Entrevista

“Eu me considero uma ‘atora’, uma atriz diretora”

Em passagem pelo Recife com a peça Fim de partida e homenageada em ocupação no Itaú Cultural, Helena Ignez fala sobre sua atuação no cinema e no teatro brasileiros

28 de Julho de 2026

Foto Leopoldo Conrado Nunes

Helena Ignez trabalhou em cinco dos 100 melhores filmes nacionais reunidos na última votação da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Apesar de não ser tão conhecida quanto Sonia Braga, Fernanda Montenegro ou Fernanda Torres, que também estão bastante presentes na lista, sua importância é tão fundamental quanto a dessas atrizes. A principal diferença é que ela sempre escolheu seguir um caminho radical e praticamente se recusou a ser famosa ao negar trabalhos na televisão e em produções mais convencionais. Não quis trabalhar na Globo e preferiu ficar na produtora Belair junto com os cineastas Júlio Bressane e Rogério Sganzerla, com quem foi casada, teve duas filhas e atuou em clássicos como O bandido da luz vermelha (1968).

Em 2026, aos 87 anos de idade, Helena continua a se desafiar a cada novo trabalho, seja como atriz ou cineasta. Em julho, ela esteve no Recife no elenco da peça Fim de partida, ao lado dos atores Marco Nanini, Guilherme Weber e Ary França, baseada no texto de Samuel Beckett. Na mesma semana da passagem do espetáculo por Pernambuco, ela foi homenageada em São Paulo com a exposição panorâmica multimídia Ocupação Helena Ignez, no Instituto Itaú Cultural, que continua em cartaz até 18 de outubro na Avenida Paulista. Um bom balanço de sua trajetória também pode ser encontrado no sensível documentário A mulher da luz própria (2019), dirigido por sua filha Sinai Sganzerla, disponível em plataformas de streaming.

Pátio (1959), primeiro curta de Glauber Rocha, Assalto ao trem pagador (1962), de Roberto Farias, O padre e a moça (1966), de Joaquim Pedro de Andrade, e Cara a cara (1967), de Júlio Bressane, também estão entre os filmes mais marcantes da primeira fase de seu trabalho no cinema. Depois de outras obras essenciais e alguns intervalos longe das câmeras e dos palcos, ela tornou-se diretora no século XXI com filmes como A canção de Baal (2007) e A moça do calendário (2018). Mais recentemente, integrou o elenco de Gravidade (2025), dirigido pelo pernambucano Leo Tabosa, que ainda não estreou no circuito de cinemas. Atuou ainda em animações ao gravar sua voz nos curtas Vênus: Filó, fadinha lésbica (2017), de Sávio Leite, e Carne (2019), de Camila Kater.

Nesta entrevista exclusiva cedida à revista Continente, a artista baiana fala sobre sua relação com Pernambuco e comenta sobre trabalhar com grandes autores do cinema e do teatro, além da experiência de dirigir Ney Matogrosso em quatro longas-metragens, uma parceria que começou com Luz nas trevas: A volta do bandido da luz vermelha (2010).

CONTINENTE Desde sua colaboração com as Ligas Camponesas, criadas pelo pernambucano Francisco Julião, até sua participação em Gravidade, novo filme de Leo Tabosa, como tem sido sua relação com Pernambuco?
HELENA IGNEZ Eu tive inúmeras passagens por Pernambuco. Sempre tive uma ligação profunda com o estado e com os pernambucanos. Participei das Ligas Camponesas, que foram a mãe do Movimento Sem-Terra. Com 23 anos, ainda aluna da escola de teatro, esse movimento me interessou como nova abertura da minha vida. Minha participação foi na Paraíba, junto a Francisco Julião. Em 2015 e 2017, eu também participei do festival Janela Internacional de Cinema do Recife, a convite de Kleber Mendonça Filho, com meus filmes Ralé e A moça do calendário, no Cinema São Luiz. Tenho extrema admiração por ele. Sempre dialoguei muito também com Lírio Ferreira. Em Gravidade, do pernambucano Leo Tabosa, contracenei pela terceira vez com a maravilhosa atriz Marcélia Cartaxo.

CONTINENTE Como você enxerga a representação do conjunto de sua obra a partir da exposição Ocupação Helena Ignez?
HELENA IGNEZ A exposição foi elaborada ao longo de dois anos com um carinho e uma dedicação enormes. Ficou absolutamente linda e muito didática. Eu tenho uma trajetória bastante singular. Eles falam que sou a primeira cineasta a receber uma Ocupação no Itaú Cultural, mas vejo que sou uma cineasta com um lastro muito importante e forte de atriz, desde sempre. A cineasta veio com 62 anos. A atriz veio com 18. Eu me considero uma “atora”, uma atriz diretora. A performance, as atuações do corpo e da palavra são mais fortes em mim. A imagem veio depois. Pátio, o primeiro curta dirigido por Glauber Rocha, na verdade, foi um filme nosso, com toda aquela parte coreográfica que era meu trabalho, mas naquela época não se colocava todos os nomes nos créditos. A coreógrafa Yanka Rudzka, uma das fundadoras da dança moderna, foi uma das minhas primeiras professoras, quando eu tinha 19 anos. Em 2006, em uma homenagem a Glauber em Bobigny, em Paris, eu revi Pátio restaurado e havia na plateia um grupo de meninos encantados. Um deles era o brasileiro Pedro Guimarães, que fez o livro Helena Ignez: Atriz experimental, muito bem escrito, que não é biográfico. É um estudo sobre meu trabalho.

CONTINENTE Você veio ao Recife para se apresentar com a peça Fim de partida, de Samuel Beckett. Como você concilia seu experimentalismo com autores mais clássicos do teatro, como Brecht, Beckett e Stanislavski?
HELENA IGNEZ Esses autores são experimentais até hoje. Sempre serão vistos como experimentais. Estou incrivelmente encantada por Beckett, a verdade é essa. Vejo nele a ironia e o tipo de humor de Rogério Sganzerla, extremamente parecido. Ele também diz coisas terríveis, como: “Não gostamos de gente” [frase dita pela personagem de Helena Ignez em A Mulher de todos, filme de 1969, de Rogério Sganzerla]. A peça tem uma crítica ligeira ao nazismo, mas é mais do que isso. É uma crítica ao ser humano. Os personagens são o tirano e o servo, que estão dentro da gente. O Teatro do Absurdo me interessa muitíssimo porque as coisas não são explicáveis, existe um mistério. Estou encantada com esse trabalho, a direção de Rodrigo Portella é muito interessante. Marco Nanini é um ator extraordinário e começou comigo na peça Salomé em 1968, quando ele estreou na figuração. Ele adora contar essa história para dizer que é mais jovem do que eu. Foi no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, com direção de Martim Gonçalves, a quem eu devo a minha formação. Nanini também era aluno de Martim, olha que coincidência. Eu fui formada pelo Método Stanislavski. No Padre e a moça, eu era o exemplo do Stanislavski. Tanto é que eu ganhei prêmios e prêmios por ele. Quando A mulher de todos foi lançado em seguida, chegou a ficar chato para mim. Minhas amigas atrizes que eu amava iam aos festivais comigo, mas eu ganhava os prêmios porque eu tinha uma formação extraordinária de teatro na Bahia com Stanislavski e Brecht na veia. O padre e a moça é um filme naturalista e Stanislavski leva a um naturalismo profundo e reflexivo. Eu realmente tinha método. A Canção de Baal, um dos primeiros filmes que dirigi, é baseado em um livro de Brecht, sobre um personagem horroroso e charmosíssimo, um músico e poeta por quem as mulheres se matavam. É um machista disfarçado de intelectual e eu tenho bastante experiência com esse tipo. Ganhei o prêmio da crítica no Festival de Gramado com esse longa em 2009.

CONTINENTE Você considera que as premiações foram importantes no início de sua trajetória, em plena ditadura, para lhe proporcionar respeito?
HELENA IGNEZ Os prêmios me fizeram ser altamente invejada e não era isso o que eu queria. Por isso eu fugia das cerimônias de premiação. A vida não é isso. Não me interesso por isso.

CONTINENTE Você faz mais trabalhos experimentais porque prefere pessoalmente ou porque não a convidam para projetos mais tradicionais e convencionais?
HELENA IGNEZ Eu tenho liberdade e autoria sobre minha própria vida. Nunca fiquei à disposição de ninguém. Eu recusei fazer televisão. Eu estava fazendo Hair e saí no primeiro mês. Minha substituta foi Sonia Braga, que era minha stand in. Todas as minhas colegas da peça foram para a Globo e eu não me interessei. Preferi fazer a Belair com Rogério e Júlio Bressane. Até hoje eu sou absolutamente igual, ainda mais exigente e mais radical.

CONTINENTE Você também é assim como espectadora ou gosta de ver também filmes hollywoodianos e novelas?
HELENA IGNEZ Eu vejo todos os bons filmes do cinema brasileiro, de todos os jovens diretores, inclusive da minha própria filha, Djin. Adorei Manas. Adoro Kleber, tenho paixão, acho magnífico. Esse cinema, eu vejo. Eu não veria A odisseia, mas sou capaz de ver só por causa de Mia Goth, a neta de Maria Gladys, que faz filmes de terror mais experimentais com interpretações estranhas maravilhosas. Assisti a um episódio de Renascer e gostei. Não tenho nada contra a TV, mas os atores não podem deixar de acreditar que possuem um trabalho muito bonito e só fazer aquelas coisas naturalistas na TV. Há atores maravilhosos que às vezes se limitam apenas a esse tipo de atuação. Outros não.

CONTINENTE Você viu o filme Homem com H, sobre Ney Matogrosso, um artista com quem você tem uma parceria artística?
HELENA IGNEZ Eu dirigi Ney Matogrosso em quatro filmes. Não tínhamos uma relação muito próxima, apesar de ele já ter sido iluminador de uma peça minha. Na época, ele também trabalhava como iluminador de teatro. Minha aproximação com ele é muito autêntica, verdadeira e direta. Ney estava fazendo um filme de Joel Pizzini, com minha filha Paloma como assistente e produtora. Para interpretar o Bandido da Luz Vermelha em Luz nas trevas, Rogério não queria um homem machão, preferia uma duplicidade, uma pessoa com uma outra realidade. Fui ver um show e pensei: “É o Ney”. Ele aceitou, na mesma hora. Ainda não vi o filme com Jesuíta Barbosa, mas conheço toda a história de Ney contada por ele mesmo.

CONTINENTE Você fez um intervalo nos trabalhos como atriz nos anos 1970 e outros na metade dos anos 1990. O que te fez parar nesses períodos e o que eles trouxeram pro seu trabalho quando você voltou a atuar?
HELENA IGNEZ Eu entrei em um estudo profundo de tai chi chuan, o que me faz graciosamente andar e me movimentar bem aos 87 anos. Foram 15 anos de extrema dedicação. Ao mesmo tempo, eu cansei um pouco do que eu era. Fui ser monja. Entrei no Movimento para a Consciência de Krishna, os Hare Krishna. Entrei mesmo, de cabeça. Passei um tempo nos templos, ia e voltava pra casa com minhas filhas. Nos Estados Unidos, fui realmente monja em um templo interessantíssimo em Miami, na Collins Avenue, que era na praia, na areia. Também fui monja em Pindamonhangaba, um lugar lindíssimo com rios passando. Foi em períodos misturados. Às vezes, eu voltava para fazer alguns filmes realmente bons. Foi depois do nascimento da minha filha Sinai. Eu queria entrar na vida, na natureza, de forma muito forte. Rogério não entrou nessa, mas ele continuou como um monge do cinema. O tai chi me trouxe um autoconhecimento corporal, na parte física, importante para a performance. O corpo é um reflexo da minha alma. Como monja Hare Krishna, ganhei um conhecimento sobre mim mesma, sobre a vida. Eu entrei no Hare Krishna pra valer, eu ia ficar lá para sempre. Foi um movimento muito forte. Desenvolvi a concentração e a capacidade de ficar sozinha. Vejo colegas de profissão que não conseguem parar. Eu os amo de paixão, mas acho que a vida não é só isso. Eu quis viver na natureza, no mar, às vezes de forma extremamente perigosa, inclusive na psicodelia. Hoje estou satisfeita com a vida e também com a morte.

CONTINENTE Por que o cinema ocupou mais espaço que o teatro em sua trajetória? Você prefere alguma das duas linguagens?
HELENA IGNEZ Eu acho que é quase igual. Trabalhei com grandes diretores de teatro, passei por Ziembinski. Com André Guerreiro Lopes, fiz O belo indiferente, de Jean Cocteau, e Insônia, de Titus Andronicus e Shakespeare. Ganhei prêmios no teatro e fui indicada ao Prêmio Shell. Há 26 anos, fiz uma peça que considero histórica, Savannah Baby. Fiz teatro a vida toda, mas realmente o cinema aparece mais. Fiz teatro de alto nível, mas tudo meio pingado. Uma outra coisa que me honra muito é ter dirigido José Celso Martinez no filme Ralé, pelo qual ele chegou a ser premiado no festival Mix Brasil. A arte é a atuação. O ator tem a ferramenta de atuação que é adaptada para cada tipo de trabalho, seja no teatro, no cinema ou na animação. Eu acho horríveis aqueles workshops de “atuação para a câmera”. Não é uma questão de domínio para a câmera, é um relacionamento. O ator tem uma arte, ele tem que estudar e pesquisar nele mesmo.

CONTINENTE O que significa ter luz própria no trabalho de atriz, como sugere o título do documentário de Sinai?
HELENA IGNEZ Ela escolheu muito acertadamente o nome do filme. Decidi deixá-la fazer o filme livremente, fiquei um pouco afastada. Uma vez, o crítico Luiz Carlos Merten escreveu um texto com o título “Helena Ignez e Seus Dois Maridos”. Eu adorei, achei engraçado. Outra vez, na Mostra de Cinema de Tiradentes, um menino queria me conhecer porque eu tinha sido casada com Glauber Rocha. Acho que o nome do documentário é uma provocação sobre isso.

CONTINENTE Alguns de seus trabalhos mais marcantes são personagens marginalizadas, como prostitutas, bandidos e vampiras. Que fascínio você acha que eles exercem no público e nos artistas?
HELENA IGNEZ Eu sofri preconceitos com A mulher de todos. Eu era a puta, que mostrava os peitos e fazia aquelas coisas no cinema. Também foi por isso que eu me afastei, por me tratarem daquele jeito. Em nenhum momento do filme eu me ofereço, eu sou altamente agressiva, não era sexy. Não era uma sexualidade oferecida, era raivosa. As prostitutas e vampiras são marginais, mas são atraentes. Hoje a juventude estuda e adora nossos filmes. Algumas jovens choram quando me encontram, encantadas. 

CONTINENTE Você considera que o Cinema Marginal foi mesmo um movimento, assim como o Cinema Novo?
HELENA IGNEZ Acho uma sacanagem profunda esse rótulo de Cinema Marginal. Rogério era um menino e chegou quebrando os vidros, o que incomodou o pessoal do Cinema Novo, que já era um movimento poderoso. Foram em cima dele vergonhosamente e criaram essa história de Cinema Marginal. Ele era crítico de cinema desde os 17 anos, já tinha um nome. Eu o conheci quando ele escreveu uma crítica de uma página inteira sobre O padre e a moça e me convidou para fazer O bandido da luz vermelha, que teve 3 milhões de espectadores nos cinemas de rua. Não é um filme marginal.

CONTINENTE Os verdadeiros marginalizados do cinema brasileiro seriam aqueles que historicamente não tiveram acesso aos meios de produção?
HELENA IGNEZ Esses são os famintos para se expressar. É a maior parte da população brasileira e é o que há de melhor na arte no momento atual. Mais do que corpos, são outras ideias, que surgem desses corpos. Agora, essas pessoas precisam ser amadas. Não basta existir leis. No filme Gravidade, de Leo Tabosa, que filmamos no Ceará, a personagem principal é interpretada por Danny Barbosa. Ela quebra os preconceitos e ideias sobre as mulheres trans. Na primeira vez que nos encontramos, em uma refeição com a equipe, ainda não tínhamos sido apresentadas. Percebi uma qualidade de personalidade fortíssima, poderosa. A gente se entendeu muito bem. Ela não queria só o respeito, mas o amor.

CONTINENTE No momento desta entrevista, você veste uma camiseta com um retrato de Jimi Hendrix. Você o conheceu pessoalmente?
HELENA IGNEZ Sim. Rogério fez um filme sobre Hendrix, chamado O Abismo. Fomos a um show dele na Ilha de Wight, na Inglaterra. Quando eu assisti ao show, Gilberto Gil estava ao meu lado, chorando. Hendrix era de chorar, um escândalo… Mas eu não sou fã dele, não tenho essas coisas. Eu sou fã mesmo é de Raul Seixas.

JULIO CAVANI, jornalista, crítico de cinema, curador do festival Animage e diretor do curta-metragem História natural

veja também

Um mistério na história da bossa

“Nunca fiz parte de nenhum movimento”

“Espero ter muito tempo para escrever mais”