"Percebi que a arte também podia ser uma forma de cura"
Em entrevista à Continente, galerista pernambucana Nara Roesler fala sobre arte, mercado, formação de público e a importância das feiras artísticas
TEXTO Carol Botelho
08 de Outubro de 2026
Retrato de Nara Roesler pintado por José Cláudio em 1979
Foto Flavio Freire
Recife, 21 de outubro de 1976. Na Gatsby Arte acontecia a exposição O desenho em Pernambuco, com trabalhos de artistas como Aloísio Magalhães, Francisco Brennand, Guita Charifker e Lula Cardoso Ayres. Em sua primeira atuação como galerista, Nara Roesler, filha de colecionadores de arte e neta de um ex-diretor da Escola de Belas Artes do Recife, dava a largada naquela que seria sua profissão pelas próximas cinco décadas. E contando.
Em 1986, Nara mirou o destino comum aos nordestinos que queriam ter mais chance profissional: São Paulo, onde fez a maior parte da sua carreira. Atualmente com galerias também no Rio de Janeiro e em Nova York, ela participa mais uma vez da Feira de Arte Contemporânea de Pernambuco (Art PE), de 14 a 18 de outubro, no Recife Expo Center.
“Desde o início, procurei também estabelecer pontes com outras regiões do Brasil, convidando críticos para dar cursos e jornalistas para conhecer a produção local. Conheci Tomie Ohtake em São Paulo, quando ainda morava no Recife, e a convidei para uma exposição de gravuras em metal na minha cidade. Assim começou uma relação de amizade que nunca terminou”, conta Roesler em entrevista à Continente.
CONTINENTE Como era o Recife em 1976 em relação ao mercado de arte, galerias e artistas?
NARA ROESLER Na época, o mercado de arte contemporânea ainda era muito restrito, mas havia artistas extraordinários e uma vida cultural muito rica e plural no Recife e em Olinda. Música, literatura, teatro, artes plásticas e muita troca entre essas linguagens e artistas. O Movimento Armorial, fundado por Ariano Suassuna, havia surgido poucos anos antes. Gilvan Samico, Francisco Brennand, José Cláudio, Guita Charifker estavam produzindo. Além, é claro, de toda a cultura popular com a qual eu convivia desde menina: o frevo, os blocos líricos, os caboclinhos. Quando passava as férias em Surubim, adorava os boizinhos de barro da feira e brincava de levá-los para pastar. Eu não separava uma coisa da outra. O barro dos bonecos era também a matéria-prima das obras de Brennand. Tudo isso me encantou e foi formando meu olhar. Eu cresci nesse ambiente, numa família que recebia artistas e intelectuais.
Quando comecei a trabalhar com arte, sentia que era preciso ampliar o público. Queria que mais pessoas conhecessem os artistas, visitassem as exposições, se interessassem pelo que eles estavam fazendo. O público era muito pequeno, mas eu acreditava tanto naqueles artistas e no trabalho que estava fazendo que continuava. Era preciso conversar, mostrar os trabalhos, criar confiança. Foi uma parte muito importante do meu trabalho no Recife.
Desde o início, procurei também estabelecer pontes com outras regiões do Brasil, convidando críticos para dar cursos e jornalistas para conhecer a produção local. Conheci Tomie Ohtake em São Paulo, quando ainda morava no Recife, e a convidei para uma exposição de gravuras em metal na minha cidade. Assim começou uma relação de amizade que nunca terminou.
Então esse movimento acontecia nos dois sentidos: eu apresentava os artistas pernambucanos a outros públicos e trazia para Pernambuco trabalhos que as pessoas tinham poucas oportunidades de ver. Meu desejo era que esses artistas e esses públicos se encontrassem.

CONTINENTE Sua formação é em design, não é? Essa formação te ajudou de alguma forma no caminho como galerista?
NARA ROESLER Na verdade, estudei psicologia na Universidade Católica de Pernambuco. Meu pai era oncologista, e eu o acompanhava nos hospitais e ajudava em suas pesquisas. Queria ser médica. Sempre gostei muito de gente, tinha curiosidade pelas pessoas e vontade de cuidar, de curar. Foi desse interesse que veio minha escolha pela psicologia.
Mas a arte já estava presente desde a infância. Meu avô foi diretor da Escola de Belas Artes E reitor da Universidade do Recife, atual Universidade Federal de Pernambuco, e eu o acompanhava nas visitas aos ateliês. Meus pais colecionavam obras de Cícero Dias, Vicente do Rego Monteiro e João Câmara. Minha mãe amava arte popular, mas eu nunca tinha pensado em abrir uma galeria.
Eu já trabalhava numa loja de design no Recife quando conheci José Cláudio. Fiquei completamente apaixonada pelo trabalho dele, pela maneira como celebrava a vida. Eu o acompanhava quando saía para pintar e me encantava com seu olhar para a luz e a paisagem. Ele me pediu para representá-lo e comecei a mostrar suas obras na minha casa, inicialmente para amigos dos meus pais.
logo percebi que precisava profissionalizar esse trabalho. Subloquei das minhas sócias uma sala vazia nos fundos da loja, a Gatsby, para começar a galeria. Ali, passei a organizar uma programação de exposições, produzir catálogos e receber jornalistas, que escreviam sobre os artistas e as mostras.
Ao longo dos anos em que trabalhei com design, apresentei móveis de Lina Bo Bardi, Sérgio Rodrigues e dos irmãos Campana. Eu viajava, trazia referências e conversava com os arquitetos, que confiavam no meu olhar. Percebi que sabia aproximar as pessoas daquilo que me entusiasmava. Isso me ajudou muito como galerista.
As coisas aconteceram naturalmente. Fui aprendendo com os artistas, com os críticos, fazendo exposições, e continuo aprendendo. Percebi que a arte também podia ser uma forma de cuidado, de cura. Ela nos salva muitas vezes.
CONTINENTE Quais conhecimentos você considera imprescindíveis para a formação de um artista além da técnica e da história da arte?
NARA ROESLER É fundamental ter curiosidade, sensibilidade e estar aberto ao mundo. Observar, escutar e se deixar afetar pelas coisas à sua volta. Também é preciso dedicação e coragem para desenvolver uma linguagem própria. Uma pesquisa pode levar anos, passar por dúvidas, por momentos difíceis. O artista precisa de espaço para experimentar e de interlocutores com quem possa conversar. A arte não se faz isoladamente. Eu gosto de estar perto, de acompanhar o que estão fazendo e o que ainda estão tentando descobrir. A convivência com eles me ensinou a respeitar muito esse processo.
CONTINENTE Você ficou por aqui até 1986. Com quais grandes artistas locais você trabalhou?
NARA ROESLER No Recife, trabalhei com José Cláudio, Francisco Brennand, Aloisio Magalhães, Gilvan Samico, Guita Charifker, José Barbosa, Lula Cardoso Ayres, entre outros. José Cláudio foi o primeiro artista com quem trabalhei, sempre digo que ele me fez galerista.
Trabalhamos com Paulo Bruscky e José Patrício, nascidos no Recife; Marcelo Silveira, de Gravatá; e Jonathas de Andrade, que nasceu em Maceió e vive no Recife. Também estão conosco Alberto Pitta, de Salvador, Virginia de Medeiros, de Feira de Santana, e Thiago Barbalho, de Natal, além das obras de Abraham Palatnik, também de Natal, e Antonio Dias, de Campina Grande.
São artistas de gerações e pesquisas muito diferentes. Gosto dessa pluralidade. Neste ano, começamos as comemorações dos meus 50 anos como galerista com Festa das falas, exposição organizada por Moacir dos Anjos, um amigo que trabalha conosco e com nossos artistas em diversos momentos, há cerca de 20 anos. A curadoria dele convocava justamente essas vozes do Nordeste e esses sotaques, que atravessam a galeria. Como Moacir diz, ele também aparece na maneira de estar e ver o mundo. Acho muito bonito pensar que essas origens continuam sólidas, mesmo com tantas outras experiências que fomos incorporando.
CONTINENTE Qual o balanço que você faz desses 50 anos de galerista em relação ao mercado de arte brasileiro e à internacionalização da arte brasileira?
NARA ROESLER Mudou muita coisa! Vi as galerias se profissionalizarem, o colecionismo crescer, as feiras ganharem tração. E participei ativamente de todos esses momentos.
A expansão da galeria faz parte dessa história. Abrimos no Rio de Janeiro em 2014, para ficar mais perto dos nossos artistas cariocas, e inauguramos nosso espaço em Nova York em 2016. Fomos a primeira galeria brasileira a estabelecer um espaço na cidade. Já participávamos de feiras internacionais, mas queríamos ter um lugar onde os curadores, os museus e os colecionadores pudessem reencontrar os artistas durante o ano inteiro. Começamos com um escritório menor e fomos ampliando conforme o projeto se consolidava e os artistas pediam por um lugar para expor fora do Brasil. É claro que internacionalizar não significa apenas levar artistas brasileiros para fora, também significa construir relações duradouras, aproximá-los das instituições e criar condições para que suas obras sejam compreendidas em diferentes contextos. Depois de 50 anos, continuo acreditando nesse trabalho de longo prazo, feito com paixão, compromisso e proximidade com os artistas.
Também trabalhei com grandes nomes latino-americanos, como Julio Le Parc. Ajudamos a ampliar seu público e seu mercado no Brasil e trabalhamos pela circulação internacional de sua obra, que já tinha uma história importantíssima. Nesse momento, sua trajetória está em exposição retrospectiva na Tate Modern, em Londres. Foi uma alegria acompanhar essas conquistas.
Hoje a arte brasileira tem uma presença muito maior fora do país. Fico feliz de ter contribuído para isso ao lado dos artistas e de uma equipe que cresceu conosco. Mas continuo curiosa, querendo aprender cada vez mais.
CONTINENTE Você possui galerias em SP, RJ e Nova York. Pretende abrir uma galeria no Nordeste?
NARA ROESLER Tenho uma relação muito profunda com o Nordeste e muito orgulho de ser nordestina, de ter mantido meu sotaque e de ser uma mulher que abriu caminho em São Paulo há 40 anos, enfrentando preconceitos, mas recebendo também a ajuda de pessoas fundamentais. Nossos artistas nordestinos têm uma produção artística de enorme qualidade e estão por todas as partes do mundo, como Jonathas de Andrade, que esteve com o Papa Leão XIV no Vaticano na semana passada. Acompanhá-los nessas viagens não tem preço.
Abrir um espaço físico permanente é uma ação que demanda uma série de medidas e, como acredito no longo prazo, digo que sempre haverá essa possibilidade.

CONTINENTE Que artista você gostaria de ter em sua galeria?
NARA ROESLER Continuo curiosa e aberta a novos encontros, com artistas de diferentes no gerações. Quero trabalhar com artistas que me encantem, me provoquem e com quem eu possa continuar aprendendo. Neste ano, começamos a representar Flávia Ventura, uma jovem artista vencedora do Prêmio PIPA 2025, e Jac Leirner, uma grande artista brasileira, reconhecida internacionalmente, com obras em coleções como as do MoMA, da Tate e do Guggenheim.
CONTINENTE Qual a importância das feiras de arte em geral e da Art PE em particular?
NARA ROESLER As feiras de arte são momentos de aceleração dentro de um processo que é, por natureza, de longo prazo. Em poucos dias, reúnem artistas, galeristas, colecionadores, curadores e instituições, criando oportunidades de encontro, troca e circulação. Para além das vendas, dão visibilidade aos artistas, aproximam novos públicos e criam relações que podem se desdobrar em exposições e aquisições por museus e outros projetos.
A Art PE tem uma importância particular por ampliar o circuito artístico brasileiro. Para mim, que comecei minha trajetória em Pernambuco, é especialmente significativo acompanhar o fortalecimento da cena pernambucana e de suas conexões com o restante do país e com o exterior. A feira cria oportunidades para que artistas, galerias e colecionadores se encontrem, ao mesmo tempo em que estimula a formação de novos públicos e o desenvolvimento do mercado local. É uma alegria voltar ao Recife com os artistas com quem trabalhamos.
CONTINENTE O que acha que falta ao Brasil e a Pernambuco em termos de infraestrutura para o mercado de arte?
NARA ROESLER Precisamos dar continuidade ao que se constrói. Um museu precisa de equipe, conservação, pesquisa, recursos para adquirir obras e uma programação que aproxime o público. Os artistas precisam de oportunidades para produzir e mostrar seus trabalhos. Isso passa por museus, instituições culturais, políticas públicas de longo prazo, formação de público e estímulo ao colecionismo. Não basta produzir artistas extraordinários; é preciso criar condições para que eles possam desenvolver suas carreiras, apresentar seus trabalhos e estabelecer relações duradouras com o público e com as instituições.
Em Pernambuco, a qualidade dos artistas é evidente há muito tempo. Eu vi isso desde o começo. É importante que tenham condições de trabalhar, publicar, expor e circular, inclusive entre diferentes regiões do Brasil. Também precisamos estimular o interesse do público e aproximar as pessoas da arte. Esse trabalho depende de um ecossistema: artistas, galerias, museus, colecionadores, críticos e instituições atuando em conjunto.

Foto: cortesia da artista
CONTINENTE Qual o papel de uma galeria de arte para o artista, o mercado e o público?
NARA ROESLER O papel da galeria é representar o artista e acompanhar o desenvolvimento de sua carreira. É uma relação que envolve confiança e convivência. Você acompanha o desenvolvimento de uma pesquisa, as dúvidas, as mudanças.
Depois há todo o trabalho de produzir uma exposição, criar oportunidades e apresentar suas obras para colecionadores, instituições e museus, no Brasil e no exterior. E existe, claro, o lado comercial: é importante que o artista possa viver do seu trabalho. O mercado faz parte desse processo e também movimenta uma cadeia econômica importante ligada à cultura.
A galeria também tem um papel na difusão da produção artística. Por meio de exposições, livros e publicações, ajudamos a construir a história da arte e a dar visibilidade ao trabalho dos artistas. Foi pensando nisso que começamos, em 2011, nosso projeto editorial, que depois se tornou a Nara Roesler Books.
Para o público, gosto de pensar na galeria como um lugar de encontros. As exposições são abertas, as pessoas podem entrar, olhar, perguntar. Sempre gostei de receber, de conversar, de fazer as pessoas se sentirem à vontade.
Digo à minha equipe sempre: se alguém entrou na galeria, é porque tem interesse em arte. Temos que levantar, receber essa pessoa e estar disponíveis para conversar. Ela pode querer uma explicação ou preferir olhar sozinha. O importante é abrir essa janela. A arte contagia, e esse encantamento pode ficar para sempre na vida da pessoa.
CONTINENTE Qual você diria que é a linha curatorial da sua galeria?
NARA ROESLER Nunca quis me prender a uma escola ou a uma técnica. Trabalhamos com artistas de diferentes gerações, com pintura, escultura, fotografia, vídeo, instalações. Há pesquisas muito distintas convivendo na galeria. O que sempre me interessou foi a qualidade do artista, a força do pensamento e a capacidade que tem de transformar aquilo em uma linguagem própria.
Desde o começo, no Recife, eu já trabalhava dessa maneira: apresentava artistas pernambucanos ao lado de nomes de outras regiões do Brasil, artistas mais conhecidos ao lado de artistas que estavam começando. Para mim, essas aproximações sempre foram muito importantes. Também sempre dei espaço para os curadores proporem experiências. É nesse diálogo entre diferentes trabalhos, gerações e lugares que a arte se torna mais interessante.
CONTINENTE Ainda existe muito preconceito do Sudeste em relação ao Nordeste? O mesmo pergunto em relação ao Brasil no mercado internacional…
NARA ROESLER Existe, sim. Quando cheguei a São Paulo, em 1986, era uma mulher pernambucana querendo estabelecer uma galeria num meio competitivo. Tive que começar tudo de novo, trabalhando muito e mostrando no que acreditava. Naquela época, havia muito preconceito com quem vinha do Nordeste, especialmente com as mulheres. Então foi preciso desbravar, provar competência e insistir. Como a produção artística de Pernambuco circulava pouco fora do estado, precisei mostrar, com muita energia, a qualidade da nossa produção artística. Conhecia artistas, críticos, jornalistas, mas não conhecia os colecionadores. Mas tive amigos que me ajudaram muito, apresentando pessoas e acreditando no meu potencial.
Fui conquistando esse espaço com o programa da galeria, mostrando os artistas, recebendo as pessoas. Trouxe comigo uma maneira de acolher, de conversar. Hoje existe uma circulação maior e as pessoas estão mais abertas a conhecer outras histórias e geografias.
No circuito internacional, acontece algo parecido. O Brasil sempre teve uma produção artística muito forte, mas durante muito tempo ela foi vista de uma maneira mais restrita, quase como uma produção regional. O interesse internacional pela arte brasileira cresceu muito, e hoje temos artistas brasileiros presentes em grandes instituições, coleções e exposições no exterior. Mas ainda é preciso trabalhar para que essa presença tenha continuidade. É para isso que seguimos trabalhando.
CONTINENTE No que você aposta para o futuro em termos de estilo, técnica, mercado, galerias, museus, colecionadores, público e artistas?
NARA ROESLER Eu sou otimista e continuo apostando na arte e nos artistas. Eles nos surpreendem. Quero estar aberta para conhecer essas possibilidades. Mas acredito no encantamento, na qualidade e em artistas que desenvolvem uma linguagem própria. Acho que vamos ter cada vez mais diálogo entre diferentes técnicas e tecnologias, sem que uma substitua a outra.
No mercado, aposto cada vez mais em relações de longo prazo entre artistas, galerias, colecionadores e instituições. A tecnologia ajuda muito a divulgar, pesquisar, estabelecer contato.
E continua sendo um prazer encontrar uma obra, entrar numa exposição, conversar com um artista. Quero que a galeria siga criando oportunidades para esses encontros.
CONTINENTE Quais os maiores desafios da arte hoje? Como aliar o que vende fácil ao que é vanguardista, inovador, mas não fácil de vender? Existe essa questão de arte comercial e arte conceitual? Uma é menos arte do que a outra?
NARA ROESLER Uma obra pode ser mais fácil de vender e outra pode precisar de mais tempo para ser compreendida, mas isso não determina a sua qualidade. Um trabalho pode encontrar compradores rapidamente; outro exige tempo, formação, conversa. Acho que o mercado também se constrói dessa maneira, com paciência e relações de longo prazo. Também há trabalhos conceituais com mercado e pinturas que demoram a ser compreendidas. Essas classificações não resolvem a questão.
O nosso trabalho é acreditar nos artistas, dar condições para que desenvolvam sua pesquisa e criar plataformas para que seu trabalho encontre o público, os colecionadores e as instituições.
CONTINENTE Assim como o curador, o galerista é também um legitimador da arte, não é? Quais são as ferramentas que você utiliza para saber se deve apostar neste ou naquele artista e você poderia apontar grandes nomes da arte que foram descobertos por sua galeria?
NARA ROESLER O galerista tem uma responsabilidade grande ao escolher um artista e apresentar seu trabalho. Esse reconhecimento se constrói também com os curadores, os críticos, os museus, os colecionadores e, claro, com o público. Por isso, não gosto muito da palavra descoberta: o artista não começa a existir quando entra numa galeria. Muitas vezes, o trabalho já tem uma história. Abraham Palatnik é um exemplo muito importante. Com a ajuda do curador Frederico Morais, contribuímos para recolocar sua obra em circulação, aproximando-a de novos olhares. Sua obra é fundamental para a arte cinética e óptica brasileira e, em determinado momento, não recebia a atenção correspondente à sua importância.
Ao longo desses 50 anos, fui conhecendo e acompanhando muitos artistas. Não é simplesmente escolher uma obra que acho bonita; é acreditar naquela visão de mundo. Marcelo Silveira, Alberto Pitta, Marco A. Castillo, Artur Lescher, Daniel Senise, Cristina Canale, Jonathas de Andrade, José Patrício e Mônica Ventura, todos esses estarão na ART.PE deste ano.
Cada relação tem uma história, mas todas começam pelo encantamento. Quando me encanto, quero conhecer o artista, visitar seu ateliê, entender sua pesquisa. Foi assim com José Cláudio, o primeiro artista com quem trabalhei. Eu tinha 23 anos e comecei mostrando seus trabalhos na minha casa, no Recife, antes até da galeria.
CONTINENTE Você agora tem uma editora, não é? Qual a importância de investir nesse mercado de publicações?
NARA ROESLER Nosso projeto editorial começou em 2011, com a APC (Associação para o Patronato Contemporâneo), e depois se tornou a Nara Roesler Books. Já publicamos mais de trinta títulos. A editora nasceu do desejo de contribuir para a construção de um pensamento crítico sobre a arte contemporânea. Acredito que o livro tem um papel fundamental nesse processo: permite aprofundar pesquisas, reunir diferentes olhares sobre a produção de um artista e construir registros que permanecem ao longo do tempo. É também uma forma de ampliar o alcance do trabalho dos artistas, levando suas obras e trajetórias para além do espaço expositivo, às bibliotecas, livrarias, universidades e a novos públicos. Investir em publicações é, portanto, investir na pesquisa, na memória e na circulação da arte, criando outras possibilidades de acesso e diálogo com a produção artística.
CONTINENTE Você disse na última SP-Arte que não se acostuma com as vernissages, que fica sempre ansiosa se terá imprensa, público, enfim... Poderia comentar?
NARA ROESLER Depois de 50 anos, cada abertura continua sendo a primeira para mim! Fico ansiosa, quero saber se as pessoas vão, se a imprensa vai se interessar, como o trabalho será recebido. Não me acostumei. Por mais experiência que você tenha, há sempre uma certa ansiedade, cada exposição é única e envolve muito trabalho e dedicação.
A vernissage é também o momento em que a exposição deixa de ser nossa, da galeria e do artista, e passa a existir no encontro com o público. É quando temos a oportunidade de perceber como as pessoas recebem aquele trabalho, o que desperta seu interesse e quais diálogos podem surgir. Acho que essa expectativa faz parte do envolvimento que temos com tudo que fazemos.
CONTINENTE Poderia contar sobre alguns perrengues e curiosidades desse trajeto?
NARA ROESLER Recife é uma cidade linda, cortada por rios, com praias que sempre amei e uma visão inesgotável do horizonte. Mas também vi seus lados feios. Quando me casei, minha primeira casa ficava na beira do Capibaribe. Havia olheiros na cabeceira do rio. Meu avô recebeu um aviso da Capitania dos Portos de que vinha uma grande cheia e me pediu que não voltasse para casa naquela noite, mas eu quis ir. De madrugada, a água já estava subindo. Meu cunhado veio com um caminhão, e tentamos salvar o que podíamos. Voltei à casa quatro dias depois. Foi uma experiência difícil. Mas sempre segui em frente, com otimismo.
No trabalho, uma história curiosa aconteceu numa das primeiras feiras internacionais de que participamos, no México. Uma greve impediu que o público chegasse à feira. Foi um fiasco, mas, sem público, os galeristas começaram a circular pelos estandes uns dos outros, conversar e conhecer os programas artísticos. Daniel, meu filho, sócio e diretor da galeria, teve então a ideia de convidar artistas das galerias que havia conhecido para vir ao Brasil, montar exposições e conhecer de perto nossos artistas, a cidade o e Brasil. Assim começou o Roesler Hotel. Depois, o programa passou também a convidar curadores para desenvolver projetos experimentais na galeria, abrindo espaço para experiências e encontros. Hoje estamos na 30ª edição do Roesler Hotel, atualmente com a exposição coletiva Speaking in Tongues, com curadoria de Magalí Arriola. Então, às vezes, aquilo que parece um desastre naquele momento acaba abrindo uma porta de novas oportunidades.
CONTINENTE Quais outros profissionais são imprescindíveis em uma galeria além do galerista, do artista e do curador?
NARA ROESLER Uma galeria precisa de uma equipe muito diversa. Temos profissionais que acompanham os artistas e suas produções, profissionais que cuidam do acervo, da conservação, montagem, logística nacional, internacional e transporte das obras. Há pesquisa, comunicação, fotografia, design, edição de livros, atendimento aos colecionadores e às instituições. E toda a parte financeira, administrativa, de gestão de projetos, recursos humanos, tecnologia da informação, entre tantos outros. Cada área tem uma função fundamental para que o trabalho aconteça. Quando comecei, muita coisa estava concentrada em mim. Fui aprendendo a delegar para poder crescer. Hoje tenho uma equipe muito boa, que trabalha com dedicação e conhece os artistas. Tenho enorme orgulho dela.
SERVIÇO
5ª ART.PE — Feira de Arte Contemporânea de Pernambuco
Onde: Recife Expo Center | Recife, Pernambuco, Brasil
Quando: De 14 a 18 de outubro de 2026. Horários: quarta (14), das 14h às 21h (preview para convidados); quinta, sexta e sábado (15, 16 e 17), das 13h às 21h; e domingo (18), das 12h às 19h (última entrada sempre 1h antes do fechamento)
Quanto: Ingressos na Sympla