre dos judeus, ou seja, onde 33 mil pessoas foram assassinadas em três dias, se transformou depois num parque, mas com nenhum tipo de lembrete desse episódio (pelos nazistas, em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial). Quando Zelensky se tornou presidente, e ele é judeu, a primeira coisa que fez foi refazer esse parque e convidar diferentes artistas, e eu estava entre eles, para fazer algo. Então, eu quis fazer uma extensão do Muro das Lamentações, de Jerusalém, e levar a ideia para Babi Yar em memória do povo judeu. Na inauguração, estavam o presidente de Israel, da Alemanha e o próprio presidente Zelensky e todos eles, em seus discursos, lembraram que aquilo não deveria acontecer nunca mais. Aí, apenas dois meses depois, aconteceu de novo, os russos invadiram a Ucrânia. Então, esse muro ainda está lá, mesmo se a televisão tenha divulgado que foi bombardeado.



CONTINENTE Exato, vi que havia sido bombardeado. Afinal, foi ou não foi?
MARINA ABRAMOVIĆ Chegou muito perto disso, mas o muro não foi destruído e as pessoas ainda usam. Para mim, é um milagre que tenha se tornado um monumento de dois momentos da história – da Segunda Guerra e do massacre dos russos contra os ucranianos. Isso é algo bem importante. Na Usina de Arte, é uma história completamente diferente. Aqui estamos falando sobre fazendas, sobre pessoas trabalhando na cana-de-açúcar. Como artista, eu estava pensando, então, em como fazer algo para obter a presença e foi uma escolha super importante a obra estar no morro, e não fora dele, para que as pessoas pudessem fazer só um pequeno sonho junto, sabe, com a família, com os amigos, fazer um piquenique… Ir lá e encontrar essa estranha obra de arte, e ser convidado a pressionar, sobre os quartzos rosas, a cabeça, o coração e o estômago em frente ao muro. E realmente trocar o telefone, o computador e interagir com a energia dos cristais, algo que o Brasil tem em uma certa quantidade.

CONTINENTE Mas aqui, ao redor de nós, existe um passado muito recente de sofrimento, exploração, colonização, escravidão em torno da cana-de-açúcar. Você acha que esse objeto transitório também pode funcionar para aliviar, transcender as dores desse passado colonial? Desse ponto de vista, poderíamos comparar com a Ucrânia?
MARINA ABRAMOVIĆ Não, não compararia. Mas, ao mesmo tempo, cada país tem realmente seu passado. Para mim, eu faço obras de arte para serem universais, e cada uma pode ter diferentes significados e o mais importante é: como o público pode completar o trabalho. A artista faz o muro, mas não pode dizer toda a história. Se você vir algo, você deve acrescentar sua própria história dentro da obra. Isso é muito importante. Se você pintar um muro e perguntar a 20 pessoas o que elas veem, é possível que tenhamos 20 diferentes significados. Daí porque não representa uma emoção, uma história, aqui é o mesmo tipo de coisa. Isso representa como você se sente.

CONTINENTE E como você se sentiu ao ver a obra Generator pronta?
MARINA ABRAMOVIĆ Eu fiquei tão feliz de ver tudo pronto, desenhado, todo dia estava acompanhando, sendo informada, mas é muito diferente quando você chega. Para mim, foi um choque, eu estava chegando à Usina de Arte e foi a primeira coisa que vi na montanha. “Meu Deus!” Estava no carro, tirei essa imagem imediatamente, foi tão forte. Fiquei muito feliz e, depois, também fiquei muito feliz de encontrar pessoas usando esse muro. Espero que realmente vire um ponto para as pessoas irem, não apenas para usá-lo, mas para estar lá. Porque os quartzos rosas têm a ver com algo do coração, da energia do coração. Então, é sobre amor, esse muro é um tipo de história de amor.



CONTINENTE Ao olhar o muro, também vemos um contraste entre a brutalidade do concreto preto e as pedras de quartzo rosa, conhecidas como a pedra do amor. Como você pensou isso?
MARINA ABRAMOVIĆ Na Ucrânia, também escolhi um muro preto, como aqui. Mas lá eram cristais brancos. Mas, honestamente, você sempre tem que ver mais de um lado. A escuridão atrai a luz e a luz atrai a escuridão. Então, como criar uma mensagem com ambos juntos? Você não pode ter luz sem escuridão.

CONTINENTE Eu vi no perfil do Instagram do Instituto Marina Abramović que você tem trabalhado em um projeto chamado Amor incondicional. Qual a importância desse tema na sua carreira agora? Qual a urgência do amor?
MARINA ABRAMOVIĆ Para mim, o amor é tudo. E um dos aspectos a se destacar é que é fácil amar seu parceiro, marido, filhos, família, ter amor pelos amigos, mas é muito difícil gerar amor incondicional pelos seres humanos. E eu acho que os seres humanos precisam de amor incondicional agora mais do que nunca. Estamos tão perdidos em guerras, conflitos, política, fome, mudança climática, nós estamos justamente deixando as crianças confusas, não sabemos para onde estamos indo agora. O ponto dessa geração é uma incerteza quanto ao futuro. Inteligência artificial vai provavelmente conquistar o mundo e, depois, o que vamos fazer? Vamos mudar ou fazer algo mais? É realmente um chamado muito duro. Para mim, aprender o amor incondicional é muito importante. Na exposição do Royal Academy of Arts (retrospectiva dos 50 anos de carreira, Londres, set 2023 – jan 2024), eu pedi às pessoas, à mídia, para colocar as mãos sobre os ombros das outras por sete minutos, não amigos, mas pessoas que não se conheciam, e ficar em silêncio. E muito emocionante, pessoas choraram. Eu fiz um manifesto de que as pessoas precisam aprender a amar nosso planeta, porque nós estamos jogando fora, destruindo, mas nós não entendemos o que o amor puro significa, e amar todas as pessoas. Olhar para as religiões, as línguas, as origens, todos somos humanos. Então, é bem idealista o que quero dizer, mas eu não quero tomar nenhum tipo de lado, entre esse ou aquele mundo, eu só quero ter uma mensagem geral e essa é sobre o amor incondicional. O meu instituto está também apoiando trabalhos de jovens artistas e também ensinando todos eles dentro do amor incondicional. Se a gente alcança cinco pessoas no planeta, estamos fazendo um grande trabalho, temos que começar por nós mesmos, mudando nós mesmos.

CONTINENTE Você disse, durante o almoço aqui na Usina, algo bem marcante, que sua mãe nunca beijou você. E você nos disse que, depois que ela morreu e leu o diário dela, descobriu que ela queria proteger você do sofrimento e não mimar você.
MARINA ABRAMOVIĆ Ela queria me fazer uma guerreira.

CONTINENTE E então você se transformou em uma artista, outro tipo de guerreira. Como esse fato de nunca ter recebido um beijo de sua mãe ajudou você a se transformar na artista que você é?
MARINA ABRAMOVIĆ No começo, durante a infância, eu vivia muito infeliz, porque não entendia tudo isso. Eu me sentia muito isolada, uma ovelha negra que era diferente de todo o resto. Foi realmente… Mas quando eu volto no tempo, eu amo tudo, não mudaria nada. Foi tão radical e tão rude aquela situação. Eu fui treinada tão rigidamente, quase como um soldado. Eu nunca poderia fazer esse tipo de trabalho, é muito difícil, se não tivesse tido esse tratamento eslavo. Eu não sabia disso, mas agora eu sei. Então, cada minuto daquele inferno foi bom.



CONTINENTE Então você reconhece que realmente existe uma conexão entre ser essa artista radical, que atravessou limites, e essa criação?
MARINA ABRAMOVIĆ Sim. E não era só minha mãe. Uma vez, meu pai me levou para um mar aberto com um barco pequeno e me largou na água, andando com o barco uns cem metros à frente. Eu estava afundando, quase morrendo, subindo e descendo na água, e eu gritei por socorro, mas ele nem olhou. E pensei: “Eu sou uma criança e ele vai me deixar morrer?”. Eu fiquei com tanta, mas tanta raiva que disse: “Ok, eu não vou morrer”. E me mexi… Realmente eu precisava nadar, mas não no meio do mar, foi bem chocante. Aí, eu comecei a nadar por mim mesma em direção ao barco e ele, ainda assim, não olhava pra trás. E ele vinha e me deixava de novo naquela água. Esse, então, foi um momento muito importante na minha vida, que eu entendi que ninguém vai ajudar você, vai te apoiar, só você. Foi o verdadeiro inferno, porque eu descobri que ele não ligava se eu ia morrer ou não, mas, de alguma forma, também sabia que eu podia lidar com isso.

CONTINENTE E com seu irmão, eles fizeram o mesmo?
MARINA ABRAMOVIĆ Não. Era diferente. Com meu irmão, foi uma história completamente diferente, porque ele é um homem. E na cultura eslava, e italiana é a mesma coisa, o homem é tudo. 

CONTINENTE Você se considera uma sobrevivente?
MARINA ABRAMOVIĆ Sim, eu sou.

CONTINENTE O que você poderia dizer às outras mulheres do mundo como uma mulher que sobreviveu?
MARINA ABRAMOVIĆ Primeiro de tudo, eu não sou feminista. Eu realmente não me vejo como feminista, porque não gosto de estar em nenhuma categoria. Arte não tem que ser um tema de gênero, arte é única, não importa quem faça. Só tem que ter duas categorias: arte boa e arte ruim. E eu também vejo tanta injustiça, porque a obra das artistas desaparecem e são menos exibidas, mas também existe algo tão desagradável e não é só culpa dos homens. Se olharmos para os anos 1960 e 1970, os mais importantes galeristas eram todas mulheres que todos os homens que expunham amavam. Por quê? Não havia exposição de mulheres! Mulheres não se apoiam, se veem como inimigas. Isso é um grande problema. E as mulheres não querem sacrificar o caminho delas, e homens se sacrificam pela arte, porque usam as mulheres para fazer a merda toda, então, por isso podem ser artistas. Mas as mulheres querem ter filhos e os maridos amados, e que pareçam mais frágeis do que eles, que são mais dominantes. Toda essa merda produz uma dinâmica onde você não pode fazer sua arte. Arte demanda um completo sacrifício. Eu nunca quis ter filhos, eu nunca pensei em querer ser mãe. Eu só queria ser artista. Então, eu tomei minha posição e não me importei se eu estava em exposições somente com homens, porque nunca senti que eu tinha que fazer qualquer tipo de concessão.

CONTINENTE Você se arrepende?
MARINA ABRAMOVIĆ
Não, nunca. Eu sempre tive uma decisão segura em relação a isso, nunca tive um impulso de ser mãe. Mas agora, eu vejo que tenho mais crianças que qualquer mãe, porque eu dou para todos os meus alunos um amor incondicional. Eu os ensino, doo minha experiência. Eles me dão um certo tempo e eu dou tudo que sei. É uma relação muito útil.

CONTINENTE Como é sua rotina hoje em dia, você que é conhecida por ser muito disciplinada e que foi criada quase como um soldado?
MARINA ABRAMOVIĆ
Sem rotina. Sou preguiçosa, não tenho qualquer rotina. Após essa inauguração, eu vou com meu companheiro, Todd, vamos tirar duas semanas absolutamente para relaxar numa praia a duas horas daqui, tentando não ter qualquer plano. Quando eu trabalho, eu sou super concentrada, mas quando termino, eu só quero relaxar.

CONTINENTE Você é uma sagitariana mesmo. Você acredita em astrologia?
MARINA ABRAMOVIĆ
Eu gosto de astrologia. Na verdade, eu sou muito boa em numerologia, eu estudei numerologia. Mas, sabe, eu não gosto de ter qualquer disciplina, quaisquer regras. Agora, se eu tenho uma performance, tenho que me preparar. Em The artist is present (A artista está presente), no MoMa (Museum of Modern Art, 2012, Nova York), eu me preparei durante um ano, só comendo e bebendo água à noite, e nada durante o dia, para mudar meu metabolismo. Então, para isso, eu tive que ter uma disciplina terrível. Mas se eu termino um trabalho, eu não quero ter nenhuma disciplina, só relaxar [risos].



CONTINENTE
Qual sua maior dor hoje, física ou emocionalmente falando?
MARINA ABRAMOVIĆ
Não tenho nenhuma dor emocional, só uma questão nos meus joelhos [risos]. E por conta desse problema, eu tive que fazer uma operação, o que foi muito difícil, eu quase morri no ano passado. No quesito joelhos, dor é minha especialidade, mas na parte emocional, não, eu estou feliz!

CONTINENTE No filme Espaço além (2016), você começa dizendo que veio ao Brasil para se curar de uma grande dor. 
MARINA ABRAMOVIĆ
Sim, isso foi por conta de um divórcio horrível, mas depois eu me curei. Isso foi há muito tempo, em 2013.

CONTINENTE E você já veio várias vezes ao Brasil, sendo esta a primeira vez em Pernambuco. Como é sua relação com o país?
MARINA ABRAMOVIĆ
Eu amo o Brasil, vou para todo canto.

CONTINENTE Sua relação com as pedras, os cristais e minerais começou aqui, não foi?
MARINA ABRAMOVIĆ
Sim, em 1989. E eu também costumo ir a lugares que os próprios brasileiros geralmente não vão. Como as minas, conhecer os garimpeiros, mas isso é uma longa história.

CONTINENTE O que você gosta mais no Brasil?
MARINA ABRAMOVIĆ
Eu gosto da diversidade cultural, os rituais, o candomblé, os orixás. Eu aprendi tanto aqui, eu sou muito curiosa, eu gosto de aprender. Eu nunca me canso do Brasil, tem sempre algo a descobrir.

CONTINENTE Então para você, é mesmo um lugar de cura?
MARINA ABRAMOVIĆ
Sim, é lindo. Vocês têm natureza… Eu fui a Alto Paraíso (GO), e tinha cachoeiras, jardins, parecia uma cena da Bíblia. Incrível, tão bonito, tão diverso…

CONTINENTE Me lembrei da sua história de quando foi jurada do concurso Miss Bumbum, em Belém (PA) [risos].
MARINA ABRAMOVIĆ
[risos] Sim, eu estou sempre procurando diversão.

CONTINENTE Sei que você tem vários projetos em andamento, mas soube que você está fazendo uma pesquisa sobre sexualidade. Você pode falar um pouco sobre o futuro?
MARINA ABRAMOVIĆ
Esse é um projeto novo, em que estou trabalhando e que vai levar dois anos. O primeiro momento vai ser num festival, em outubro de 2025. Estou estudando rituais bastante antigos, dos séculos XII, XIII, XIV, XV, feitos na Romênia, Bulgária, Grécia e no meu próprio país (Sérvia). É uma pesquisa sobre como os órgãos sexuais são utilizados, de diferentes formas, para entender o cosmos. Não tem nada a ver com pornografia, porque tudo que tem a ver com sexualidade, nós achamos que é pornografia. É provável que isso venha a ser escandaloso, mas vai ser uma mistura de dança e performance.

CONTINENTE Será com seu corpo ou outros corpos?
MARINA ABRAM
OVIĆ Não, não, eu vou coreografar, vou fazer eu mesma. Provavelmente, eu vou fazer parte. Na ópera (7 deaths of Maria Callas, 2020, com William Dafoe), eu dirigi e atuei, mas agora vai ser diferente. A ópera foi um sucesso, mas uma é suficiente. Para querer ser relevante na arte, é preciso ser sempre você mesma. Eu nunca gostei de repetir coisas, de fazer coisas para o mesmo público. Todo tempo preciso ver algo diferente. 

CONTINENTE Você tem um sonho?
MARINA ABRAMOVIĆ
Meu sonho é morrer consciente sem medo e sem raiva.

 

 

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