Entrevista

"Você tem que se obrigar a parar de reescrever"

Com 'Extremo Oeste', livro vencedor do Prêmio Cepe Nacional de Literatura, autor paranaense conquista a nova categoria do Prêmio Jabuti, Escritor Estreante, e fala sobre processo de escrita

TEXTO Débora Nascimento

07 de Dezembro de 2023

Autor lançou primeiro romance, ao vencer prêmio de literatura da Cepe Editora

Autor lançou primeiro romance, ao vencer prêmio de literatura da Cepe Editora

FOTO Leonardo Wen / Divulgação

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Na terça-feira (5), aconteceu, no Theatro Municipal de São Paulo, a cerimônia de entrega de um dos prêmios de literatura mais respeitados da língua portuguesa. Em sua 65ª edição, o Jabuti apresentou uma categoria inédita, Escritor(a) Estreante (Eixo Inovação), vista, pela Câmara Brasileira do Livro, organizadora do concurso, como uma oportunidade de visibilidade a um autor em seu début. O primeiro vencedor foi o paranaense Paulo Fehlauer, com Extremo Oeste. O livro já havia vencido o VI Prêmio Cepe Nacional de Literatura, sendo lançado em junho de 2022.

Em Extremo Oeste (Cepe Editora), um amigo de infância desaparecido motiva o narrador a traçar uma história, ao longo de 224 páginas, no contexto da tentativa de encontrá-lo. Ao longo da narrativa, fotografias em preto e branco, memórias e cartas são utilizadas para revelar sentimentos e ambientes que também servem como rastros desse possível paradeiro. Em vários capítulos, o narrador se questiona sobre se, de fato, existe uma história a ser contada: “É que talvez não haja uma história, se posso ser franco. Talvez não haja um começo possível e o fim se dê em um gesto de desistência. Ou de abandono. Talvez esta seja a única forma de falar de algo que não existe. Mas é claro que alguma coisa sempre existe”.

Nascido em Marechal Cândido Rondon, oeste do Paraná, em 1982, Paulo Fehlauer reside em São Paulo (SP) há 20 anos. Graduado em Jornalismo pela USP, em 2009, ele é mestre em Estudos Literários pela Unifesp, fotógrafo, produtor audiovisual e artista visual. Em 2008, fundou o Coletivo Garapa, com o qual desenvolveu uma trajetória artística que inclui trabalhos exibidos em instituições como Masp, MAM-SP, MIS-SP e Instituto Moreira Salles.

Nesta entrevista à Continente, Paulo Fehlauer fala sobre o prêmio, o livro, sua inspiração e a importância da oficina literária onde compartilhou inicialmente o processo de escrita e a leitura de sua primeira obra de ficção.

CONTINENTE Você pode descrever a emoção de ganhar um Prêmio Jabuti, inaugurando a categoria de Escritor Estreante?
PAULO FEHLAUER A gente sempre fica se preparando mais para não ganhar do que pra ganhar, né? Então, fiquei tentando criar, digamos, justificativas pra me convencer, pra me tranquilizar, caso não ganhasse, que é sempre a maior probabilidade, estatisticamente. Mas eu lembro que também não me preparei muito pra ser o vencedor, e foi muito marcante, uma surpresa, emocionante. E depois lembro que eu fiquei, algum tempo ainda, um pouco aéreo, sem entender muito bem o que tinha acontecido, que eu tinha sido o vencedor, e tal. Mas, no geral, além dessa experiência, ali no dia, que foi bastante marcante, eu fico muito feliz. É um processo longo de construção de escrita de um romance. E o primeiro romance, um livro de estreia, envolve também aprender a escrever um romance. Então, é um pouco entender e reconhecer que esse trabalho tão árduo, às vezes tão cansativo, que você pensa até em desistir de terminar o livro, de ver isso como reconhecimento desse processo. Então, eu fico bem emocionado. Dois dias depois, ainda estou entendendo o que isso representa.

CONTINENTE Você levou quanto tempo pra escrever esse livro?
PAULO FEHLAUER Então, das primeiras ideias até a entrega da última versão, pro Prêmio Cepe, quando ele foi para o público, que viabilizou a publicação, ele levou mais ou menos uns 10 anos. Claro que isso não foi um tempo contínuo, né? Teve momentos de guardar na gaveta, teve momentos mais ativos de construção, mesmo. Teve também trabalho de revisão, e a cada vez que eu relia, né, acabava mexendo alguma coisa. Então, o período todo, que essa ideia ficou sendo trabalhada, é mais ou menos esse, 10 anos, mas, obviamente, não de uma forma contínua.

CONTINENTE Você já afirmou que o livro foi concluído quase como um abandono do final dele. Como foi isso?
PAULO FEHLAUER Na verdade, isso tem um pouco de escritor de primeiro livro. A gente fica muito inseguro com o próprio texto, e acho que eu não cheguei a pensar em desistir do livro, mas, a entrega dele, como entrega final, para publicar, eu brinco que é uma espécie de desistência, porque você para de mexer. Você tem que se obrigar a parar de mexer, de reescrever. Então, a partir daquele momento, quase que dá para dizer que o livro não é mais seu, que o livro tem vida própria, na verdade. 

CONTINENTE E essa ideia da história surgiu como?
PAULO FEHLAUER Eu sou do interior do Paraná, do oeste do Paraná, que é uma região que eu acho, e eu sempre achei, quer dizer, fui construindo essa ideia, de que é uma região que condensa muitas das tensões pelas quais o Brasil passou, desde, pelo menos, a chegada dos portugueses, porque é uma região de fronteira, uma região tradicional para os índios guaranis da região, tem as Sete Quedas, tem o Rio Paraná, a Usina de Itaipu. Então, tem muitas coisas, muitas camadas se sobrepõem ali. E, ao longo dos anos, depois que eu fui trabalhando, principalmente com fotografia, com audiovisual, comecei a estudar muito, justamente essa ideia da história e da paisagem, como esse emaranhado de camadas, essa sobreposição de camadas de histórias. Em algum momento eu me senti seguro o suficiente para falar, preciso contar essa história, e ela tem que ser uma história contada por meio da literatura. Mas aí, junta tanto uma experiência, uma formação pessoal, desde a minha infância, com uma formação, também, como artista, como alguém que pensa narrativas, que pensa a história criticamente. Comecei a sentir também, a partir justamente do simbólico, seja na época em que eu trabalhava mais com fotografia, seja com a literatura.

CONTINENTE No começo do livro, você chega a escrever que quase não há uma história. Por que você escreveu isso?
PAULO FEHLAUER É, na verdade, um dos personagens fala que talvez não haja uma história. E aí o outro personagem, o amigo dele, constrói a narrativa, a partir dos fragmentos que o primeiro personagem fala que não constroem uma história. Então, quase fica nessa tensão o tempo todo. Um deles dizendo que talvez não haja uma história, que é a história pessoal dele, da família dele, e esse outro, que é quem vai realmente dar forma, dizendo que, sim, que, na verdade, tem uma história. Então, fica nesse jogo o tempo todo.

CONTINENTE Qual foi a importância desse livro ter sido concebido em meio a uma oficina literária?
PAULO FEHLAUER Acho que é um pouco aquilo que eu comentei antes sobre a insegurança. Uma boa parte desse livro foi construída durante essa pós-graduação que eu fiz, além de outras oficinas pontuais que eu fui participando. E o que isso me ofereceu foi justamente um ambiente de troca, um ambiente em que você mostra o seu texto para os colegas, os colegas leem, comentam, criticam… Então, você vai compreendendo um pouco mais o olhar do leitor. E isso foi, ao longo do tempo, dando um pouco mais de segurança, desfazendo um pouco aquela insegurança que eu tinha quando eu trabalhava o texto por conta própria. Então, isso foi muito importante, isso foi muito construtivo para o livro, porque forneceu justamente esse ambiente em que eu tinha pessoas próximas que acompanharam, que foram acompanhando também o desenvolvimento, que foram lendo e comentando e percebendo os caminhos que eu tomava. Não só os colegas de turma, mas também os professores. Por isso, foi muito importante.

CONTINENTE Inclusive, porque é uma profissão muito solitária…
PAULO FEHLAUER É, eu ia complementar que eu não acho que seja possível ensinar a escrever, não é isso por propósito, não é ensinar a escrever, mas é justamente dar ferramentas, e especialmente essa comunidade, para que o texto surja, e ganhe consistência. Então, isso foi muito importante.

CONTINENTE Como a literatura surgiu em sua vida?
PAULO FEHLAUER Sempre fui, desde muito pequeno, muito estimulado a ler, na família, e sempre gostei muito. Não venho de uma família de intelectuais. Venho de uma família que saiu da zona rural. Eu sou da geração que já nasceu na cidade, mas meus pais nasceram na zona rural. E acho que, talvez justamente pela escassez, pelo que eles passaram, eles também sempre me incentivaram a ler e correr atrás de conhecimento e tal. Então, por mais que eu não tivesse uma grande biblioteca em casa, mas mesmo lá no interior do Paraná, só tinha acesso à biblioteca pública, que tinha o essencial, de literatura infantil à coleção Vagalume, a outros livros que eu fui lendo de literatura brasileira. Sempre gostei muito de escrever, também. Acho que foi isso, um caldo que foi sendo gerado e que também foi bastante estimulado. Na verdade, eu fiquei muito tempo sem escrever diretamente, sempre li muito. Mas, em algum momento, eu tive um estalo. Já trabalhava um pouco, já atuava um pouco como jornalista e artista visual, mas deu esse estalo de escrever, mesmo, e aí eu me reencontrei com a literatura, pelo lado da escrita.

CONTINENTE Quais são seus autores prediletos?
PAULO FEHLAUER Nossa, isso é difícil. Acho que depende muito do momento. E cada livro, também, dialoga com muitos autores que não necessariamente ficam com a gente para a vida toda. Mas, por exemplo, no Extremo Oeste, inclusive, é um livro que está cheio de referências literárias, então muitos desses autores estão presentes no livro, estão citados no livro. Então acaba que o livro também conta um pouco dessa comunidade de autores. Guimarães Rosa é um nome do qual não consigo escapar, está sempre presente na minha... na minha biblioteca, mesmo que eu... mesmo que o livro, por exemplo, Extremo Oeste, não tenha tanto daquela experimentação que o Guimarães fazia. Tem aí um autor alemão, W. G. Sebald, que me abriu as portas para justamente fazer um diálogo entre a fotografia e o texto, porque o meu livro é bastante entremeado por fotografias. Então, esse diálogo vem muito da leitura desse autor, o Sebald. Eu vinha lendo muitos diários. Acho que isso também foi muito importante, diário da Natalia Ginzburg, do Cesare Pavese. Hoje eu faço doutorado em literatura, já estudo um outro universo, que são autores latino-americanos, que na época não tinha tanto repertório.

CONTINENTE Por que essa inserção de tantas fotos no livro? Como foi essa decisão?
PAULO FEHLAUER Isso quase não foi uma decisão, é uma pesquisa que eu venho desenvolvendo já há bastante tempo, e que ganha várias formas, conforme vou desenvolvendo. Então, dá para dizer que começa no jornalismo, porque eu venho do jornalismo, e do jornalismo eu fui, já, para o fotojornalismo primeiro, e aí, do fotojornalismo, fui para as artes visuais, trabalhando com fotografia, e, nesse percurso, sempre trabalhei buscando propor diálogos entre a fotografia, primeiro, com mais ênfase, e a literatura. Então, depois foi uma espécie de tentativa de explorar esse contato, esse diálogo entre fotografia e literatura por um outro prisma. Daí eu fui fazer mestrado em letras, estudei um livro de um autor brasileiro chamado Joca Reiners Terron. Ele pode ser citado naquela lista de referências. Então eu fui desenvolvendo esse olhar para esse contato entre fotografia, imagem e texto de várias formas. Primeiro, nas artes visuais, depois no mestrado, no romance, Extremo Oeste, e agora também no doutorado, pesquiso a mesma coisa. Então, é como se fosse uma coisa só, uma inquietação só, que eu vou transformando e pesquisando, explorando de formas diferentes.

CONTINENTE Inclusive tem um livro, né, que é um homônimo, O Extremo Oeste, de Sérgio Buarque de Holanda. Foi apenas uma coincidência, né?
PAULO FEHLAUER Foi. Na verdade, foi uma coincidência que depois foi assumida, porque eu já tinha decidido pelo título, Extremo Oeste. E depois descobri que havia esse livro do Sérgio Buarque de Hollanda. E as coincidências foram se agrupando. Por isso que eu resolvi assumir, porque o livro do Sérgio é um livro incompleto, que não foi concluído, termina em reticências. Para mim, pareceu interessante manter o título do meu, até como possível diálogo sutil, nada evidente, mas um diálogo, justamente porque o meu livro trata de uma construção de uma história que também não acaba. Então, resolvi assumir essa coincidência e mantive o título Extremo Oeste, até porque é uma grande referência, também. O Sérgio Buarque foi um cara que pensou muito no Brasil e acaba que, indiretamente, funciona quase como uma espécie de homenagem, mas nada explícito. Acabou que esse livro ficou, digamos assim, sutilmente me influenciando, aí, no momento final, a partir do momento que eu descobri essa coincidência.

CONTINENTE E agora, com o prêmio, haverá uma outra rodada de divulgação?
PAULO FEHLAUER O prêmio, além do reconhecimento, traz uma nova visibilidade. Então, acredito que pretendo, também, aproveitar esse momento e divulgar, porque, no fundo, o que a gente mais quer é que o livro seja lido. Então, quanto mais oportunidades de fazer com que ele chegue ao público, melhor. Por enquanto, tem esses planos. Acho que ainda no final do ano, agora, ainda fica um pouco parado. Mas pretendo, sim, seguir adiante e continuar divulgando esse aí e também continuar escrevendo um possível futuro romance.

CONTINENTE Você já começou o próximo livro?
PAULO FEHLAUER Olha, eu venho anotando em notas, venho pensando em possibilidades, caminhos. Ainda estou fazendo doutorado, termino no final do ano que vem. Então, tem um processo intenso de escrita da tese. Mas sigo trabalhando, sigo pensando. Não dá para deixar de lado. E, como falei, é uma única pesquisa. Então, o próprio processo de pesquisa do doutorado me traz novas influências, referências que eu pretendo, que vou juntando para colocar num novo projeto. Além disso, eu ainda pretendo continuar explorando os temas e até o território do qual eu falo no Extremo oeste. É uma região que tem uma complexidade muito grande, que também é muito pouco explorada na literatura brasileira. Então, acho que merece, tem potencial para escrever, para render outras histórias. Mas nada, ainda, muito concreto. Por enquanto, tenho bastante rascunho, anotações, mas ainda não tem um, digamos assim, um corpo suficiente para render um livro, já. Está em processo.

CONTINENTE Gostaria que você falasse um pouco sobre a importância de ter recebido o Prêmio Cepe.
PAULO FEHLAUER Eu tenho reforçado, toda vez que me perguntam, a importância do Prêmio Cepe, porque é um dos pouquíssimos prêmios de inéditos do Brasil, e, para quem é iniciante, estreante, é uma porta de entrada para o meio, porque a outra porta seria mandar para editoras, conversar com editores, mandar e-mails de recepção de originais, conhecer pessoas. Então, são várias as portas possíveis. Mas talvez o prêmio seja o que mais gere um reconhecimento de cara, porque oferece essa oportunidade de ser publicado, além do prêmio em dinheiro. Que tenha a possibilidade de ser publicado com reconhecimento. Porque no júri do meu ano tinha, sabe, pessoas incríveis, pessoas que eu admiro, como o Jeferson Tenório e a Verônica Stigger. Só por aí, né, já dá uma ideia da importância que o prêmio tem e da consistência que ele tem. E também falei que o Prêmio Jabuti também é para a Cepe, porque só confirma a qualidade do júri, e nem falando só do meu trabalho, mas, falando também, a Cepe já ganhou outros Jabutis, e confirma a qualidade do júri e a competência do prêmio. Então, para mim, acho que esse processo, esse reconhecimento, ele começa no prêmio Cepe, agora talvez ele chegue num ponto alto, né? Mas tudo começou lá com o romance sendo viabilizado por meio desse prêmio.

 

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