"Existe uma insistência em ignorar os sinais que a natureza dá"
Luana Vitra expõe na Pinacoteca de São Paulo a instalação “Bandeira Branca”, fruto de residência promovida pela pinacoteca em parceria com a grife Chanel
TEXTO Carol Botelho
23 de Setembro de 2026
"A separação da natureza sempre vem com consequências muito profundas"
Foto Rodrigo Reis/Pinacoteca de São Paulo
A artista visual mineira Luana Vitra foi a escolhida para uma residência promovida em parceria pela Pinacoteca de São Paulo e a grife de luxo francesa Chanel. A obra batizada de “Bandeira Branca” ocupa o Octógono, espaço de prestígio do edifício Pina Luz. Trata-se de um gigantesco arco suspenso que engatilha uma flecha com lanças apontadas para as duas extremidades. Na inferior, a lança está próxima da bandeira branca o suficiente para jamais tocá-la. Com o uso de facões, dormentes de trilhos e terras raras, a artista sugere reflexões sobre as guerras, a mineração e a exploração dos territórios. Em exibição de 5 de setembro a 31 de janeiro de 2027.
Nascida e criada em Contagem e acostumada às majestosas paisagens mineiras, Luana sempre conviveu com o que as destrói, a mineração. A materialidade de sua obra é, portanto, composta por esses materiais, os naturais e os industriais, usados para compor paisagens conflituosas.
Vencedora do Prêmio PIPA 2023, Luana tem 29 anos e já teve trabalhos na 35ª Bienal de São Paulo, em 2024, no MAM (RJ), no MASP (SP), e na Inglaterra, África do Sul e Holanda. Por e-mail ela nos concedeu a entrevista a seguir:
CONTINENTE Como é para você transformar essa questão da mineração tão predatória que acontece em Minas Gerais em arte? Como você chegou aos minerais?
LUANA VITRA Falar sobre a mineração e criar visibilidade a essas violências ativamente escondidas é um gesto de responsabilidade com minha própria história e com a história do meu território e com as comunidades que vivenciam um estado de tensão constante frente a negligência governamental sobre o assunto. Mas não é esse contexto de violência que me aproxima dos minerais, e sim um convívio mais íntimo e amoroso que estabeleci com eles no decorrer da minha vida.
O que me interessa é a perspectiva mineral, a voz, o tipo de conhecimento que esse ponto de vista traz para o mundo. Eles são a forma de vida mais antiga que conhecemos, certamente há muito a ser aprendido nessa relação, e nesse convívio eu me apaixonei pela ladainha incansável dos minerais.
O processo de mineração desenfreada que vivenciamos em Minas Gerais e em muitas outras partes do mundo é um problema muito grande e que não precisava ser assim se pensássemos um pouco mais na reciclagem dos metais que já foram extraídos e que sempre podem ser derretidos e transformados em novos produtos, ou se simplesmente tivéssemos uma regulamentação mais rígida, que respeitasse o território, a natureza e as comunidades ao redor dessas áreas. O modelo de mineração que temos no Brasil ignora todas as formas de vida ao redor em prol do lucro, e o desequilíbrio que isso gera nos faz encarar constantes catástrofes que poderiam ser evitadas com responsabilidade.
CONTINENTE Quando um vulcão entra em erupção, o que ele derrama é a paisagem. Essa frase é linda. E o que vem dela para o seu trabalho? Como você pensa o que para o ocidental são catástrofes naturais como erupções e terremotos?
LUANA VITRA Para mim, sempre existiu algo muito encantador nessa força destruidora da natureza, porque eu sinto nela tanto uma possibilidade de resposta a toda violência que imprimimos, quanto uma forma de comunicação com a exterioridade. Todo esse movimento interno do planeta que acontece na invisibilidade, a movimentação das placas tectônicas, a energia condensada no manto da Terra, desenha situações muito mágicas quando se torna visível, e foi assim que grande parte dos minerais que conhecemos vieram para a superfície da terra.
Não consigo olhar para isso e pensar só na presença humana e o quanto isso pode ser danoso para os humanos, porque essa expressão da natureza nos ensina também onde devemos e onde não devemos permanecer. Mas existe uma insistência em ignorar os sinais que a natureza dá. Por exemplo, quando o governo decide construir, como no caso de Belo Horizonte, uma cidade que ignora os rios, os oculta e constrói casas, prédios, onde seria o lugar para o rio seguir sua dinâmica orgânica de vida, somos colocados em posição de risco.
Infelizmente, não são os cidadãos comuns que escolhem isso, são as definições que vêm do governo. Eles criam falsamente uma sensação de segurança, as pessoas são levadas a construir as suas casas dentro desses contextos de risco e posteriormente vem uma chuva forte, esse rio explode o concreto que tenta oprimi-lo e toma o espaço que lhe pertence. Quando ignoramos a dinâmica da natureza, ao invés de aprender com os fluxos dela para fluir em harmonia, o sofrimento vem como uma medida orgânica. Aí se cria a ideia de desastre.
A separação da natureza sempre vem com consequências muito profundas. Mas é claro que isso não é uma regra, existem situações de racismo ambiental, onde pessoas empobrecidas ocupam lugares de risco por não terem outra opção de moradia, e também situações fora de qualquer previsibilidade. A natureza é uma presença que sempre vai nos surpreender, e isso invariavelmente desenhará alguns desastres para a raça humana. Porém, olhar para esses eventos naturais e enxergá-los simplesmente como catástrofes é absolutamente injusto, porque através desses eventos a natureza mostra uma parte muito expressiva da sua beleza e da sua potência incapturável e indomesticável.
CONTINENTE Poderia falar da obra “Zanzando em trama é armação de arapuca”? Qual a maior armadilha da arte contemporânea?
LUANA VITRA Meu pai me ensinou a fazer armadilhas desde criança. Nós costumávamos ir pescar aos domingos em uma lagoa que tinha perto de casa e com isso ele me ensinou a fazer e a ser uma armadilha. O movimento do meu pai me levou organicamente a pensar de maneira mais ampla a ideia de auto-defesa. “Zanzando em trama é armação de arapuca” é um trabalho onde faço uma viagem na qual vou ao encontro de pessoas que fabricam armadilhas para aprender diferentes tipos de captura. Esse processo deu fruto a minha primeira instalação, que marca essa virada no meu trabalho onde saio do objeto e vou para o espaço.
Seria difícil dizer qual a maior armadilha da arte contemporânea, mas acho que eu poderia dizer de uma delas: a crença na ideia de poder é uma armadilha muito traiçoeira, que muitas pessoas caem. Principalmente quando essa ideia de poder se dá num lugar externo à natureza real da sua própria potência. Toda a ideia de poder que é pré-fabricada, tende a ruir e tende a criar seus desastres.
O único poder real que a gente pode acessar dentro dessa dinâmica, de fazer arte ou lidar com ela, seria o acesso à nossa própria potência. Isso é algo que todo mundo tem dentro de si, mas precisamos encontrar uma maneira para que isso desperte, cresça e se desenvolva enquanto linguagem. Sempre que a gente se afasta da ideia de potência e se aproxima da ideia de poder, estamos caindo nessa armadilha que, no final, é uma armadilha criada pelo mercado.
O artista para existir dentro desse contexto da arte precisará se aproximar de inúmeras instâncias de poder, por vezes mais suaves, por vezes mais agressivas, mas a única coisa que um artista tem nas mãos é sua própria potência. O poder é sempre do outro, e eles fazem o que quiserem com o poder que têm, enquanto nós podemos também fazer o que quisermos com nossa própria potência. É Importante não misturarmos as ideias de poder e potência e quem separadamente as agência.
Essa é uma armadilha das que mais vejo as pessoas serem capturadas. Se o poder ao se relacionar com a potência pensa que ele em si possui potência, ele se engana. Se a potência ao se relacionar com o poder, pensa que ela em si tem poder, ela se engana. Quando um artista acredita que tem poder, o que está sendo capturado é exatamente a potência, e quando ela é capturada, não existe mais nada a ser dito, a pessoa perde a veiculação da voz.
CONTINENTE Poderia comentar sobre sua parceria com a Chanel?
LUANA VITRA Todo ano a Chanel escolhe um dos projetos da programação da Pinacoteca para apoiar, oferecendo uma residência internacional. Eu havia recebido o convite para expor no octógono há mais de dois anos, e fui desenvolvendo o projeto aos poucos dentro desse tempo. Este ano, um pouco antes de entrarmos no processo de produção da obra, soube que meu projeto foi escolhido para receber a residência, e fiquei muito feliz com essa escolha porque ela possibilita dois momentos totalmente diferentes dentro do processo criativo.
A energia que um artista investe para fazer uma exposição é totalmente diferente da energia que colocamos num processo de residência, e especialmente agora que estou investigando a presença do ferro no cosmos e adentrando uma dimensão ainda mais científica dentro da minha pesquisa. Essa residência se encaixou perfeitamente como algo que me oferece condições para construir o próximo momento do meu trabalho. Não tenho ainda informações mais detalhadas acerca da residência para compartilhar, porque ainda não sei com precisão onde ou quando será. Primeiro, junto à equipe da Pinacoteca, focamos na exposição e, em breve, vamos investigar juntos esse segundo momento.
CONTINENTE “Latas para transporte de paisagens” fala de exportação, exploração, monocultura, paisagem urbana... Poderia comentar essas problemáticas nossas de todo dia?
LUANA VITRA As paisagens vivenciam processos orgânicos de transformação, e ao mesmo tempo existem processos não tão orgânicos assim, que partem do gesto humano sobre elas. Dentro disso, poderíamos pensar a exploração e exportação das matérias, a monocultura, ou até mesmo essa quantidade exacerbada de obras no meio urbano, onde as construções não têm nem tempo de envelhecer e já são destruídas para se construir novas, essa dinâmica de descarte e uma busca excessiva pelo mais atual.
“Latas para transporte de paisagens” é uma série que nasce da observação dessa transformação acelerada da natureza a partir do capitalismo e da humanidade, e emergiu em um dia em que estava caminhando na rua e vi um pedreiro carregando várias latas de terra, da parte dentro para o lado de fora de uma casa. Isso me fez perceber que sempre que uma matéria se desloca, na verdade o que está se deslocando é a paisagem em si. Comecei a me aprofundar na problemática desses deslocamentos que vivenciamos.
É um trabalho que nasce do incômodo com o tipo de comida que somos levados a comer, o tipo de lugar que somos levados a viver, a maneira como entregamos nossa terra quase de graça para o capital estrangeiro, a maneira com que a terra é explorada e tudo dela é arrancado e não fica nenhum benefício de nada disso.
CONTINENTE Qual a importância da palavra, da escrita, em sua poética artística?
LUANA VITRA A escrita me foi ensinada desde a infância. Minha mãe é alfabetizadora e alfabetiza os alunos através da poesia. Infelizmente não foi minha mãe que me alfabetizou, no sentido de me ensinar a ler as palavras, mas felizmente foi ela quem me ensinou a ler o mundo. A escrita é um lugar muito importante de elaboração para mim, ao mesmo tempo que é meu espaço de delírio.
Poderia dizer que o principal gesto da minha prática é o ato de delirar as coisas a partir da poesia e descobrir o que mais elas podem ser senão isso que cotidiana e resumidamente vemos por aí. Em alguma medida, a palavra me ensina a criar as formas. A metáfora e o desdobramento da palavra dentro das suas possíveis flexões revela inúmeros caminhos, e para mim é um prazer percorrer toda essa infinidade. Resgatar teorias abandonadas ou elaborar realidades paralelas que ainda não estão disponíveis até que sejam pronunciadas são meus maiores prazeres. Por fim, é o que posso fazer frente a insuficiência do mundo.