"Precisamos construir os Estados Unidos da África"
Um dos grandes nomes do reggae africano, o marfinense Tiken Jah Fakoly chega ao Brasil aos 30 anos de carreira para se apresentar na Mimo em Olinda, no domingo (27)
TEXTO Bruno Albertim
24 de Setembro de 2026
Foto Youri Lenquette/Divulgação
Especial para o site da Continente
Um dos grandes nomes do reggae africano, o marfinense Tiken Jah Fakoly chega ao Brasil aos 30 anos de carreira, carregando no reggae uma ideia de África sem fronteiras. Nesta entrevista, concedida pouco antes de sua apresentação no Rio de Janeiro, dia 20, e de seguir para o show de Olinda, no domingo (27), às 22h, no MIMO Festival, o artista fala sobre exílio vivido como consequência da militância pan-africanista, colonialismo e diáspora.
Radicado no Mali desde 2003, ele lamenta as atuais divisões na África Ocidental e afirma que “nosso inimigo comum é a pobreza”, defendendo a construção dos “Estados Unidos da África”. Também fala sobre a necessidade de os africanos contarem sua própria história, sua relação com Carlinhos Brown e os laços históricos entre África e Brasil.
Com status de lenda viva do reggae mundial, Tiken reafirma a música como instrumento para informar, educar e despertar consciências. "Minha música é, de certa maneira, o braço musical da sociedade civil que luta para exigir os direitos dos africanos. Acho que é isso que ela representa na África", ele sabe.
CONTINENTE Você viveu na Costa do Marfim, mudou-se para o Mali e construiu uma carreira internacional. Como essas experiências e esses lugares moldaram sua música?
TIKEN JAH FAKOLY Nasci e cresci na Costa do Marfim. Depois, entre 2003 e 2007, fui para o exílio no Mali. Embora tenha podido voltar para casa a partir de 2007, foi difícil deixar o Mali: eu havia investido lá e encontrei uma verdadeira sensação de liberdade no cotidiano, como poder pegar meu carro, dirigir tranquilamente e cuidar da minha fazenda. Mas, além disso, o Mali trouxe muito para a minha carreira. É um país de música, com músicos por toda parte, cantores e instrumentistas. Minha passagem por lá reforçou profundamente meu amor pelos instrumentos tradicionais. Desde 2004, não fiz um único álbum sem dar aos instrumentos tradicionais um lugar central. O Mali também contribuiu muito para minha visão pan-africanista. Descobri um povo profundamente ligado à África, onde não se fazem distinções. Senti-me em casa e é por isso que continuo vivendo lá até hoje. Ainda assim, não esqueço a Costa do Marfim: foi lá que toda a minha história e meu sucesso começaram.
CONTINENTE Sua música sempre esteve profundamente ligada a questões políticas e sociais da África. O que mais o preocupa hoje no continente?
TIKEN JAH FAKOLY O que me preocupa muito hoje no continente é a divisão. Como alguém que sempre cantou e sonhou com a unidade, dói ver as fraturas atuais na África Ocidental, especialmente entre a CEDEAO e a Aliança dos Estados do Sahel (AES). Só podemos ter sucesso se estivermos unidos. Quando vejo as redes sociais, meu coração dói: malineses atacando marfinenses, marfinenses atacando malineses, burquinenses, nigerinos, beninenses, senegaleses... Estamos brigando entre nós quando nosso verdadeiro inimigo comum é a pobreza, e nossa aspiração comum é o desenvolvimento. Precisamos compartilhar uma visão coletiva para avançar. Às vezes, sinto que minha mensagem não foi ouvida. Mas também sei que a história é feita de altos e baixos, de desacordos. Se as pessoas não me entendem hoje, talvez entendam amanhã. O único caminho viável para os africanos continua sendo a unidade: precisamos construir os Estados Unidos da África para finalmente sermos respeitados. Não será nos dividindo que conseguiremos isso. Essa situação realmente me entristece.
CONTINENTE Depois de tantos anos de carreira, você ainda acredita que a música pode provocar mudanças políticas concretas?
TIKEN JAH FAKOLY Sim. Mesmo depois de 30 anos de carreira, acredito que a música pode continuar despertando as pessoas e ampliando sua consciência. Mas a música não pode ir às ruas exigir direitos e fazer os líderes se dobrarem. Seu papel, como o reggae sempre fez desde Bob Marley, é informar, educar e despertar. Depois, espera que as pessoas reajam. Porque, na realidade, é um povo unido que detém o poder. Quando está dividido, os políticos o manipulam; quando está unido, nada pode detê-lo. A música continuará cumprindo seu papel, mas, se o povo decidir se levantar, evitar a divisão e defender seus direitos, é aí que o objetivo será alcançado.
CONTINENTE Você costuma dizer que a África precisa contar sua própria história. Por que isso continua sendo tão importante hoje?
TIKEN JAH FAKOLY A África precisa escrever sua própria história porque aquela que nos ensinaram foi escrita por quem nos escravizou, nos colonizou e continua nos explorando. Como podemos confiar em uma narrativa escrita por esse sistema? Nossos historiadores precisam registrar e transmitir essa memória aos nossos jovens, que muitas vezes estão perdidos hoje. Atualmente, muitos jovens estão totalmente voltados para a cultura ocidental ou para a música americana. Estar aberto ao mundo é algo positivo, que enriquece uma cultura, mas esquecer a si mesmo é algo muito sério. Acredito que precisamos escrever nossa própria história porque nós a conhecemos. Mesmo quando os mais velhos partem, ainda existem no continente memórias vivas capazes de contar nossa história. Precisamos valorizar esse conhecimento. Quando os outros escrevem sua história por você, sempre haverá omissões, falsificações ou injustiças.
CONTINENTE Qual é a maior diferença entre se apresentar para um público africano e tocar para plateias da Europa ou da América Latina?
TIKEN JAH FAKOLY Quando me apresento na África, sou visto como um formador de opinião. Minha música é, de certa maneira, o braço musical da sociedade civil que luta para exigir os direitos dos africanos. Acho que é isso que ela representa na África. Quando subo ao palco na Europa, tenho mais o papel de porta-voz e informador. Vou levar informações reais sobre o continente, para lembrar ao público europeu que a África não se resume às imagens negativas exibidas na televisão. Também me vejo como um porta-voz na América do Sul. A diferença é que compartilhamos uma história semelhante, marcada pela escravidão. Então venho falar sobre a África e trazer notícias novas e autênticas do continente. Acho que isso pode fazer muito bem.
CONTINENTE O Brasil tem uma história profundamente marcada pela diáspora africana. Você vê conexões entre as experiências dos povos africanos e dos negros brasileiros?
TIKEN JAH FAKOLY O elo mais forte entre a música brasileira e a música africana é o tambor, a percussão. O ritmo e o djembê são uma verdadeira assinatura da identidade africana no mundo inteiro, e é isso que conecta diretamente a África ao Brasil. Além da música, essa conexão também é espiritual. Em vários estados brasileiros encontramos tradições e religiões africanas, como o vodu, que nasceu no Benim. É um vínculo histórico indestrutível, que não pode ser apagado. É justamente por isso que estou particularmente feliz por fazer esta turnê pela América do Sul, e ainda mais feliz por estar no Brasil.
CONTINENTE Há algum músico brasileiro que tenha influenciado sua carreira ou que você gostaria especialmente de conhecer?
TIKEN JAH FAKOLY Eu já havia tido contato com a cena brasileira por meio da Tribo de Jah e de seu vocalista, Fauzi. Também fiz turnê com Manu Chao, que não é brasileiro, mas é muito respeitado no Brasil. Mas meu encontro mais marcante foi com Carlinhos Brown. Eu já conhecia sua música e suas lutas. Durante um show na Bahia, perguntei se seria possível nos encontrarmos. Primeiro almoçamos no restaurante da mãe dele e, depois, ele nos recebeu calorosamente em sua casa, na casa da família. Criamos uma conexão imediatamente: ele conhecia meu compromisso, e eu conhecia o dele. Conversamos longamente sobre a África, a diáspora afro-brasileira e a condição do homem negro. O desejo de fazer uma música juntos surgiu naturalmente. Depois de tentarmos algumas demos no meu estúdio, em Abidjan, foi finalmente meu baixista quem compôs o riddim certo. Carlinhos ficou muito feliz e, para mim, é uma honra imensa colaborar com ele. Compartilhamos a mesma visão de mundo, seja em relação à África ou a temas fundamentais, como a agricultura.
CONTINENTE Além disso, o que você conhece da música brasileira? Existe algum gênero pelo qual tenha uma curiosidade especial?
TIKEN JAH FAKOLY Eu realmente adoro o reggae brasileiro. Ele tem algo muito especial e original, que o diferencia claramente do reggae jamaicano ou africano. Na verdade, o reggae é imensamente popular no Brasil. Em alguns estados brasileiros, parece até que Bob Marley ainda está vivo! (risos) Em uma viagem promocional anterior, tive a oportunidade de tocar em São Paulo e participar de programas de televisão no Rio. Gosto de ouvir samba e outros ritmos tradicionais, mas foi realmente a singularidade da cena do reggae brasileiro que mais me impressionou.
CONTINENTE O que significa para você se apresentar no Brasil e participar de um festival multicultural como o MIMO?
TIKEN JAH FAKOLY Estou realmente muito feliz por me apresentar no Brasil, especialmente como parte de um festival multicultural. Para mim, diversidade e convivência são o futuro: culturas e povos precisam aprender a coexistir. Como artista engajado, é uma oportunidade maravilhosa de compartilhar minha música com um público reunido em torno de valores tão essenciais.
CONTINENTE Você pode adiantar alguma novidade ou algo especial que tenha preparado para sua apresentação no MIMO?
TIKEN JAH FAKOLY Como estamos tocando aqui pela primeira vez, tudo será novidade! (risos) As pessoas virão para nos descobrir no palco, e nosso objetivo é claro: queremos deixar uma impressão, causar um impacto real e deixar nossa marca, para que, quando voltarmos da próxima vez, o público seja ainda maior!
CONTINENTE Depois de uma carreira tão longa e de tantas viagens pelo mundo, que sonho você ainda espera realizar?
TIKEN JAH FAKOLY O sonho que ainda tenho é ter uma vida longa e boa saúde. Depois, no campo artístico, continuar levando minha música pelo mundo inteiro. Há regiões onde ainda não tive a oportunidade de me apresentar, como a Rússia ou a Ásia. Gostaria muito de tocar no Japão, na China ou na Tailândia. Levar meu reggae e minhas convicções para esses lugares é meu sonho: chegar a todos esses cantos do mundo para fazer ouvir a voz da África, essa África verdadeira que as pessoas necessariamente não veem na televisão.
BRUNO ALBERTIM, jornalista, antropólogo e autor de livros como Tereza Costa Rêgo, uma mulher em três tempos (Cepe)